Mão & Caneta

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Espinhos do deserto

ESPINHOS DO DESERTO

Vegetação que é rude pela vida.
Sobrevivência e defesa;
Espinhos do deserto,
Uma certeza
Que lutar é o correto.

São versos
Que perfuram nosso anelo,
Para não serem sozinhos.

Espinhos
Que são duros, porém, belos,
Num deserto de carinhos.

Espinhos do deserto,
Um oásis poético
No caminho.




INSANIDADE

Arrebentar meu corpo
Sob a mão querida,
Não seria
Racional.
Minha insanidade mental
Mentiria
Ao dizer que sou normal.
Cansei de demonstrar um equilíbrio
Emocional,
Enquanto o tal
É o meu desequilíbrio.
Já não me interessa o bom senso.
Meu contra-senso
É a loucura.
Esta é a minha conduta,
A postura
De um mísero canibal.




O SERVO E A PRINCESA

Eu diria que você
É apenas uma escrava
Que me tira as sandálias
Por prazer.

Lava os meus pés nas lágrimas
Que seus olhos
Acabaram de verter.

Eu queria entender
O que se passa;
Uma princesa que se agacha
Para ao seu servo,
Atender.




NÃO VERDADEIRO

Amo esse teu jeito
De manter-se à distância,
Mesmo quando minha mão alcança
O seu leito.

Amo esse teu jeito
De criança,
Onde a esperança
Tenta superar o meu defeito.

Amo
Tanto quanto amaria,
Uma filha
Ao seu pai não verdadeiro.




MUITAS HISTÓRIAS

Talvez, por muitas histórias,
Fosse a história perdida.
Um conto
Que conta
Um tanto
Do quanto
Se escreveria.





SIMPLESMENTE SOFRER

Aquela vontade de ver,
De ter, de sentir.
Que não nos deixa dormir
E muito menos comer.
Aquela vontade de querer
Possuir.
Vontade de nos despir
Para morrer.
Vontade que não se pode esconder.
Aquela vontade,
Pode crer,
É simplesmente sofrer.




POSSUÍDO

Tenho a sensação de que você me possuiu
Tal uma virgem
Tem a alma exposta ao diabo.
Tenho a impressão de um sacrifício
A um deus omisso
Que condena os meus pecados.

Na satisfação,
Fiquei perdido.

Na desilusão,
Fui encontrado.




MANIBU

Um senhor, uma senhora,
O filho, o neto e a nora,
Sem importar-se com as horas,
Desfrutam do bom humor.

Uma coberta de palha,
Uma carnaúba pintada,
Fincada à beira da água,
Amenizando o calor.

Um lugar aconchegante,
Onde observo, um instante,
O vento mover a água.
Fica tão próximo à praia,
Que a água meio salgada,
Tem um estranho sabor.

Por que não darmos valor
Às coisas de nossa terra?
A vida parece eterna
No lugar onde eu estou.




O SEGREDO

Não há esperança onde há medo,
E nunca é cedo
Para lutar.
Se queres desvendar
O segredo,
Procura em si mesmo
Que irás encontrar.




CENSURA

O que querem os homens
Quando se censuram?
Querem ser tão puros
Quanto os seus mitos
Ou ditarem os ritos
De seu próprio culto?

Já somos adultos
Para calar o riso,
Para deter as lágrimas
Desse triste luto.




PARA TRÁS

Quão grande amor seria desfrutado,
Não fosse eu, agora,
Um eterno defunto
Que sob a lápide sente-se enojado
Com seu caixão rachado,
Com esse chão imundo.

Queria um espelho
Para olhar meus olhos fundos
Por ter chorado tanto
Pelo dia macabro.

Um noivo amado,
Deixou para trás
O mundo.




URGÊNCIA INESPERADA

Sento-me
Pela urgência inesperada,
Enquanto o corpo
Arrepia-se de cólica.
Bucólica,
A nudez que nos desarma
E o gemido que se solta.
O ar pútrido se espalha;
A face amarelada
Se deforma.
Esdrúxula hora,
A que o homem não controla
E desova
Sua líquida e fecal massa.



AO VENTO

Deuses sucumbiram ao silêncio;
Sob eles, os pagãos.
O monoteísmo atravessa o tempo,
Sob a égide dos cristãos.
Em meu ateísmo,
Sacramento
É sinal que ao vento
Voa, minha salvação.




SONETO DA DECLARAÇÃO

Quero declarar o meu amor
De uma maneira não moderna;
Com flores e recados à janela,
Com versos declamados ao sabor.

