Mão & Caneta

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Sonetos numéricos

PREFÁCIO

Finalmente o poeta nos presenteia com uma obra composta somente por sonetos.
Os sonetos instrumentam a poesia dando-lhe harmonia musical.
Com sua criatividade o poeta nos surpreende com seus sonetos numéricos, onde cada soneto trilha em interdependência pela continuidade da contagem, um seguimento ordenado de números.
O poeta nos felicita com sua capacidade de sonetista. E foi com muita satisfação que recebi o convite para prefaciar tamanha obra, não como tomo, porém, pelas belíssimas estruturas que estão em Sonetos numéricos. Destacá-los, seria privar o leitor do deleite de tentar extrair relevos entre tantos arroubos de intelectualidade e sagacidade.
João Felinto Neto é peculiar em sua maneira de escrever. Os versos provenientes de sua caneta são chamas capazes de clarear não só os nossos olhos, como também, o nosso coração.
Os sonetos desse poeta norte-riograndense, felicitam em entusiasmos, aqueles que tiverem a oportunidade de lê-los.
Uma matemática em que os números são tijolos de um castelo de sonhos em construção. Cabe ao leitor, a melhor maneira de elaborar, através da leitura, esta arquitetura poética.

André Tales



SONETOS NUMÉRICOS

Os sonetos são composições poéticas de 14 versos, divididos em 2 quartetos (Estrofes de 4 versos) e 2 tercetos (Estrofes de 3 versos). Geralmente não têm título, são dispostos numa obra, em ordem numérica. Daí a minha idéia de intitulá-los com os números.
Sonetos numéricos sintetiza essa disposição, a qual resolvi atribuir o número por extenso como título do soneto. Por exemplos: Soneto um, Soneto dois, Soneto vinte e três etc.
Agradeço aos que por curiosidade ou paixão derem uma olhadinha nesses sonetos numerados.

O autor


SONETO UM

Eu reconheço, sempre estou sozinho,
Perdido na folhagem do lugar.
Alguém viria então, me encontrar?
Estou preso a chorar, no próprio ninho.

Sou tal aquele pobre passarinho
Que ao tentar voar se despencou.
À sombra de uma árvore, projetou
Qual deveria ser o seu caminho.

Estou há muito tempo, a espera
De alguém com quem eu possa conversar.
Quem sabe uma gaiola esteja aberta,

Podendo assim, deixá-la a mim, voar?
Cantaremos o nosso amor em festa
Como as aves que cantam no pomar.



SONETO DOIS

Eu abro os olhos bem cedo,
Certo que não vou revê-la.
Porém, preciso esquecê-la,
Tirar de mim, tal desejo.

Temos os dois, um segredo.
Ainda que eu possa tê-la,
Cabe a mim, precavê-la,
Dizer que não te mereço.

Por que o olhar tão surpreso?
Não vim pra repreendê-la
E sim, dizer que a conheço.

E por tão bem conhecê-la
É que aproveito o ensejo,
Alguém irá merecê-la.



SONETO TRÊS

Não sei como definir essa angústia
Que de meu peito não consigo arrancar.
Escuto o poeta declamar
Que é meramente culpa.

Talvez, com um pedido de desculpa,
Eu poderia pelo menos amainar.
Mas, é preciso eu me perdoar;
Pois minha consciência é quem me julga.

Tal lutador que já perdeu a luta,
Debato minhas mãos sem alcançar
Tamanha dor que já se torna aguda.

Pela razão levado a apanhar,
Por não querer perder essa disputa,
Deixo o meu coração me carregar.



SONETO QUATRO

O amor é muito mais que sentimento;
Uma teia de sentidos que nos liga;
Onde a razão se torna submissa
A uma força que permeia o pensamento;

Não segue uma regra ou um exemplo;
Uma mistura de beleza e harmonia;
Um ritual de fé e de magia
Que nos leva ao altar e ao juramento;

Uma viagem para o encantamento,
Onde um instante entre corpos se eterniza
Numa lição onde não há questionamento.

Tal a imagem no espelho refletida,
Que não permite, assim, o nosso isolamento,
O amor é permanentemente em nossa vida.



SONETO CINCO

Flores levadas pelo vento
Que levou todo o meu amor.
Ainda me resta, em pensamento,
Como ao jardim, resta o olor.

Eu vivo, então, o dissabor
De não poder voltar no tempo
Pra ter de volta todo o amor
Que foi levado pelo vento.

Assim, eu tento não chorar
Ao ver uma flor desabrochar
Enquanto cuido do jardim.

A mesma flor que a vi levar
Quando saiu para casar
E despediu-se, enfim, de mim.


