Mão & Caneta

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Megalíticos

MEGALÍTICOS

Os megalíticos,
Outrora, pelos antigos,
Foram deixados na história.

Eis que agora,
Megalíticos é um livro
Que cada poema explora.

Meio-dia,
Quando o sol está a pico,
Um megalítico menir se isola.
Cada verso é um dólmen erigido.
Cada leitor um nativo
Que a Megalíticos se prostra.

Capas abertas
Fazem do meu Megalíticos,
Uma pedra filosofal.





DEPENDENTE

Entre satisfação e medo,
Eu não resisto
Ao que me oferece o ópio.
Ódio
É o que me resta,
Pesadelo e desesperança.
Choro convulsivamente
Como uma criança.
Não me cabe mais escolha,
Não que eu seja diferente,
Talvez, por viver à toa,
Uma vida toda
Como dependente.




DA BOCA DE UM ANJO II

Se você crê,
Amém.
Não tenho credo.
Nas profundezas do inferno,
Encontrar-lhe-ei.
Não sigo sua lei
E nem espero
Que me perdoe pelo tanto que eu sei.






AFÃ

Sinto
Que o dia de hoje
Não tem nenhuma importância;
Apenas o ontem
Será lembrado amanhã.
O futuro,
Essa mera lembrança de dias passados,
Não me é revelado,
Por não acontecer.
Ontem, hoje e amanhã;
Ilusões do afã
Que é viver.




REFORMA

Vejo a noite escancarada
No silêncio
Do meu quarto em reforma
Sobre o alicerce do meu dia.
Desarmonia
Nas ferragens meio tortas,
Onde portas
Entreabertas
Me espreitam.
Não sinto medo;
Só enfado e revolta
Com areia, cal, cimento.
Fina poeira
No meu tosco pensamento.




PROSCRITOS

Todas as façanhas
Derrubadas
Nos delitos revogados pelos
[tempos de história,
Foram vitórias
Delegadas aos proscritos
(Homens em grito,
Que a humanidade chora).
Quando os esforços de memória
Forem ouvidos,
Nossos gemidos
Suplantarão a nossa glória.





MERO ESPECTADOR

Sou mero espectador;
Não sigo torcidas,
Não adoro a ídolos
E nem cultuo deuses.
Apenas me apercebo das descidas,
Quando caio.
Se estou no meio,
Saio.
E quando me dou por vencido,
Choro.





CONDIÇÃO

Ser feliz
Além de toda comoção,
Sem uma razão aparente.
Esse é o mundo da gente:
De sentido e emoção;
Da plenitude à exceção.
Somos todos diferentes.
Seres humanos que mentem
Sobre sua intenção.
Cada um
Retém na mão,
Seu valor inconseqüente;
Sendo tão incoerente
Quanto suporte a razão.
Se não há compensação,
Somos descrentes;
Conscientes
Que essa é nossa condição.



ALTO PREÇO

Beijo lábios
Depravados
Pelo vício de amar,
Sem notar
Que são meus, os lábios castos.
Esta é a primeira vez
Que estou a me encontrar
Entre pernas e abraços.
Quanto tenho que pagar
Por meu cansaço?
Um alto preço,
O do fracasso,
Por não me realizar.



DIMENSÕES DE MIM

É pela maldição dos dias
Que exercito minha caridade.
Enquanto minha santidade
Me penitencia.

E quando sinto dor,
Minha alegria
Me deixa saciado,

O meu pecado
Me alivia.

Se acaso, o meu eu santo
Fosse condenado,

O meu eu demônio
Me salvaria.



RIGATIVA

Não deixem minha razão
Suplantar os meus delírios;
Neles, existo
De maneira atemporal,
Sou irreal,
Se na realidade, vivo.

Ao ser normal,
Eu inexisto.
Só ao ser louco,
Sou imortal.





OLIGOFRENIA

Tem que emudecer
Quando todos se calam
Pois sua voz
Surpreende-o com palavras em demasia.
Talvez seu ímpeto,
Seja apenas alegria
Ou meramente mediocridade.
Ele tem a mesma idade
De quem o via
Antes da maioridade.
Não é maldade
Nem covardia;
Talvez seja, na verdade,
Sua oligofrenia.



ENTRE SOMBRAS

Não consigo encontrar-te
Entre as sombras do inferno.
Este teu amor eterno,
Que me guarde.
Sinto tanto,
Talvez tarde,
Pelo pranto
Que me impede
De pedir
Ao teu Deus-padre.