Eu quero por
Seu rosto em aquarela;
À luz de velas,
Beijar-lhe com pudor.

Quero ter o vento a meu favor
Para sentir o cheiro dela,
Para saber aonde vou.

Quero para sempre, meu amor,
Acreditar que a vida é bela
Enquanto ainda sinto seu calor.




O FRACASSO

Eu sei que a vida me leva em trapos.
Caldeirões de barro
De bruxos modernos.
Favelas de inferno,
Diversos buracos.

São armas de ferro.
São balas de aço.
Sou eu, o fracasso
De um programa sem sucesso.

Eu sei que a morte me olha de perto;
Que chego a sentir o seu frio abraço.
Eu fumo, eu prego
Minha mão no maço
De notas sem eco.

São barras de ferro.
Algemas de aço.
Eu sei que sou o fracasso
De um programa sem sucesso.

Eu sei que caminham lado a lado,
O errado e o certo,
A ira de Deus
E a fama do diabo,
Senhores e servos,
Patrões e empregados,
Progresso e atraso.

São os mãos-de-ferro
Em torres de aço.
Sendo eu, o fracasso
De um programa sem sucesso.





O PALHAÇO ESTUPRADOR

Entre sorrisos,
A ingenuidade aflora.
E o palhaço vê crianças irem embora.
Mas o palhaço, quando sai do picadeiro,
Vê a si mesmo
E se apavora.

Então oculta
Sua culpa
Por trás de um nariz vermelho
Tal o sangue de uma virgem que deflora.
E nessa hora,
O seu crime é descoberto.
A população, decerto,
O deplora.
Ao ser linchado,
O palhaço é condenado
Enquanto a morte o devora.



SEM ALMA

O que sou na verdade?
Me pergunto.
Sou poeira em um mundo
De migalhas
Ou a gralha
Que voa sem ter rumo
Para ser mera caça.
O que faço da vida
Que me culpa.
O que faço com a culpa
Que me abraça.
Fujo para dentro de mim mesmo?
Tenho medo
Desse corpo tão sem alma.



FINO VESTIDO

Se eu falo de amor,
Ela diz: - Que ridículo.
Com o olhar inibido
De quem ama.

Se a convido para a cama...
- Atrevido.

Se eu sair escondido?
- Um sacana.

Se levanto o seu fino vestido,
Sou um velho enxerido
Que se engana.

No entanto, se fico contido...
Ela tira o seu fino vestido
E me ama.



DAS RESPOSTAS

Quando o homem necessita
Busca respostas para a fome,
Para as doenças que o consome
Todos os dias.

Quando tem em abundância,
O supera a ganância
E o homem a si, basta.

Quando em desgraça,
Enlouquece.
De sua existência esquece
E vive de melancolia.

Quando está em harmonia,
O homem se questiona,
Busca respostas para a vida
Que tanto o emociona.



QUADRO DA MORTE

Sonho que a morte
É extremamente bela;
Põe o rosto na janela
E me diz: - Poeta,
Não és de sorte.
Vim buscar-te.

Sua voz não era grave.
Era meiga e suave,
E um pouco acanhada.

Com a janela escancarada,
Faço da morte uma arte
Na qual, ela não sustentava
Uma adaga afiada
De fino corte.
Pintei a morte cabisbaixa
E em silêncio.
Acordei com o frio vento
Que pela janela entrava.




NAS TREVAS

Agora, a vida não me espera.
Agora, o tempo não me espera.
E eu não espero mais nada.

Não há para mim
Noites sem trevas.

Onde encontro luz na terra,
Minha humanidade apaga.




SOU SOLITÁRIO

Não vivo só,
Sou solitário
Tal um peixe no aquário
Entre vários semelhantes
Da mesma espécie.
Não me aborrece
Ser diferente;
É que toda essa gente
Não me esquece.





DE ALGUÉM

Você não é só minha.
Também não é sozinha.
Jamais será de todos
Por não ser de ninguém.
Talvez, pertença a si mesma
Ou simplesmente seja
De alguém.




OUTRA OPINIÃO

Disse-me um dia, um senhor,
Que quem vive de ilusão
É um mero perdedor.
Sou de outra opinião.
Não importa a razão,
O credo ou a condição,
Para quem vive de amor.
Pois, quem vive de amor
Também vive de ilusão.
Perdoe-me a conclusão:
Mas quem vive de ilusão
É um mero sonhador.




MODERNIDADE E DESGRAÇA

Você pode até achar
Que eu estou imaginando
Todavia, enquanto
Um carro passa,
Um velho carneiro pasta
E um urubu paira,
Voando.
Modernidade e desgraça
Assolam o homem do campo.