SONETO SEIS

Eu não esqueço dos lábios
Que mal tocaram os meus.
Se acreditasse em Deus,
Diria tê-lo encontrado.

Um algo nunca esperado
Naquele encontro se deu.
Meu corpo estremeceu
Quando por ela tocado.

Eu descobri que pecado
É padecer em silêncio
Quando se sente culpado.

Nada é tão solitário
Quanto o que guardo aqui dentro:
Saudade de um beijo casto.




SONETO SETE

Não quero me iludir com o paraíso
E nem acalentar-me com conselhos.
Seria hipocrisia prostrar-me de joelhos,
Se por convicção não acredito.

Meu rosto sempre estampa um sorriso
Que vejo nos reflexos dos espelhos.
Talvez, por não olhar fatos alheios,
Pois que não tenho nada há ver com isso.

Não é de minha alçada se ele ou ela é feio
E muito menos quem é mais bonito,
Nem o que os outros dizem a meu respeito.

Por cada um de nós ter seu direito,
É que insisto que não acredito
E quero ter também o seu respeito.



SONETO OITO

Uma noite em que o sono não chegava,
Eu tive uma visita tenebrosa.
Perdida em meio à noite invernosa,
Uma coruja da janela me espiava.

Na solidão em que me encontrava,
Era uma companhia valiosa.
Porém, de aparência aleivosa,
Seu par de olhos já me condenava.

Estranha criatura encantada,
Numa metamorfose de uma bruxa,
Uma coruja que queria estada.

Numa situação pra mim esdrúxula,
Temia uma ave espantada,
Que simplesmente fugia da chuva.




SONETO NOVE

É o segundo dia de novembro,
Parei diante de uma antiga lápide,
Olhei pro céu, era final de tarde,
Lembrei de nós em cada bom momento.

Perdoa não cumprir o juramento.
Mas, não posso fugir da realidade.
Seria revogar minha verdade,
Viver de ilusão e fingimento.

Você não pode mais me escutar.
Pois, só existe agora em lembrança,
A única forma de se eternizar.

Assim, mantenho ainda uma esperança:
De vê-la em criança, aqui voltar,
Mesmo que seja apenas semelhança.



SONETO DEZ

O que espera de mim, pátria minha,
Um eleitor de punhos amarrados;
Se me dão, separados, dois punhados
Que vêm do mesmo saco de farinha?

Sua nação encontra-se sozinha.
Alguns dos seus pupilos são culpados.
Os seus poderes são manipulados.
Suas forças, suas armas saem da linha.

Parece que é essa sua sina,
Não aprender com os erros do passado.
Assim, sem direção você caminha.

A esperança é o último legado.
Quem sabe, a consciência nos ensina
A condenarmos todos os culpados?



SONETO ONZE

As dunas fazem parte do cenário,
Paisagem de um filme futurista,
Onde eu sou mais um protagonista,
Sem ter nenhum roteiro elaborado.

O mundo todo está conectado,
Satélites, antenas e revistas.
Estamos entre cenas coloridas,
Vivendo de um mundo imaginado.

Os nossos dias já estão contados,
Por apagarmos de nossa memória
Que nós mesmos somos os culpados.

Porém, nós atuamos ao acaso,
Acreditando na mais tola história.
A de que temos um futuro destinado.



SONETO DOZE

Pisar em um terreno argiloso,
Tornam-se mais lentas as passadas
Por ficarem as botas atoladas,
Tornando-se maior o nosso esforço.

A paciência é o bem mais precioso.
Pois, todas as pessoas apressadas
Têm a tendência de serem levadas
A um diagnóstico, o de ansioso.

O paciente nunca é medroso.
Pois, ele mantém sempre sua calma
Diante desse mundo perigoso.

No entanto, a ansiedade, assim, só mata
Àquele que diz ser um corajoso,
Mas, toma ante um perigo, a decisão errada.



SONETO TREZE

Recebo o vento frio da madrugada,
Depois de acordar de um pesadelo
No qual via seu rosto no espelho
E de repente, uma sinistra gargalhada.

Acordo com a vista embaçada.
Procuro a carta sob o travesseiro.
Queria acreditar que era alheio,
O problema que me atormentava.

Você me escreveu dizendo: - Basta,
Não quero mais mentir o tempo inteiro,
Eu sou comprometida, sou casada.

Não posso mais manter isto em segredo.
A minha história não é toda falsa.
Pois o meu sentimento é verdadeiro.



SONETO CATORZE

Será que vale a pena, amar assim?
Esquecer-se de si, lembrar do outro,
Sem exigir o mais humilde troco.
Não saber dizer não, apenas sim.