HESTERNO

Em minha solidão,
De onde tão alto,
Num prédio em construção,
Eu observo
A enorme multidão
Sob meu salto.
Vôo em busca do hesterno.
Fui tão suavemente ao meu passado,
Que descobri no chão rachado,
Que era eterno.




LÁBIOS CONTORCIDOS

Tenho os meus lábios contorcidos
Aos soluços
De quem chora.
Tenho uma hora
De silêncio,
Só,
Comigo.
Não importa
Seu evito
A pessoa que me adora.
Eu não consigo
Encontrar o meu sorriso
Que a pouco foi embora.




PATÍBULO

Podia pedir a meu rei
Que fosse clemente comigo,
Por está acima da lei,
Punir a um homem perdido.

Mantendo meu punho erguido
Diante do sombrio patíbulo
Aonde serei enforcado;
Talvez seja, enfim, perdoado.
E o rei em um ato isolado,
Liberte a mim, do castigo.




AUTISTA

Sua vida é devotada
Ao silêncio de si mesmo.
Qual segredo
No seu íntimo,
Tanto agrada?
Observa-se no espelho
De sua alma,
Vê sua dor, seu desespero.
Assombrado por não vê-lo,
Ante o medo,
Perde a calma.



BARRACÃO

Estou bêbado;
Mas consigo divisar o ambiente.
Nenhum deles, à minha frente,
Compreende
A minha observação.
Desconhecem um poeta em ação
E a força de expressão
Que tem seus dedos.
Meus apelos
São em vão,
Mas em minha solidão,
Em desespero,
A caneta tão sem zelo,
Aconchega-se à minha mão.
Lentamente, eu descrevo
Tudo que vem à visão:
Uma moça de joelhos
Acordando um ancião
Que de tão bêbado,
Só lhe diz: - Não, não, não...
Um rapaz de rosto feio,
Grita para seu irmão
Que está cheio
Daquela situação.
Vejo por trás do balcão,
Um senhor de enorme queixo;
Seu desleixo,
Dá até má impressão.
De repente, do banheiro
Sai um negro
Bonachão,
Que se gaba por ainda ser solteiro.
Um modesto cavalheiro
Tem a mesma opinião.
Chama minha atenção
Um outro, alheio,
Que parece ser eu mesmo,
Refletido no espelho
Do salão.



O SOBRINHO

Mas que sorte
Tem esse filho da mãe.
É filho de puta parida
Na promiscuidade permitida
De minha irmã.
Que vida teria
Se fosse de virgem Maria?
Seria uma pena,
Melhor Madalena
Minha irmã,
Que acorda mais rica
A cada manhã.
Foi ele na certa,
Que enganou a Eva
Com uma simples maçã.
Que filho da égua,
Enganou Rebeca
Minha filha
Que agora parida,
Esconde a bebida
Que alivia meu afã.



TUAS MÃOS

Quando tuas mãos me tocam,
Peço clemência;
Posto minha inocência
Se matar.
Nascendo assim, em seu lugar,
Minha indecência
Na veemência
De docemente
A penetrar.





PRECONCEITO

Não tenha pena de mim,
Não sou um pobre coitado,
Por minha deficiência.
Sou ao contrário,
Um forte,
Por superar no esporte,
Essa minha diferença.

Não passa de preconceito,
Esse exagerado zelo
Pelo meu bem-estar.

Se você quer ajudar,
Reflita consigo mesmo:
-O meu defeito
É julgar.



PARAPLEGIA II

A cena se repetia.
O mundo em volta,
Girava.
No último degrau, me via.

Eu não pude fazer nada.
O garoto cai da escada
Como eu caí
Um dia.




POBRES

Pobres
Não são os famintos,
Nobres de coração.
Pobres são os exploradores
Esnobes, distintos,
De enorme ambição.
Seriam pobres
Os doutores;
Doutos,
Mas sem compaixão?
Talvez sejam pobres
Os loucos,
Posto não terem a razão.
Ou pobres, seriam os déspotas;
Pois que desejam, na certa,
Terem o mundo na mão?




QUEM SÃO ELES?

Eu reflito
Na indagação que ecoa:
Quem são eles
Senão eu, como pessoa?
O garoto que caçoa
Do mendigo.
O notívago,
Sob a lua, adormecido
Por vagar a noite toda.
A patroa
Que reclama do vestido.
A empregada
Que num amargo sorriso,
Pede desculpas à toa.
A esposa
Que exaspera o marido
Por nunca lhe dá ouvido
E que sempre a magoa.
Sem escolha, eu repito:
Quem são eles
Senão eu, como pessoa?