O LÍDER

Quando minhas palavras
Não forem suficientes
Para vos dar firmeza,
Com atos e proezas
Deveis ir em frente
Em formações coesas.

Quando nossas armas
Ferirem o oponente
Com a mais vil frieza,
Seremos inocentes
Por sermos mais valentes,
Podeis ter certeza.

Nossa vitória é a mesma.
Oh! Bravos dissidentes,
O ideal presente
Será nossa grandeza.



MADEIRA APROVEITADA

Sou uma árvore tombada
Em silêncio,
Pelo tempo
Que minha avó a plantara.

Sem dividir meus frutos,
Sem revelar minh’alma.

Os meus ossos corrutos,
Serão madeira aproveitada.




VIDA BREVE

Por que a vida é tão breve
Para os que tentam vivê-la,
Enquanto outros vivem tanto
Sem ao menos merecê-la?

Talvez viver o bastante,
Ainda seja
Viver os poucos instantes,
Da maneira que se deseja.




ATOS PROIBIDOS

Um jovem urinou atrás de um carro,
No mesmo ato
Sofreu um tiro.
Um outro, seu irmão, ao seu lado,
Também foi alvo.
Duas mortes sem sentido.

Quem nunca deu o dedo
Quando se manda alguém tomar no C.?
Acredite você,
Alguém se achou tão ofendido
Que disparou dois tiros.
Mais duas mortes sem sentido,
Sem porquê.

Queria eu saber,
Onde está escrito
Que um homem pode ser executado
Por viver
E que os mais simples atos
Levam-nos ao extremo, que é morrer?

Pretendo defender
Que ninguém ande armado,
Nem mesmo um soldado
Cumprindo seu dever.

Nenhum dos assassinos, nesses casos,
Eram bandidos vis e procurados.
Mas cidadãos armados
Que estavam ofuscados
Com o brilho do poder;
Poder de tirar vidas,
Simplesmente por querer.

Está em nossas mãos.
Na próxima eleição,
Vote em quem merecer.
Talvez seja ilusão.
O que vamos fazer?
Dá o dedo pra morrer.




DAMA ARDENTE

Eu adoro o seu nome,
Mesmo que você não goste.
Está bem o seu decote,
Não requer o silicone.
Não seja tão exigente
Consigo mesma;
Você esbanja beleza,
Dama ardente.
Sua boca é inocente
Quando fala.
Mas peca cruelmente,
Quando beija.



PENÚLTIMA ENTIDADE

Deixo os meus pecados enterrados
Nas profundezas do inferno.
Enquanto o verbo
Alimenta-se de minha carne,
A minha alma parte
Sob as asas do eterno.
Eu sou, decerto,
A penúltima entidade.




HISTÉRICA

Tenho medo de sair às ruas,
Não por temer as suas
Pretensões,
Mas por razões
Diversas
Que não me cabe às pressas,
Gritar a plenos pulmões.
Não cabe a mim
Sermões
E nem lições
Ou regras.
E pouco me interessa
Sua maneira histérica
De ver as relações.




COMO OUTRORA

Os dias de hoje
Não são como outrora;
Não há mais senhora,
Pois não, por favor,
Com sua licença,
Perdão, paciência,
Palavras amenas
De enorme valor.
Os dias de hoje
Não são como outrora.




OFENSA

A minha felicidade,
Após a sentença,
Não é pela promessa
De sua crença,
Se eu fosse perdoado.
Mas, pelo que eu fiz no meu passado,
Pelo sabor de minha inocência.
E quando soam os sinos no campanário,
O meu veredicto de culpado:
É pura ofensa.




MULHER AMADA

Sem os arroubos de minha juventude,
Numa atitude
Precipitada,
Eu daria minha própria vida
Pela mulher amada.

Sem temer a tumba escancarada,
O ataúde
Já de tampa aberta,
Eu trocaria de lugar, na certa,
Com a mulher amada.

Eu fitaria seu rosto,
A envolveria com calma
Com meu próprio corpo
Que somente morto
Possuiria alma.

Meu corpo
Antes vazio,
Só teria agora um desafio:

O de guardar para sempre,
A alma tão presente
Dessa mulher ausente
Por ele tanto amada.




SEM PAR

Tentei matar
Esse amor no coração
Por inteiro, em solidão,
Depois de nos separar.

Todavia, entre fazer e falar,
Há uma enorme distância.
Você é bem mais que lembrança,
É uma presença no ar.