Perder-se entre o bom e o ruim
Tal qual se perde um solitário louco.
Achar que seu amor ainda é pouco,
Sem nunca imaginar que tenha um fim.

O verdadeiro amor não age assim,
Por exigir respeito a si mesmo.
E onde há um começo, há um fim.

O amor não tem em si, nenhum segredo.
Expõe-se tal a flor que no jardim,
Em meio ao capim, se abre sem medo.




SONETO QUINZE

Não sei por que faria tal escolha.
Talvez, por não sair do pensamento.
Selei com aliança e juramento,
Que esse amor seria a vida toda.

Uma ternura que em meu coração ecoa
Tal quem grita numa embarcação ao vento,
Sem crê que vive aquele vão momento
E espera que ele dure a vida toda.

Maior que a liberdade de quem voa
É a grandeza desse sentimento
Que tão profundamente me povoa.

À minha emoção, não compreendo,
Não sei se ela me culpa ou perdoa,
Ou se à vida toda, é fingimento.




SONETO DEZESSEIS

Não aguarde mais, minha resposta.
Esta carta nunca será enviada.
Talvez, minha frieza seja esperada,
Apesar de ser aquele de quem gosta.

Não importa qual minha proposta,
Vindo de uma pessoa desinteressada
Que acha ser a decisão mais acertada,
Apesar de ser aquele de quem gosta.

Não mereço desculpa nem perdão.
Sou um caso perdido, sem conserto,
Um solteiro que ama a solidão.

Não importa o que faço a mim mesmo.
O silêncio é minha devoção.
Não sou parte egoísta, sou inteiro.



SONETO DEZESSETE

Onde andam os corpos seminus
Que na tarde de ontem sepultei?
Entre eles, havia um velho frei
Que adornava o pescoço com uma cruz.

Uma jovem que odiava a luz
(Pelo menos a esta eu ajudei).
Um carrasco que pertencia à lei;
À sua fama, ele fazia jus.

Na capela do frei, eu comungava.
E foi lá que à moça, conheci.
Desde então, eu a ela cortejava.

O seu pai, o carrasco infeliz,
Como homem da lei, a si, gabava,
Quando então, mortalmente o feri.



SONETO DEZOITO

Há quanto tempo estou nesse lugar,
Pensando sobre o que devo escrever.
É triste não saber o que dizer,
Diante da vontade de falar.

Espero que alguém possa encontrar
Esse soneto que tento fazer.
Talvez, se interesse, enfim, a ler,
Mesmo que seja para criticar

Chegou a hora do autor pensar
A quem esse soneto oferecer.
Para outra estrofe, eu vou adiar.

Ao leitor, nesse caso, você.
Queira me desculpar, me perdoar,
Se não conseguir me entender




SONETO DEZENOVE

A porta escancarada para a rua
Desde a hora em que você saiu,
Dá-me a certeza de que assim, partiu.
A luz que invade a estreita sala escura,

Leva-me até a porta, vejo a lua.
Por quantas noites, o nosso amor a viu.
Tentei fechar a porta, o vento impediu.
Talvez, ainda esperasse a volta sua.

Voltei para a cadeira onde divisei
A rua solitária, mal iluminada,
Onde a primeira vez, eu te encontrei.

Uma jovem seminua se insinuava
Numa visão passada que eu imaginei
Que era você que para mim voltava.



SONETO VINTE

Se eu fincasse uma estaca no jardim,
Abriria o mundo numa fenda.
Que o dono do inferno não se ofenda,
Só faria se alguém risse de mim.

Não espero que o homem diga sim,
Muito menos que ele me entenda.
Quem espera que eu seja uma lenda,
Acredite, o mundo chega ao fim.

Quem pergunta: - Quem é que fala assim?
Sou aquele que ninguém conheceu.
Pouco importa quem virá até mim.

Ai daquele que ao mundo defendeu.
Esqueceu-se como posso ser ruim?
Sou aquele que o homem chama Deus.




SONETO VINTE E UM

Eu penso que amar é isso:
Ser completo e solicito no prazer.
Acredito que junto a você,
Arrasto-me ao inferno, elevo-me ao paraíso.

Entre lágrimas e sorrisos,
Tento nunca lhe perder.
Mas me perco em você
Na ilusão de ter vencido.

Penso que o amor é redigido
Pela mão do meu querer,
Quando da tua boca é dito.

Não é fácil de entender.
Explicar-lhe, não consigo.
Não existo, sem amar você.





SONETO VINTE E DOIS

Eu não escreveria por dinheiro.
Escrevo pra talvez, não ler
Aquilo que se pode ter,
Que nunca pode ser o verdadeiro.