ANTE A SOLIDÃO

Vejo um velho calvo
Que passeia ao largo
De um calçadão.
As luzes acesas
Revelam as meias
E o seu calção.
Um lenço na mão
E a expressão
De alguém que almeja
Apesar da idade,
Sua mocidade
Que longe vagueia,
Mostram, na verdade,
Que ele tem saudade
Ante a solidão.




SEU DESEJO

Se os meus olhos
Incomodam-te,
Tenha calma.
Eles apenas perscrutam
Tua alma.
Se tens medo
Que eu veja que ela paira
Sobre a solidão e o desespero,
Estás certa.
Vejo nela
Ambição e picardia,
E o inferno que alicia
Seu desejo.




MORTUÓRIO

Quem é esse
Que adultera minha letra
Em pergaminhos mortos
E oculta em sarcófagos
Os meus ossos
Sob a areia?

Quem é esse
Que aproveita
O meu ódio
E adora-me numa seita?

Quem é esse
Que aceita
Ser eu mesmo?

Um fanático
Que procura um deus perfeito
Ou um louco
Que acompanha um mortuório?



NÃO FAÇO CAMINHOS

Entre semáforos, obrigações,paradas,
Mantenho a calma,
Não faço caminhos.
Sigo a lei
Que me destina a estrada,
Conservo a marcha,
Rumo sem destino.

Não tenho pressa.
Pois que na chegada,
Ninguém me espera,
Estarei sozinho.
Sigo a lei
Que me destina a estrada,
Não faço caminhos.




O AMOR QUE ME DÁ

O amor que me dá,
Não escondo
Por temer
Não poder encontrar.

Ao viver entre realidade e sonho,
Ao sorrir ou chorar,
Dessa forma eu componho
O amor que me dá.

O amor que me dá
É estranho.
Muitas vezes, quero me controlar.
Não consigo acordar
Desse sonho
Que é o amor que me dá.

Não importa o lugar
Que eu me encontro;
É encanto,
Só enquanto
Você nele está.
É imenso o meu desencanto,
Sem o amor que me dá.



A NINGUÉM MAIS

Ouço uma canção que me embala.
É a mesma que cantava
Minha mãe.
Se eu chorar,
Que você não estranhe.
Minha mãe também chorava.
Ouço sua voz,
Cada palavra,
Quando me falava
De meu pai.
Entre os seus ais
E as suas lágrimas
É que encontrava a paz.
Quando envelheceu,
Mal murmurava.
Mas à rede balançava
E embalava
A ninguém mais.




MITIFICADO

Quem é esse
Que me põe caminhos tortos,
Que em remorsos,
Alivia meu pecado?

Seu cajado
Já não abre mares mortos,
Mas perfura
O meu corpo escanifrado.

Quem é esse rei autoritário,
Que incita os seus súditos
Ao ódio;
Por deixar o seu filho abandonado?

Quem é esse deus mitificado,
Senão lenda repassada aos pósteros
Em resposta
À inocência do passado?



À MERCÊ

Tenho os meus olhos fixos na [realidade
Pela temeridade de meus sonhos.
Aquilo que componho,
Na verdade,
Não é a minha idade,
São meus anos.
Meus anjos,
Os renego desde o berço;
No terço
Desfiado por minha avó.
Se hoje estou só,
Eu não me queixo;
Deixo
À mercê
Do merecer,
E só.



PARTE

Ah, Se eu pudesse morrer
Sem abandonar-te!
Meu corpo arde
Na vontade de viver.
O sol parece crescer
Ao fim da tarde.

Tal qual o dia
Se dissipa
Ao vir a noite,
Nesse pernoite,
Começo a te perder.
E sem você,
Esse meu ser
Volátil, parte.




O CONCURSO

Aguardo a prova.
Há essa hora,
Sou um candidato a mais.
Será que dessa forma
É que a história
Se refaz?

Entre acertos e erros,
Entre sorrisos e ais,
É a razão
Que me aprova;
É a emoção
Que me traí.




DETRÁS DAS GRADES

Sua vontade
Cedida por dinheiro;
Nunca inteiro,
Só em parte recebida.
Não importa se há falta de comida
Ao povo brasileiro.
Ontem, vi na TV,um prisioneiro
Que ao ter sua iníqua liberdade,
Diz que seria o prefeito mais [perfeito,
De sua querida cidade.
Não se encontra, talvez, no
[mundo inteiro,
Uma nação com essa estranha piedade,
A que leva um político a ser eleito
Ao sair detrás das grades.