Fugir para um outro lugar,
Tentar esquecer é em vão;
Você é uma estranha visão
Que não sai do olhar.

Quem sabe, eu possa encontrar
Um jeito de silenciar
A voz que ainda grita em mim?

Talvez, seja também o fim
De um louco sem par.




CARONA

Despem-se sob a lona,
Damas de saia.
E cada uma,
Aranha
Que suga o sangue
Das palavras.
De mão vazia, anda
Tecendo a teia que agarra
Os grãos de areia
Que o vento apanha
E semeia
No chão da estrada.




OFENDIDO

Acreditou na ilusão
De que o inferno se acabou.
Mas não queria ver
Ninguém chorar no céu.
As próprias lágrimas, enxugou.
No coração, se arrependeu.
Não perdoava Deus
Por tê-lo feito ateu.




PELA RAIZ

Prefiro lamentar a vida toda,
Por ter feito a escolha
De viver à toa
E ser dono do nariz,
Do que acreditar que sou feliz
De mãos atadas,
Como árvore desgalhada
E imobilizada
Pela raiz.




NATUREZA

Vejo o céu cerzido ao mar
Pela linha do horizonte;
Uma anciã a costurar
Com a luz do sol defronte,
Tão sombria e tão distante.
Talvez, seja a natureza
Encoberta da tristeza
Que ainda lhe causa, o homem.



A HORA DO ORGASMO

A hora do orgasmo
É a hora em que eu encontro
Deus e o Diabo
Sentados,
Frente a frente,
Olhos nos olhos
E em completo silêncio.
Então, eu quebro este silêncio
Com meu grito de prazer.




OLHOS DE AZULÃO

O que busca essa mulher
Pela qual minto,
Senão
A mesma solidão
Que sinto
Quando longe de seus olhos de azulão?

Os mesmos olhos
Que me olham da gaiola
Quando eu abro a porta
E eles vêem a imensidão.




COMO VÊ

Por que o mundo vê meu rosto
Como vê,
Enquanto não consigo enxergar nada?

Talvez, minha pergunta
Esteja errada
Ou jamais haja
Alguém pra responder.

Será que meu semblante
Só não retrata minha alma
Para o meu ser?




UMA MÃO

Quero reter
Minha vida nos seus braços.
Quero viver
De orgias e orgasmos.

Todas as noites que eu passo
Só, em claro,
Aumenta minha aflição.

Sob a nudez e o fracasso,
Apelo desesperado
Por uma ajuda,
Uma mão.




SE FOSSEM SÃOS

A rima
É mera aflição
Dos versos que me espelham
Naquilo que são.

De forma nenhuma dirão
Do que são feitos.

Meus versos
Seriam perfeitos
Se fossem sãos.
Mas nada são,
Senão
Defeitos.




ENTRE CORPOS NOS QUINTAIS

Os que lutam pela liberdade
Estão atrás das grades.
Estão em guerra,
Os que lutam pela paz.
O que faz
Aquele que os menospreza?
Será na certa,
Destaque nos jornais.
Estão loucos,
Os que buscam ideais.
Talvez mortos,
Entre corpos,
Nos quintais.




EM TOM DE BRINCADEIRA

Pensei que teria a vida inteira
Para consolidar meu compromisso.
Mas, tua ironia foi preciso,
Para a percepção de minha asneira.

Se minha condição não é aceita,
Não quero mais correr tal risco,
E tudo acaba aqui, em um sorriso,
Em tom de brincadeira.




MEU CORAÇÃO MORRE POR MIM

Meu coração
Não diz que não,
Nem diz que sim,
Talvez, por que,
Quem sabe, então,
Quando está em solidão,
Quando já não está em mim.

Meu coração
Pede perdão,
Na ilusão que não tem fim.
Na mais esdrúxula compaixão,
Meu coração
Morre por mim.




AQUELA SAUDADE

Sinceramente, o que sinto
É na verdade uma queixa,
Como quem parte sozinho
E mesmo indo
Se deixa
Ficar ali, à vontade;
No peito, aquela saudade
De quem há muito deseja
Voltar no mesmo caminho.




PARAÍSO ANÔNIMO

Nesta solidão em que me encontro,
O mundo ficaria pronto
Em um só dia.
Pois tudo que existe eu deixaria,
Menos, claro, o ser humano.

Por tudo que vem dele ser profano,
A natureza me agradeceria.
Jamais ia querer tal companhia.

Nem mesmo eu, existiria
Nesse paraíso anônimo.