Por trás da porta do mosteiro,
O que escrevo deve ser
A dor pro mundo se perder.
Porém, me encontro por inteiro.

Escrevo em linhas geométricas
Na forma que não se alinha
À minha letra assimétrica.

Sei que não é vontade minha,
Seguir a linha da estética
Na dialética que não se alinha.




SONETO VINTE E TRÊS

Estou diante de alguém que chora.
Sem palavras, eu continuo calado;
Não que eu seja de alguma forma afetado,
Pois o meu coração nunca se dobra.

É difícil tentar acalentar nessa hora,
A companheira de um amigo velado,
Por ser esse momento tão macabro
Quanto a dor que a incomoda.

Reluto para não dizer algo,
Por parecer tolo aquilo que eu diria
Em homenagem ao amigo finado.

Mas que valor nossa vida teria,
Se o fim não fosse esperado?
Alguém por outro, afinal, choraria?




SONETO VINTE E QUATRO

Eu poderia ter me dedicado à vida,
Com mais intensidade e bom humor.
Ter explorado o meu corpo no amor,
Sem reprimir uma vontade exigida.

Poderia ter plantado margarida
Ou mesmo, qualquer uma outra flor.
Poderia ter sentido menos dor
Pelo que pouco valeria.

Dessa forma, saberia estar vivo.
Sob a lápide, já não há o que rever.
Sendo agora, um cadáver pensativo,

Que em vida teve chance de escolher,
Não devia procurar por um motivo
Que me desse, a razão para morrer.





SONETO VINTE E CINCO

Se me dissessem que um dia perderia
O rumo, a via por onde caminhava;
Meus olhos, ao céu, elevaria
E a estrela guia, você, me iluminava.

De pés descalços, eu continuaria
Seguindo a estrela, sem sair da estrada.
A meu destino, enfim, eu chegaria;
Ele seria a mais doce morada.

Ao ouvir passos, você abre a porta.
Ainda morna, me aquece em seus braços.
E o meu cansaço, a mim, já não importa.

Somos partículas diante do espaço;
Tão gigantescas perante o amor que acorda
Numa fração de tempo, em nosso abraço.




SONETO VINTE E SEIS

Toda mulher carrega a culpa
De querer um pouco mais.
Não há razão, não há desculpa,
São seus instintos ancestrais.

Toda mulher é absoluta,
Seu querer nunca é demais.
Em seu mistério é oculta.
Em sua luta, pede paz.

Toda mulher em si, é louca.
Nunca, a ela, é o bastante.
Em sua face, ela é outra.

Toda mulher em um instante,
Supera o homem com tal força
Que o torna insignificante.




SONETO VINTE E SETE

Diante de cada passada,
Vejo a vida me seguir.
Olho a porta escancarada,
Parece que tentei fugir.

Porém, se estou a partir,
Quem me chama da sacada?
Se sou eu de pé aqui,
Observando a velha estrada.

Desço depressa a escada,
Ainda consigo me ver
Passivo, olhando a estrada.

Sem saber o que fazer,
Olho para mim na escada,
A gritar: - Quem é você?




SONETO VINTE E OITO

Não importa se a casa está vazia,
Se a cadeira já não pode me conter,
Observo da janela, quem partia;
Tanto amor, e não a consegui deter.

Em meu rosto, a expressão não mais fingia.
Sinto uma vontade imensa de correr.
Como pude deixar uma fantasia
Desfazer-se por não ser possível ser?

De repente, eu percebo que a chamava.
O seu rosto vira em minha direção
E em lágrimas, nosso olhar, se afogava.

Que pudesse definir tanta emoção,
Nesse instante, não existia palavra.
E em silêncio nos abraçamos no portão.




SONETO VINTE E NOVE

Uma terra tão seca que devora
Qual o fogo à tora descascada,
Uma alma, a do homem que implora,
Quando esbarra no chão seco, sua enxada.

Sua boca, um sorriso escancara,
Pelo sol escondido na aurora,
Quando o vento umedece sua cara.
Para ele é alegria se o céu chora.

Se apega ao santo na parede
E se deita na rede estendida.
Pensa o quanto ainda vai ter sede.

Adormece e sonha com comida.
Vê a chuva molhar e o mato verde.
Mas, acorda para sua triste vida.



SONETO TRINTA

A solidão, à noite, esta ameaçada
Pelo ladrar de um cão que chora.
Acendo a luz e tenho a intenção de agora,
Dar uma busca ao redor da casa.