CORPO ABERTO

Perdi minha alma,
Por ter meu corpo aberto.
Na hora decerto,
Em que você me amava.

Minh’alma se espalha
Por todo o universo.
Encontra, em regresso,
A plenitude,
A graça.




NOITE SEM FIM

Tarde.
E os meus olhos ardem
Nesse fim de noite,
Sem me deixar dormir.
Meu pensamento invade
Com letras que não cabem
Mais em mim.
Talvez não tenha fim,
Esse meu fim de noite,
Essa noite sem fim.




MIRAGEM

Às vezes, tenho medo
Que a inocência da infância
Não exista por si mesmo,
Mas por mera ignorância.

Que a humanidade seja
Não aquilo que deseja,
Mas apenas o que alcança:
Malícia, desesperança,
Violência e desespero.

Às vezes, tenho medo
De que nossa ingenuidade
Não passe de uma miragem
Em um deserto sem fim.




PROVECTO

O meu sangue ainda é jovem.
Não sou eu, essa desgraça.
Estou preso a essa carcaça
Que mal pode caminhar.

Se eu jamais puder andar
Que eu seja forte,
E suporte
Esse triste rastejar.




INOCÊNCIA DEFLORADA

Vejo a palidez de minha alma
(Refração da consciência),
A inocência
No espelho, deflorada.
Eu vejo a tara
Transformada em alegria.
Sinto em seguida,
Que nunca passa
Esse estado de graça,
Essa mísera euforia.



LAMENTÁVEL

Cada vez que o mundo me [aborrece,
Eu rogo pela solidão do
[dia-a-dia.
Meu coração ao mundo [esquece,
Enquanto não esqueço o que [ouvira.
Tenho um desejo incontrolável
De me afastar de tudo.
Talvez, se eu fosse surdo,
Não estivesse em prantos
Onde tantos
Vão regando a hipocrisia.
Essa nossa vida é lamentável.




CORAÇÃO DE FERRO

Envelheci.
Diante da fotografia, eu [reconheço.
Não houve jeito,
O branco tomou conta do [cabelo.
As rugas,
Cicatrizes e lição,
Amoleceram um velho coração
Que era de ferro.
Jamais acreditei que fosse [eterno.
Todavia, vendo a morte, assim, tão de perto,
É duro aceitar tal condição.




ENTRE OS DOIS

Não entendo
Por que foge da vida
Se você acredita
Que ela é dom de Deus.

Sou um ateu
Que jamais abdica
Do que o acaso lhe deu.

Se você quer sanar a ferida,
Que acredita
Que o diabo lhe pôs,
Dê as costas e viva;
Não há vida
Para viver depois.

É melhor esquecer
Deus e o diabo
Que viver assombrado
Entre os dois.




SEM ESCOLHA

Até que ponto
A vida é escolha?
Se a levo à toa
Estarei destinado.
Se me leva, o acaso,
A não ter vida boa;
Sem escolha,
Eu estarei condenado.




O IDIOTA

Quem é esse idiota
Que a vê
Propriedade?
Na verdade,
Não merece ter você.

Se acaso, eu achar
Que está
À venda,
Me entenda,
Eu terei que a vender.



O HERÓI EGOÍSTA

Se nem o amor
Que é verdadeiro,
Entende essa minha [inconstância;
Quiçá,
Essa desesperança
Que a invade.
Nem pense que sou um [covarde
Ou um valente que se cansa.
Sou apenas um herói
Que luta pela própria liberdade.




UM AMOR

Tenho um amor que fere
E cura o próprio corte.
Um amor que em mim não [morre,
Mesmo sob desventura.

Um amor que levarei à [sepultura,
Por ser forte.
Que talvez, eu não suporte
E ele me leve à loucura.

Um amor nascido sob a jura
De um eterno casamento
Que se desfez com o tempo
Pela falta de cordura.

Lembro desse amor cada [momento,
Em um breve pensamento
De ternura.




HOMENAGEM OCULTA

O que faço
De pé nesse pedestal,
Observando a rua?
Talvez eu seja
Uma velha estátua
Esquecida na praça,
Sem ninguém perceber.

O que posso fazer,
Se ninguém me escuta?
Fui herói na luta.
Hoje, homenagem oculta;
Posto o mundo esquecer.



SUBMISSO

E que encanto tem
O teu sorriso,
Tão impreciso,
Sem definição?

Mesmo dizendo não
Ao compromisso,
Eu serei submisso
À tua decisão.