A INVERSÃO

Dizem que sou um louco
Por inverter minha vida.
O meu cotidiano, o dia-a-dia,
É para mim, um mero sonho.
E tudo aquilo que componho
Em meus sonhos,
Não considero utopia,
Mas sim, a realidade.
Eu sou assim, um animal noturno,
Por viver durante a noite.
Passo o dia todo de olhos abertos
Num sonho, desperto, irreal;
Sendo um homem normal,
Com problemas, com tédio
E uma falsa moral.
Considero que quando fecho
Meus olhos e adormeço,
Eis aí o começo
Do mundo real,
Onde sou bem e mal,
Um herói, um bandido
Ou um deus imortal
E não corro perigo.
Não há dor
Que eu não possa sanar.
Não há mal
Que eu não possa curar.
Sou capaz de voar,
De fazer com que algo aconteça.
Que ninguém nunca esqueça
Que viver, na verdade, é sonhar.
Vem o sol, me desperta
Para o sonho que é a vida real;
Sou agora um mortal,
Um completo pateta
Que trabalha e tem pressa
De chegar.
Eu prefiro voltar
Para o mundo ideal.
Adormeço, e afinal
Volto à realidade
Do que chamam sonhar.




A FANTASIA

Amo você
Com o mesmo ardor da juventude,
Na quietude
De minha atual idade.
Amo-a na ausência
Como num dia de saudade,
Detenho-me a cada ínfima lembrança,
Com a mesma paz
Que traz
Aquela esperança
Após uma guerra.
Amo-a em terra
Com a cabeça pelas nuvens.
Amo atitudes
Que jamais seriam minhas,
Como entre linhas,
Leio uma poesia.
Amo como se ama o alvorecer
De cada dia,
Como o sorriso
Na inocente alegria
De um bebê.
E ter você,
Ainda parece utopia.
Mas, quis a vida
Que eu vivesse a fantasia
De meu ser,
Que é para sempre,
Você.




QUANDO CHORO

Onde andam os meus olhos
Quando choro,
Se não consigo encontrar
As minhas lágrimas?
Nas migalhas,
Além de meus remorsos?
Nos meus ossos,
Aquém de minha alma?



A RESPOSTA É NÃO

Quero a resposta
Pra meu corpo que ainda pede
O toque de tua pele
Na imprecisão imposta.
Ao ver as tuas costas,
Eu entendo que me negue.
A vontade que espere
Por ser não, tua resposta.



MINHA GERAÇÃO

Essa amargura
Que me faz um homem rude,
É mera atitude
De defesa.
Odeio a pobreza
Que aos pés de Deus se ilude;
Enquanto a juventude,
Nada almeja.
Desprezo a mania de grandeza
Que o rico tem com tudo.
Não sou um carrancudo
Por frieza;
Somente faço uso
Da tristeza
De um sisudo,
Por ser fruto
De uma geração que aceita.




TENTATIVAS

Tento, tento,
Não me engano.
A cada dia morrendo;
É o mal de ser humano,
A paga de estar vivendo.

Tento, tento,
Não reclamo
Por estar envelhecendo;
É sinal de muitos anos.
Nas rugas, espelho o tempo.

Tento, tento,
Tento tanto.
Talvez, a morte sem pranto
Seja o melhor acalento.




EXPLORAÇÃO DO MEDO

O que está preso
Em meu peito
E que à noite, me apavora,
Que não controlo e me dá medo,
É a violência de agora.
Está dentro de mim mesmo
E se espalha em segredo
Pelos corações lá fora.
O que ainda me controla
É saber que morre cedo,
Todo aquele que explora
Com violência, o medo.




REMOINHO

Surpreende-me o vento
Que atravessa o meu caminho,
Elevando a poeira,
E joga um punhado de areia,
Em meus olhos desatentos;
Cobrindo o meu pensamento
Que faz um redemoinho
De idéias e asneiras.




OS TRÊS PODERES

Quantos poderes nós temos?
Temos poderes demais.
Os quais, não funcionam.
Seriam três?
Talvez,
Se não me engano.
Vamos citá-los um de cada vez:

O executivo,
À beira do lixo,
Nada executa.
É só desculpa
E embromação.
Enquanto à nação?
Uma enorme estação
De corrupção
E filhos da culpa.

O legislativo
Já está no lixo,
Só tem ladrão.

Há exceção?
Sim, lá tem bandido,
Cara de pau
E mercenário.

O judiciário
É um triste cenário.
Mas teatral.
Gente do mal
Fingindo bem.
Que porcaria,
A hipocrisia
Manda tão bem.

Bem, na verdade,
Não há poderes,
Há poderosos
Que sobre os ossos
De nosso ofício,
Erguem o vício
Da impunidade.