Esqueço e deixo a porta escancarada.
Eis que o intruso invade sem demora.
Percebo o vulto e então me apavora
Ter que voltar a aconchegante sala.

Fico em silêncio como quem explora
Uma cabana há muito abandonada.
A minha face, de susto, descora.

Ao ver a minha intimidade ameaçada,
Adentro e grito pra que caia fora.
Tenho em resposta, o miado de uma gata.



SONETO TRINTA E UM

Não importa qual sua aparência, agora.
O amor é um vínculo imaterial,
Sentimento que não se apega à forma,
Não tem lógica e até parece casual.

A saudade é uma medida ilusória,
Para ver o nosso grau sentimental.
Nem as lágrimas d’aquele que ainda chora,
Servem de prova de que seja imortal.

A vontade de estar junto é companhia,
Entre beijos e um abraço sensual.
O amor exige em si, essa harmonia.

O ciúme ao contrário, é fatal.
E não quer dizer o tanto que amaria,
Serve apenas, pra mostrar seu lado mal.





SONETO TRINTA E DOIS

Como é difícil viver de evasivas.
Minhas perguntas, faço em preto e branco.
Minhas respostas, palavras coloridas.
Não me explico, apenas me engano.

Se enganar-se é abrir perspectivas
Para encobrir tamanho desengano.
Quem sabe busco a racional saída
Para uma vida de vírgulas e pontos?

A minha estada não é explicativa.
Não me instiga viver fazendo planos.
E dessa forma, sou mera estimativa.

As minhas dúvidas são fora de medidas.
Desmerecido falar-me desse tanto
Por não passarem de justificativas.





SONETO TRINTA E TRÊS

Dádivas de um amor que não se usa,
Que sob a blusa não consegue esconder.
Em teu poder, simplesmente me acusa.
A minha fuga não permite me prender.

Tenta você, me enganar pedindo ajuda.
Faz uma jura pra tentar me convencer.
O meu querer me leva a sentir culpa.
A minha busca não seria de prazer.

Tento entender a solidão de quem me julga.
Uma desculpa não me faz retroceder
Nem compreender esse corpo que se aluga.

O teu sentimento deixa dúvida.
Diz que é sua a renúncia de viver,
Deve morrer por esse amor que é repulsa.




SONETO TRINTA E QUATRO

Não sei se meu amor dá poesia.
A conheci no dia de uma noite sem luar.
No mar com suas ondas sucessivas,
Era a solitária ilha, onde náufrago fui parar.

Escuto ao despertar ela chamar
E vejo o lugar tal qual fotografia.
Sua voz, uma melodia de encantar.
É grande o pesar de um amor que renuncia.

Eu queria e tentava lhe falar:
Amar uma desconhecida, não era fantasia.
Pois, era o que me acontecia, iria explicar.

Alguém que parecia ser seu par,
Ao se aproximar, ela sorria. Eu já previa
Que nunca mais veria o seu olhar.





SONETO TRINTA E CINCO

Será que o amor é ilusão
Ou uma necessidade natural;
A mais profunda e sincera emoção
Ou simplesmente um ardor sentimental.

O amor é meramente abstração,
Jamais teria um teor material.
Uma amizade repleta de paixão,
Onde a loucura parece ser normal.

O amor é tal a fé no coração,
Não questiona a contradição pendente
Que exacerba doentia sofreguidão.

O amor para si mesmo, mente,
Quando engana um ingênuo coração,
Dizendo que será eternamente.




SONETO TRINTA E SEIS

Sei que minha vida duraria muito pouco,
Se eu não fosse tão louco para amar.
Não peço a ninguém acreditar,
Mas com certeza, eu já estaria morto.

Sem amor fui ao fundo do poço,
Onde a solidão me fez chegar.
Quando a conheci, vi em seu olhar
Que sairia do inferno, sem esforço.

Com sua meiguice, eu sou outro.
Já nem sei mais o que é chorar
E de sorrisos, eu desfruto o dia todo.

Sei que tudo pode se acabar.
Todavia, quando estiver no sufoco,
Desse amor eu vou poder me relembrar.




SONETO TRINTA E SETE

Pedregulhos na estrada abandonada;
O guri os põe na funda pra caçar.
Uma ave que parece abandonada,
Não consegue ao seu ninho, encontrar.

Eis que as ligas do estilingue, esticadas,
Arremessam uma pedra pelo ar.
Pela forquilha, a vitima é mirada.
Suas penas espalhadas no lugar.

A euforia de um garoto orgulhoso,
Ante a sua inegável pontaria,
Ao não ver que era um ato vergonhoso.

Mas agora, homem feito, avalia:
Não seria um adulto presunçoso
Pra pensar que o mundo o serviria.