DILEMAS

Não queira minhas horas,
Não tome os meus dias,
Não tenho muito a oferecer.
Não tenha tanta inveja
Desse pobre diabo
Que já nasceu marcado
Para morrer.
Nem tente assumir os meus [problemas,
Em meus dilemas,
Vai enlouquecer.
E ao sentir-se, do mundo, [isolado,
Terá um fim macabro:
O de ser torturado
E depois esquecer.



ECOS

Nossas vozes se confundem
No silêncio,
Equivocadas.
São mordaças
Que se rompem com o tempo.
O nosso pensamento
Nada fala;
Porém, se iguala
Na fração de um momento.




OBSERVATÓRIO

Tenho medo de perdê-la,
Estrela,
Neste imenso céu nublado.
No observatório, desolado,
Observo de luneta.
Transfiro com astrolábio e [caneta,
Este mapa iluminado
Pela cauda de um lendário
E extremamente raro,
Cometa.



MEUS PAIS

Quem são meus companheiros,
Que regados a vinho,
Brindam meus ideais?
Não importam seus ais,
Não me deixam sozinho.
Com ternura e carinho,
Se orgulham demais.
Pelo amor verdadeiro,
Sei que meus companheiros,
São meus pais.




A SI MESMO

Eu mesmo abro a porta
Para caminhar a esmo.
Não sou o mundo lá fora.
Se fosse,
Seria ermo.

A minha idéia de glória
Não é a mera vitória,
É superar a si mesmo.





A EXPOSIÇÃO

Sou posto em exposição
Em uma manta de pele.
A sua admiração
É aquilo que mais fere.
Um mamífero em extinção,
Que só tem sua atenção
Quando lhe serve.




AMOR NÃO ESPELHADO

Esse choro abafado,
Não me deixa ser tocado
Pelo amor que sempre quis.
Não consigo ser feliz
Quando ao seu lado,
Mesmo sendo tanto amado.
O amor não espelhado
Não condiz.



A PAZ AINDA ESPERA

Onde está a paz?
Está nos ossos enterrados
De nossos pais.
Está no pó de nossos [ancestrais,
Enquanto homens da caverna.

Ainda em terra,
A paz soterra
Sob as lutas tribais.

E naufragada está a paz,
No mar aberto em caravelas
Que sigraram mares,
Que sangraram velas.

Entre espadas e canhões,
Sob o tropel de garanhões,
A paz persiste.

E do antigo solo triste
Ao moderno céu por naves recortado,
O homem não tem encontrado,
E a paz ainda espera.




NOSSA META

Que dom movia um homem
A registrar nas paredes da [caverna,
Sua existência?

Teria sido a paciência,
A persistência
Ou a esperança?

Hoje, as paredes são [modernas;
As atitudes menos humanas
E com o avanço da ciência,
Nossa existência
Será apenas uma lembrança.

O que desejo aos demais
É que o dom dos ancestrais
Torne-se enfim, a nossa meta.



SOLEDADE

Eu pergunto a mim mesmo,
Qual seria a mensagem?
Paz, amor e liberdade,
A esperança ou a fé?
Permaneço aqui de pé
Sobre a pedra, em Lajedo.
Sinto um pouco de medo,
Mas não sinto soledade.



O EXEMPLO

Quão enorme foi o passo
Para a humanidade,
Quando em remota idade,
O homem gravou na pedra
Da mais profunda caverna,
Os seus mais humildes atos.

Por destino ou por acaso,
Temos na modernidade
Uma herança do passado:
Lajedo de soledade.

Se seguirmos o exemplo,
Não importará o tempo,
Seremos eternidade.




DESEJO-LHES

Desejo-lhes a mesma [esperança e paciência
Que tinham nossos ancestrais
Quando deixaram em sinais
Vestígios de sua existência.
Desejo-lhes a paz
E a liberdade
Que o Lajedo de soledade
transmite à nossa consciência.




PERTURBADO

Na verdade, ainda vejo
Meu vago olhar de criança
Na imagem ao alcance dos meus dedos.

Um menino encabulado,
Que na sombra do passado,
Assombra-se.
Olhos tão arregalados
Quanto à boca,
Ante a surpresa louca
De ser encontrado.

Uma luz que ilumina,
Na fotografia, ainda
Permanece.

Da criança, não esquece,
O adulto perturbado.




GUARDIÃ

Enterrei a minha raiva
Sob a lápide manchada
De minha irmã.
E a cada manhã,
Eu ia regá-la
Com as mesmas lágrimas
De minha antiga guardiã.