Põem a justiça na contramão
E atrás das grades,
O cidadão.




O PEDINTE

À mesa ainda bem posta,
Uma jovem meiga, inocente,
Tão fina e sorridente,
De uma beleza espantosa.

A observo da porta.
Sinto-me tão impotente,
Que não escuto a resposta
Do homem que toma a frente.

Com uma voz insistente,
Obriga-me a dar-lhe as costas.
Vagueio por longas horas,
Com a sacola pendente.
Estava alheio ao presente,
Já não pedia esmolas.

Pensava: Que faço agora
Que descobri que ser gente
É coisa bem diferente
Do que acreditava outrora?

Eu sou aquele que chora,
Em meio aos indiferentes.
Talvez, eu seja descrente
Com o mundo que me explora.

Não estou sozinho; embora
Não tenha amigos presentes.
Sei que a miséria é crescente,
Que em si, é paciente,
Morre à míngua sob a glória.




POR SER LOUCO

Teus olhos negros me espiam
Dentre as trevas,
Pelas frestas
De tábuas velhas
E úmidas.

Enquanto ouço teus gemidos
Sob a terra,
Negocio o teu preço,
Sem apreço
Pela vida em minhas unhas.

Cravei teu corpo
E selei a tua morte;
Não por ser forte.
Mas, por ser louco.




ROMÃ

Com a graça de Deus,
Encontrei o inferno.
E lá estavam os anjos
Ao lado de satã.
Era uma bela manhã
De inverno.
Uma jovem pagã,
Que tentava decerto,
Colher uma maçã;
Exibia seu sexo
A um velho perverso
Que a chamava
Romã.




TOLOS

O mais tolo de nós dois
É o que se acha mais esperto.
Que decerto,
É você.
Pois, se eu dissesse o ser,
Estaria me gabando.
Dessa forma, condenando
A ser tolo sem querer.




SONHO ESPECIAL

Tive um sonho especial,
No qual,
Um talento musical
Dedilhava bons versos.

Nesse universo
Cultural,
O valor estético
Era a essência musical,
Não o voltívolo sucesso.

Mas, ao inverso,
Na vida real,
O cenário habitual
De letra sem muito nexo,
De melodia banal,
É a mídia,
É o sucesso.




SADE

E com meu sangue
Nas paredes, eu faria
Como o marquês.
Escreveria,
Por minha vez,
Poemas obscenos.
Em meus acenos,
Investiria contra deus
E seus
Pretensos mandamentos.




A CENTENÁRIA

Eram paredes largas.
De uma altura imensa,
O teto desta casa.
Cem anos de existência.

Dos ancestrais, a falta
Da eterna insistência
De mantê-la habitada.

Dos herdeiros, a mágoa
Por tê-la exposto à venda.

Casa,
Casarão da fazenda.
Mato seco molhado
Pelo tempo esperado
Na saudade expenda.




O ROSTO

A dor do silêncio,
Por abafar um grito
De morte.
O mesmo silêncio
Que não me permite gritar
Mais forte.
Na expressão de cada olhar,
Vê-se o medo
De um segredo
Pelo mundo ocultado.
Em um retrato,
Vê-se um rosto tão perfeito,
Que não se nota
As feridas do passado.




EM SILÊNCIO

Eu não fico em silêncio.
Talvez, o burburinho
Faça-me pensar melhor.

Na garganta,
Um nó
Desatado.

Assim, se engana
Um homem acostumado
A ficar só.




MELITO

Vejo tantos
Procurando um artifício
Que é difícil
Encontrar uma saída
Em uma luta persistente pela vida.

Ainda corre-se o risco
De herdar tal precipício,
A diabetes melito,
Um eterno sofrimento.

São picadas,
Insulina,
Uma luta que não finda,
Luta árdua, de lamento.
Jamais, se sai vencedor.
Mas, pode com ardor,
Controlar tal inimigo.




NO PONTO

Ponto de pontuação.
De entrada e de saída.
Onde está a condução
Para a hora da partida.
Ponto para união
Na costura e cirurgia.
Na disputa, a emoção.
Em cada ponto, a conquista.
Ponto para aprovação,
Na matéria pretendida.
Para a localização
Da embarcação perdida.
Eis o meu ponto de vista
(Ponto como opinião).
No ponto, está minha pizza;
Ponto aqui é perfeição.



UUH!

O que chama a atenção
Num velho trem ou navio
É a sonorização.
Em nossa boca,
O assovio.
Uma mera interjeição:
Uuh!
Teria a mesma função.
Nesse caso, então,
Quer dizer o melhor pão
Que esta cidade já viu.