SONETO TRINTA E OITO

Quero às minhas retinas, fatigar;
Por olhar seu rosto à minha frente.
Se não percebo os presentes no lugar,
É que em nós, tudo à volta, está ausente.

Não imagino um futuro diferente,
Sem ter você pra poder me completar.
Sei que viver não poderá ser para sempre.
Mas, esse amor irá nos eternizar.

A realidade pode a tudo transformar.
Até o sonho mais recente,
Pode tornar-se um pesadelo secular.

Melhor acreditar que o mundo mente.
Se tudo que é real tende acabar,
Prefiro ser um sonho permanente.




SONETO TRINTA E NOVE

Debalde a razão me deixe,
Não serei um louco alucinado.
Posto meu desvelo para ser lembrado,
Não permita que eu me queixe.

Não importa se em total desleixe,
Se encontre meu vestir desalinhado.
O meu pensamento, embora afetado,
Não permitirá a tal desfeche.

Ante o desespero de uma mente insana,
O meu grito será abafado
Pela resistência a uma sutil lembrança:

A de que jamais seria relembrado
Como um louco que perdeu a esperança
Por ter sido esquecido no passado.




SONETO QUARENTA

Quero persuadir o meu silêncio
Com sua voz dizendo sim.
Voltar correndo para mim,
Seria enfim, voltar no tempo.

Mesmo que seja só no pensamento,
Preciso tê-la junto a mim.
Antes que o inevitável fim
Se torne dor e sofrimento.

É preciso mais que tempo
Para eu me acostumar
Com esse nosso rompimento.

Nem mesmo sei se agüento
Ver meu mundo se acabar
Entre flor e fingimento.




SONETO QUARENTA E UM

Não importa o que possuo
Ou se não possuo nada.
Se nesse mundo me incluo
Ou se acaso não me caiba.

Se enfrento ou recuo,
Ou se apenas me acaba.
Se minha fé eu destruo
Entre a cruz e a espada.

Dessa forma, me situo
Como um louco que se acha
Preso ao próprio pensamento.

Ao mundo, eu me insinuo
Como uma brisa que passa
No mais ínfimo momento.




SONETO QUARENTA E DOIS

Enquanto a lua, nas nuvens se oculta,
Eu me aproximo da casa iluminada.
Com uma mão, o dono mostra a entrada.
Ao mesmo tempo, com a outra me expulsa.

A pretendente, lá dentro está reclusa.
Por coincidência, é dele filha prendada.
Uma mulher por dois homens, adorada.
Pelo seu pai, se apressa em dar desculpa.

E nessa hora, seu decote me acusa.
Seu pai percebe minha voz insinuada
E meu olhar prolongado, em sua blusa.

Por sua vez, de nós dois não se descuida.
Mais uma noite que termina empatada
Na mais difícil e acirrada disputa.





SONETO QUARENTA E TRÊS

A saudade assola em deserto, a vida,
Quando é percebida por quem ama e cala.
A distância nunca será superada,
Pois o amor se aparta ante a partida.

Há um muro enorme, uma parede erguida
Que isola e sempre mantém separada
Uma pessoa que é sabidamente ingrata,
De uma apaixonada que foi ofendida.

Talvez nunca encontre a porta de saída,
Por não perceber quando ocorreu a entrada
Nesse quarto escuro que não tem medida.

Se sua paixão não foi correspondida,
Não deixe sua vida ser vazia e casta.
Levante a cabeça e a mantenha erguida.




SONETO QUARENTA E QUATRO

Não é possível exatidão e permanência
Num mundo de extrema raridade.
Onde encontrar a verdadeira liberdade,
Sendo um escravo da existência?

Ser limitado em sua própria consistência,
Um pensamento que é volatilidade.
Ser ilusório dentro da realidade,
Uma chama que é essência.

Não há certeza fora de sua consciência.
Acreditar pode não ser veracidade.
O ser não cabe entre a fé e a ciência.

O que seria a ilusão da inocência,
Senão fração de nossa continuidade.
Nossa vontade impera nossa anuência.





SONETO QUARENTA E CINCO

Esse contentamento no sorriso revelado
É a emoção que transborda ao sentimento.
Uma imagem que não sai do pensamento,
Sintoma de um homem apaixonado.

Seria esse exemplo ultrapassado?
O homem atual não tem mais tempo,
Sua conquista agora, é só fingimento;
Posto o amor, ser coisa do passado?

Afirmo na verdade, é o contrário.
O homem cada dia é mais ciumento.
Pois seu querer requer bem mais cuidado.