Ao retornar para casa,
Pedi perdão ao meu irmão.
Não pela razão de sua palavra,
Mas pela calma
Que encontrei no coração.




O PROVOCADOR

Na origem do pecado,
Estive ao lado
De Eva
(Fui o anjo condenado
Pelo bem que lhe tivera).

Paz na terra,
Ao homem que é ruim.
Fui, no crime de Caim,
O ciúme provocado.
Fui o ódio alimentado
Com a promessa de um jardim.

Enquanto os homens armados,
Procuram pelo seu fim;
Que culpem a Deus
Por julgá-los,
E que não julguem a mim.



TRÁGICO FIM

Quem me dera,
Eu soubesse de mim.
O que sou
Nessa maldita terra:
Uma erva
Em meio ao jardim
Ou um ser
Que de si, nada espera?

Sendo a vida
Um trágico fim,
Eu estou a olhar para mim,
Sem me ver nela.



OLHOS AZUIS

De quem são esses olhos azuis?
De uma jovem que me seduz
Em plena luz
Do dia.
Vejo neles uma estranha magia,
Um fogo que me queima.
Quem é essa jovem que espelha
Minha tarde
Com esses olhos azuis?
Sei que não ama,
Que me engana
De sua parte.
Sua pele parece tão macia;
Sua boca uma prece
De me aguarde.
Nos seus olhos azuis,
Não vejo a idade
Que nos separa.

Nos seus olhos azuis,
Vejo a vontade
De sua alma.
Na verdade,
Os seus olhos azuis são verdes,
Eu me enganara.



LOUCO DESVALIDO

Quantas estrelas há no céu?
Não poderia contar,
Minha razão não alcança,
São tantas
Quanto posso imaginar.

Imagino um lugar
Entre elas escondido,
Onde eu pudesse encontrar
O meu princípio.

Talvez, haja um bom motivo
Para a razão me ocultar
A origem de quem sou.

Sendo um louco desvalido,
Não seria consumido
Pela dor.



FESTA NO BOTEQUIM

Quando eu morrer,
Não quero rosas;
Rosas são belas no jardim.

Quando eu morrer,
Eu quero prosa
E muita festa no botequim.




NO SILÊNCIO DO MEU QUARTO

Eu te desejo no silêncio do [meu quarto.
Enquanto aguardo
Na solidão que me acompanha,
Tua lembrança se insinua,
Passo a passo.
Ainda sinto teu abraço
Quando nua.
A lua
Espia pela fresta da janela,
Meu gesto insano
[de beijar uma ilusão.
A tua sombra
Que emerge a escuridão,
Docemente me aperta.
E é tão certa
A vontade de quem ama
Que adormeço em minha [cama,
À tua espera.




AINDA HUMANO

Se eu pudesse parar a terra
Para tê-la eterna
Em meus braços,
Eu não seria um deus;
Posto ser devasso
Nos lábios de quem amo,
Seria ainda,
Humano.




ADULTÉRIO

Minha infidelidade prova
Que meu erro
É bem maior que meu afeto.
Não espero
Que o perdão, seja a resposta
De um coração sincero.

O inferno,
Com certeza,
Foi obra de adultério.



DOCE PRANTO

Como é possível um só encontro
Marcar, assim, tanto,
Um coração?
Não há razão,
Senão
Encanto,
O doce pranto
De uma ilusão.



EM SUA VERSÃO

Queria compor
Uma bela canção
Que falasse do amor,
Em sua versão.

Amar de verdade
É nunca se opor
A fragilidade
Que é o amor.

Não há exigência
E nem doação,
Não há paciência,
Só desilusão.



A BRUXA

Engana-se
Quem acusa
A velha de nariz torto.
Pois a bruxa
Tem um belo corpo
E os olhos verdes como a relva,
Grita como fera,
Fere a um e a outro.
Mas espere um pouco,
Não foi sempre bruxa.
Engana-se
Quem acusa.
Quando era ainda
Uma linda menina
De saia e blusa,
Um homem a usa
De forma banal,
Ensinando o mal
Do qual
Agora desfruta.



O FOGO DO AMOR

Ah, sentimento tenebroso,
Que corre solto
Por minhas veias
Tal um triste e sombrio louco
Que pouco a pouco
Deixa marcas na areia!

Ah, sentimento que permeia
Minha razão,
Deixa-me tolo, descortinado,
Sob as luzes do tablado,
Sou o palhaço
Que esconde a face feia!