A PIZZARIA

Venha, você mesmo, veja!
Esse lugar é demais.
Enquanto o pedido sai,
Podemos tomar cerveja
Ou mesmo ficar à mesa,
Entre conversas banais.
Entre gestos casuais,
Mantemos a idéia acesa.
A espera, não nos deixa
Perder a calma e a paz,
Por termos plena certeza
Que sorriso e gentileza
São ingredientes adicionais.



O AMBIENTE

Qual seria seu segredo?
Seria a massa, o queijo,
O presunto, o tempero,
O calor do forno aceso
Ou a mera dedicação?

Não há fórmula, nem segredo.
O que faço é o mesmo
Que faz cada parceiro
Numa longa relação.
Na verdade, meu desejo
É a sua satisfação.
Sei que o sabor vem primeiro;
Mas, o ambiente inteiro,
Além de muito aconchego,
Tem que ter animação.




MANHAS

As manhas
De um tempo de ressaca,
Onde a cachaça
Alcançava as manhãs,
Eram tantas,
Que ainda deixam embriagadas,
As noitadas
Que são agora, vãs.
E permanecem em mim,
Tão abraçadas,
Que chego a sentir n’alma,
Seu afã.




TODOS VOCÊS

Talvez,
A lucidez
Não me acolha,
E ao não ter escolha,
Serei louco de uma vez.
Se à estupidez,
Ninguém perdoa;
Que vá à porra,
Todos vocês.




PERTURBADOR

O amor nos regenera
Das feridas
Que a vida
Nos flagela.
Eu diria isso a ela,
Se aceitasse me escutar.
É estranho a gente amar
Quem não nos preza.
É perturbador,
Você querer alguém
Que está além
De seu amor.




SE NÃO ME DOU

Eu saberia me dar
Se soubesse ser.
Por não saber
Se sou,
Não saberia
Se sei,
Se me daria,
Se dei,
Se não me dou.




PORTA ABERTA

A porta está aberta.
O mundo está lá fora.
Aqui dentro, a espera me devora.
Aonde iria a esta hora?
A qual lugar?
O que faria,
Se viesse a me encontrar?
Há escuridão
Por trás das últimas luzes.
Há desilusão
Por trás das últimas cruzes.
Vozes que dizem amém.
Eu irei também.
É noite,
As estrelas me intrigam.
Há curiosidade
Ao que é real de fato.
Estou fora.
Estou descalço.
Estou farto
De retórica.

Minha vista não alcança o infinito.
O meu grito
Não se escuta em alto mar.
Vou entrar;
Já que em casa,
Eu me conformo que a vida
É um véu sob medida
Para a ilusão contida
Em meu pesar.




VOA PRA CASA

Volta no tempo,
Batendo asas.
Voa pra casa.
Volta pra mim.
Não há um fim
Para quem casa,
Só a desgraça
De achar que sim.




O FRUTO PROIBIDO

Você é o fruto proibido
Que ousei tocar.
Um amor que só se dá
Sem receber.
Quanto mais perto está,
Eu posso ver
A distância que separa
O céu e o mar,
E que teima em separar,
Eu e você.



NA RAIA

Se você me beija,
Me deseja.
Desejar, que eu saiba,
É querer.
Eu quero dizer,
Antes que saia,
Que cair na raia
É perder.




ENTRE ESPINHOS E FLORES

Como posso
Abandoná-la no caminho,
Se sozinho,
Eu jamais irei chegar?
Eu teria que voltar
Entre flores e espinhos,
Para lhe acompanhar.




ENTRE ESPADA E PODER

Linda criatura,
Os teus olhos são a cura
Para o meu ser.
Nem tento viver
Sem tua ajuda,
Minha armadura.
Entre espada e poder,
És minha jura
De novamente nascer.




TRÁGICA VISÃO

Minha vida tão sem cor,
Não tem matiz.
E por um triz,
Eu não conheci o amor.

Minha alma não tem par;
Meu falar
Não tem razão
E minha mão
Não consegue alcançar.

Minha cama tem lugar
Para mais dois.
Mas, e depois?
Só o tempo me dirá.

É preciso emergir
Da solidão,
Um coração
Que não pára de sonhar.

Minha cabeça
Ainda teima
Em pensar,
Ao mergulhar
Para a eterna escuridão,
Onde a emoção
Sopra a tenra luz que há,
Iluminando sutilmente, meu pesar,
Numa trágica visão.