Eis que a mulher já sabe o resultado.
Jogando com esse seu conhecimento,
Só faz do homem, um tolo derrotado.




SONETO QUARENTA E SEIS

Meus olhos observam atentamente,
Os transeuntes que atravessam a praça.
Caricaturas que perderam a graça
Num vai-e-vem, tão apressadamente.

Percebo que nem toda essa gente
Caminha sem saber o que se passa.
Uma figura que está escassa,
Aquela que pertence a antigamente.

Que cumprimenta a todos que encontra.
Sinal de educação e de respeito,
Coisas que hoje, mais ninguém faz conta.

Esse comportamento vem de berço.
Talvez, seja por nossa ignorância
Que decaímos tanto em conceito.





SONETO QUARENTA E SETE

Eu levo a vida em pensamento e lágrimas,
E nunca estou inteiramente só.
Tenho por companhia, minhas lástimas.
Herança que herdei de minha avó.

Às vezes, chego mesmo a sentir dó
De uma existência que é tão infundada.
Que está impregnada em forma de pó,
E tem em si, uma lição de casa.

Talvez eu seja a sombra de um fantasma
Que só na morte pode ser feliz;
Na certa, aconteceu à minha alma.

A casa pode ser um chamariz.
Eu mesmo, uma visão mal-assombrada,
Que à realidade, nunca quis.




SONETO QUARENTA E OITO

Na evolução do mundo, fez ciência.
Talvez tenha esquecido de seu caso,
Um dípode que ainda anda ao acaso,
Em volta de sua própria existência.

Não tem noção de sua permanência
Num mundo relegado ao descaso.
Quem sabe ainda espere no ocaso,
Um ser para salvar sua onipotência?

O homem em toda sua sapiência,
Não vê que é apenas um pedaço
De todo esse complexo sistema.

O mundo está à beira de um colapso
Por ser o homem o único que pensa.
Nada o impede de seguir os próprios passos.




SONETO QUARENTA E NOVE

Sempre a vi como a mulher perfeita.
Nunca pensei que fosse só fingimento.
O meu silêncio pode ter certeza,
Não é de tristeza, é desapontamento.

Qual a escuridão que vem lá de dentro
Quando se apaga a única luz acesa,
É a sensação que se tem no momento
Que se descobre um ato de vileza.

Minha visão já não é mais a mesma,
Caiu a máscara do encantamento
Se revelando a face verdadeira.

Fiz a mim mesmo, exacerbado juramento:
Jamais poria a efêmera beleza
Diante do eterno sentimento.





SONETO CINQUENTA

É tão difícil resumir o amor em verbo
E traduzi-lo ao ato da necessidade,
Quanto aceitar de fato a realidade
De senti-lo mais de perto.

Um coração acostumado a ser deserto,
Teme o incerto em sua comodidade.
E tudo aquilo que pra ele é novidade,
Requer cuidado, decerto.

Qual prisioneiro entre paredes de concreto,
Eu já percebo minha impossibilidade
De partir quando bem quero.

Qual passarinho que ao se encontrar liberto
Desconhece sua própria liberdade,
À gaiola do amor, enfim, regresso.




SONETO CINQUENTA E UM

Tenho que resistir ao tempo que me curva
Deixando para trás a força e a saúde.
Não quero que amanhã, ninguém me culpe,
Nem que paire sobre mim, nenhuma dúvida.

Meu neto não irá pedir desculpa,
Pois que não herdará, senão virtude.
Revendo ante a vida uma atitude:
A de nunca desistir enquanto há luta.

Faço-o entender que numa disputa,
Nossa perseverança, enfim, ressurge
Pela diversidade que nos insulta.

A escolha que o coração exulta
É aquela que eu fiz enquanto pude.
Não deixe a razão mantê-la oculta.





SONETO CINQUENTA E DOIS

Fechando minha mão recolho lama.
Arrasto-me pelo chão enlameado.
Um caranguejo não capturado,
Escapa à ação da mão humana.

Ao cheiro forte que dali emana,
Já tenho o olfato acostumado.
No mangue, há um mundo atolado
Que à primeira vista nos engana.

Enquanto a família me acompanha,
Mantenho meu pesar, dissimulado,
Por vê-la obrigada ao trabalho.

Uma tristeza imensa me inflama.
Como verei um filho meu letrado,
Se meu sustento é tão limitado?





SONETO CINQUENTA E TRÊS

Exumei meus mortos para não esquecê-los.
E dessa forma, vê-los à luz da lembrança.
Havia já perdido toda a esperança,
Por achar que não conseguiria mais revê-los.