Ah, sentimento! Por que sofro?
Cada instante é doloroso.
Pois arde e queima
Em minh’alma o cruel fogo
[do amor.
Que sem pudor,
Ela me ateia.



EU AMO VOCÊ

Não encontro uma maneira
De saber o porquê
De amar você.

Eu não sei dizer
Por que
O amor em mim
É quase um fim,
É morrer.

Ao me convencer
De que vou viver
Sem você,
Eu encontro enfim,
A única maneira de dizer que [sim,
Amo você.




A AMBOS

Com franqueza,
Não quero pensar que é fraqueza,
O meu silêncio.
Prefiro evitar a nós dois,
Danos,
Falando menos.
Devemos
Esquecer o que fizemos
A ambos.



A ESCOLHA

Foi estranho
Quando em meio a tantos,
Eu fui a escolha.
Jamais percebi
Que era somente vítima.
Entre sentimentos
Tão desencontrados,
Eu enlouqueci.
E naqueles olhos,
Ainda lacrimejados,
Um sorriso vi.



ÚLTIMA PALAVRA

Qual de nós dois
Errou o caminho,
Entrou sozinho
Sem dizer nada?

Não cabe a mim,
Saber se o fim
Foi sua última palavra.




ENTRE O AMOR E A PAIXÃO

Só um tolo
Deixaria o amor
Pela paixão repentina
Que é uma cortina
De veneno
E que em silêncio
Corrói sua alma.

O amor é calma.
A paixão é ardorosa
E ainda pede troca.

O amor não pede nada.





INDOMADA

Quais foram teus delitos,
Teus erros graves,
Teus pecados abomináveis,
Teus praticados riscos?

Quem são os teus feridos,
Teus vitimados,
Ou foste ofendida,
Mal ouvida,
Mal amada,
Maltratada
E traída?

O que te fez a vida,
Indomada?
Se não fizeste nada,
Diga-me,
Por que tens pesadelo?

Se finges não ter medo,
Não aceito
A tua mão armada.
Por que me pedes:
- Bata.
- Adormeça comigo.

És um anjo da guarda
Num demônio contido.




EM BANDEIRAS HASTEADAS

Essa é a glória
Antepassada,
Onde não espelha falha.
Na batalha,
Por vitória,
Damas
Que não vivem separadas,
Em bandeiras hasteadas
Sobre o campo
Da derrota.




O AMOR É VOLÁTIL

O que seria do “para sempre”
Se não fosse o vazio da perda?
O que sustenta o infinito
Senão a impossibilidade do fim?
Então, para mim,
O amor não é eterno,
É volátil
Pela presença permanente de mim.

Se estou sempre ao seu lado,
Um dedicado condenado
A nunca ser ruim;
Fiel não a mim,
Mas ao teu próprio ato.
És uma escrava
Que busca a um fim:
A liberdade de um pássaro
Que confinado,
Volta para mim.
O paradoxo nos faz conformados
Pelo enorme estrago.
Pois, o mesmo, serve a você
Que já não pode viver
Sem mim.




APENAS FANTASIA

Eu criei a minha realidade
E na minha realidade
Você é apenas fantasia.
O nosso mundo
É a nossa vontade.
A nossa escolha,
O nosso dia-a-dia.
Perdoa;
Não posso abdicar de minha vida.




EM SEGREDO

Você é frágil
Debaixo
Dessa espessa carapaça
Na qual disfarça
Sua emoção, seu medo.
O seu desejo
Ultrapassa
A sua máscara
Que cai por terra
Com um gracejo.
Entre carinhos, se entrega
Com amor, com graça.
Depois se afasta
Sem que a toquem,
Os meus dedos.
Ainda é cedo
Para dizer o que se passa
Com esse coração que se [recata
Em segredo.



MERO DETALHE

Talvez, você não entenda
Que eu não sou de verdade,
Posto ser sua vontade
Que criou esta ilusão.
A sua luta é em vão;
Suas idéias, bobagens;
Entre fraqueza e coragem,
Não passa de pretensão.
Seu sofrimento, quem sabe,
Não seja um mero detalhe
De sua imaginação?



ÚNICA CONDIÇÃO

Eu busco tanto desejo
E plena satisfação,
Que acabo sentindo medo
De depravar a mim mesmo,
Numa vulgar compulsão.

Eu copulo com devoção,
Com afinco e com anseio.
Entrego-me por inteiro,
Sem pedir compensação.

Não importa a mim, quem são;
Eu não faço por dinheiro.
O meu gozo vem primeiro,
Eis a única condição.