O PERDÃO

O que seria o perdão,
Senão
Uma esdrúxula fraqueza?

Para um erro grave,
O perdão quem sabe,
Só burrice, seja.

Perdoar a todo custo,
Não seria justo
Para a vítima indefesa.

O perdão, talvez
Seja, mera estupidez
De quem o deseja.




COMPLEXO

Enquanto todos se lembram,
Eu sou o único esquecido.
Nunca estou em foco
Por ser imprevisível.
Enquanto todos se tocam,
Eu me afasto e evito.
Talvez, por que não suporto
Esse ato presumível.
Nem mesmo a mão de um amigo,
Serve de apoio.
Num vasto campo de trigo,
Eu sou o joio.
Estou um tanto perplexo
Que ninguém veja a verdade.
Não é apenas complexo,
A minha inferioridade.




VERSOS MÓRBIDOS

Em meio a tantos pensamentos tortos,
Meus anjos
Nasciam mortos.
Entre seus corpos,
Eu nasci.
Tão só,
Que não ouvi
Nem o meu choro.
Tão louco,
Que não sabia chorar.
Tiveram que arrancar
Os meus dois olhos,
Pra meu remorso,
Entre lágrimas, jorrar.
Tentaram me escutar
Ao som de ossos
Que teimavam me quebrar.
Em seu lugar,
Puseram um velho relógio,
Que em versos mórbidos,
Parecia minhas horas não marcar.




ATÉ A MORTE

Sei que meu amor
Valeria minha vida.
Sem dúvida, lutaria
Até a morte.

Não seria por grandeza;
Mas por ter plena certeza,
Que meu amor mereceria
Minha sorte.




DESPREZÍVEL

Aos poucos, que percebem que eu existo,
Insisto
Que esqueçam quem eu sou.
Eu quero ser apenas desafeto,
O inseto
Que uma bota esmagou.
Um véu tão transparente
E sem cor,
Que a toda gente,
Se torne invisível.
Desejo ser um homem desprezível,
Que o mundo não me dê nenhum valor.
Que o meu nome cause tanto horror,
Que seja evitado se falar.
Desejo para sempre, me ocultar,
Por ser considerado um maldito.
Espero que ao ter me esquecido,
O mundo nunca mais volte a lembrar.




VAZIO IMENSO

Faz pouco tempo
Que sai de casa;
A deixei deitada,
Junto ao rebento.

O dia é lento,
A hora não passa,
A saudade agasta
O meu pensamento.

Já não agüento
Esse sentimento,
Um vazio imenso
Dentro de minh’alma.




PARA FUGIR DE TUDO

Fujo
Da melancolia,
Para não cortar meus pulsos.
Quando a pele arrepia,
Sinto calafrios, impulsos
De trocar a minha pele,
Pela agonia
Que me fere,
Que me alicia
A deixar a vida
Para fugir de tudo.




VULTO

Sob a lua, quis chorar,
Meu ser confuso.
Um intruso
Na vontade de pensar.
Já não canta,
Por querer manter-me mudo
No absurdo
De nem mesmo me falar.
Se eu não moro em seu lugar,
Serei só vulto
Desse ser, que em mim oculto,
Quer ficar.




NO MEU ROSTO

Pelos meus olhos,
Não sei se sou louco
Ou serei outro
Que não quer se achar.
Perdi meu ar
De bom moço.
Perdi meu gosto
De amar.

Pelos meus olhos,
Não sei se sofro;
Se, é de desgosto,
Esse meu pesar.
Eu tento ver no meu rosto,
Se ainda é pouco,
O que há.




PELA CALÇADA VAZIA

Pela calçada vazia,
Perambulava.
Meu peito aberto, fazia
Papel de escudo
Ao vento e a tudo
Que ele trazia
Da noite fria
Que me queimava.
Meu corpo ardia,
Alheio e mudo
Eu insistia,
Ainda teimava.
Chegasse a noite,
Chegasse o dia,
Eu estaria
Perambulando
Pela calçada
Quase vazia
Da madrugada.
Pela rua movimentada,
De vez em quando,
Esbarraria
Com o rosto humano
Que eu já não via
Quando o espelho
Me espelhava.
Enquanto perambulava
Pela calçada vazia,
Ao esquecer que existia,
Perdia
A alma.




IMERECIDOS

Andei perdido
Por diversos pensamentos,
Atrelados ao momento
Que dividi com você,
Que duvido viver
Mais uma vez.
Era uma vez
Nós dois, talvez,
Como amantes.
Nunca será como antes.
Eu e você,
Bons amigos
Imerecidos
De uma noite de prazer.