EM BUSCA DA MORTE

Estranho,
Por que o ser humano
Procura tanto a morte.
Em seu inconsciente,
Talvez, indiferente,
Sua alma não mais obste.

Em busca de perigo,
O acaso, um inimigo
Que o rodeia.
Talvez em si, odeia
A sua própria sorte.

Estranho,
Por que o ser humano
Procura tanto a morte.





VELHAS CARTAS

Nesta solidão não estou sozinho.
De alguma maneira, está na sala,
Na mesma cadeira no cantinho
Do qual mais gostava.

Olho teu retrato na parede,
Com teus olhos vivos, me acompanha.
Sinto em minha boca, a mesma sede,
Depois que a gente ama.

Você me acompanha todo o tempo.
Sua voz me chama no silêncio,
Quando leio velhas cartas.

Elas dizem mais do que eu penso.
Tenho a sensação que está sofrendo
E o meu pensamento cala.




FORÇA ESTRANHA

O que fez comigo,
Dona louca.
Quando tirou sua roupa,
Me despiu.
Eu me senti com o umbigo ainda ligado
Àquela que me pariu.

Havia uma força estranha
Na maciez das entranhas
Que partiu
Meu coração em pedaços;
E envolvida em seus braços,
Minh’alma não sucumbiu.

Seu olhar triste, sorriu
Do embaraço,
Quando meu corpo em cansaço,
Do coito tão esperado,
Desistiu.




O INEXISTENTE

Todos os dias, todas as horas,
Eu tento enganar-me com o silêncio.
Mas no silêncio,
exijo respostas
Que eu não tenho.

Tento enganar-me com lembranças
De minha infância,
Do pai, da mãe, de minha irmã mais velha.
De uma outra época,
A das paixões,
Das ilusões,
De um jovem louco,
Que vê tão pouco
Que mal se lembra.
Não me contenta,
O eu de agora.
O eu de outrora,
Não se sustenta.

De que adianta
O meu sorriso,
Se enquanto isso,
A mim não engana.

Como livrar-me da ignorância
Que me acompanha
No dia-a-dia,
Se eu não sei,
Nem saberia
Quem sou de fato?

Ser forte ou fraco,
Benevolente,
O mais valente
Ou um covarde?
De nada vale,
Se eu não consigo deixar à parte,
O meu dilema.

Quem devo ser,
Não é problema.
Quem sou realmente:
O eu presente
Ou o abstrato, o inexistente?



NÃO ME REVELE A ALMA

Não me diga nada,
Calma,
Não me revele a alma,
Não quero ser exposto.

Não me mostre nada,
Calma,
Não me revele a alma,
Não quero ver meu rosto.

Não quero ser exposto.
Não quero ver meu rosto.
Não me revele a alma.




DEVOÇÃO

Não estou farto,
Apenas desabafo
Meu desgosto.
Não há posto
Que supere a ingratidão.
Mesmo louco,
Eu não nutro a ilusão
De que não sofro;
Tão exposto
Está meu rude coração.
Não descarto
Meu fracasso;
Mas meus dias são
Compostos de emoção.
A cada passo dado,
Sou escravo
De minha própria devoção.




MERA DESCULPA

Não se deve pedir perdão
Antes de perdoar a si mesmo.
O perdão pede mais fé
E não medo.
O perdão não passa de espelho
Para alguma culpa,
Uma luta
Que não há vencedor.
E perder no amor,
É uma mera desculpa.



SERÁ TARDE

Tarde
Como a tarde
Que chegou mais cedo, hoje.
Já não é tão tarde
Como é tarde da noite.
Noite que é tardia
Como o dia
De amanhã.
Amanhã bem cedo,
Será tarde pra nós dois.
Tarde como ontem foi.




A RECÍPROCA É VERDADEIRA

Se eu roubar-te um beijo cálido,
Certamente irás revidar.
Porém, tua bofetada
Não irá me machucar.
Pois teus olhos, ao contrário,
Ainda me pedem, calados,
Que eu continue a beijar.

Correrás para o portão,
Não para fugir de mim,
Mas sim,
Do teu próprio coração.

Tenho a convicção,
De que tua intenção
É dar-se por inteira.
Quando digo te amar,
Lutas para não gritar:
A recíproca é verdadeira.




INSULTOS

Vejo
Enaltecer os meus insultos,
Em palavras de menosprezo.
Não há apreço
Entre nós,
Nem há tributos.
Onde caberia o impoluto
Entre almas tão amargas?
Nós não somos mais que duas [lágrimas
Que sufocam o mesmo peito.