Não posso acreditar que poderia revivê-los.
Seria uma tola e irresponsável ignorância.
Porém, é possível encurtar essa distância
E ao meu lado, enfim, mantê-los.

A minha idade não permite devaneios
Tais os que tinha quando ainda uma criança,
Onde meus sonhos eram todos verdadeiros.

Agora, vivo dentro de um pesadelo;
Um solitário que entre mortos, descansa.
São entes queridos e amados companheiros.





SONETO CINQUENTA E QUATRO

O que realmente move a caridade
É o bem estar do indivíduo que a pratica.
Dessa forma, ele apenas a exercita
Para saciar sua própria necessidade.

Onde o outro em sua miserabilidade,
Se comove ante tal filantropia,
Demonstrando toda a sua simpatia
Por notarem sua triste realidade.

Neste caso, o que importa na verdade,
É que o ato tem a sua serventia.
Apesar do mesmo, ser hipocrisia.

Ambos enaltecem sua religiosidade,
Considerando como uma teofania
O que não passa de cruel eupatia.




SONETO CINQUENTA E CINCO

O que eu via em minha tenra idade,
Era corrupção entre colarinhos brancos.
Já se passaram tantos anos,
E continua a mesma e triste realidade.

O cerne da questão é a impunidade.
Afirmo sem medo de enganos.
A lei, mesmo com seus braços longos,
Não alcança os culpados, na verdade.

A velhice, enfim, me alcança,
Toca em meus cabelos brancos.
É minha última lembrança.

Hei que um dia a gente cansa,
Se retrai aos desenganos,
E morre na mais vil desesperança.



SONETO CINQUENTA E SEIS

Já sei de cor o caminho da alegria,
Seguir a trilha que me leva até você.
Em seus braços, revelar o meu querer.
E dar em troca, minha breve companhia.

Minha mão, ao seu corpo, enfim despia,
Enquanto o quarto se enchia de prazer.
Tenho a ilusão que a vida pode ser
Resumida em um só dia.

O quanto a amo, não teria uma medida.
Se houvesse, não teria onde caber.
Se coubesse, só seria em você.

Todavia, és maior que minha vida.
Sinto em cada despedida, seu poder,
Na certeza com que afirma o porquê.





SONETO CINQUENTA E SETE

O rosto esconde o caráter do individuo.
A sua simpatia pode ser mera perfídia.
Sua maldade, oculta em um bom-dia,
Disfarça, que ao contrário, é um inimigo.

Nem sempre é verdadeiro o sorriso.
A falsa impressão nos alicia.
Nossa temeridade de um dia,
Desfaz-se por um simples artifício.

Diante da ilusão de um compromisso,
Tal qual uma amizade propicia,
Ficamos à mercê de algum risco.

Saber que mesmo raro, há amigo,
É a única condição que alivia
O peso de viver sob perigo.




SONETO CINQUENTA E OITO

Caí por sobre caixas e engradados.
Estava alucinado em meu torpor.
Na dor de ter perdido meu amor,
Senti-me com os membros separados.

Faltava entre eles, um pedaço,
Aquele que segreda quem eu sou.
É bem mais fácil a quem nunca amou,
Jogar tudo que tem para o espaço.

Ainda com o corpo desmembrado,
Entre arrependimento e solidão,
Eis que uma mão me mantém levantado.

Meu rosto, de repente, é iluminado.
Aliviado, tenho o coração.
Pois era o meu amor ao meu lado.





SONETO CINQUENTA E NOVE

Quantos homens se acoimaram por ofensas?
Ante aos mitos celebraram rituais;
Sacrifícios de inocentes animais
Consumados em nome de oferendas.

Com o tempo, muita história virou lenda.
Muitos céticos, a mártires imortais.
Atos de lei tornaram-se ilegais.
O que era imoral, agora é prenda.

Há esperança que o mundo ainda aprenda.
É a lição deixada pelos ideais
Que aos olhos do passado, foram vendas.

Um conceito tende a ser somente crença,
Quando à força, sobressai aos demais.
E suas contradições levam à descrença.



SONETO SESSENTA

Um homem silencia ante seus atos
Que são vis, imorais e vergonhosos,
Quando nele, ainda há despojos
De um caráter perdido por maus tratos.

Se a arrogância não o deixa mais calado,
Sua ira não permite ter remorsos.
Serão inúteis todos os esforços,
Para enfim, recuperá-lo desse estado.

Seus desejos não serão mais saciados.
Acredita de verdade, tudo posso.
Os valores não serão mais respeitados.

Seu senso de justiça será mal interpretado.
Sua vingança será um problema nosso,
Membros de uma sociedade de culpados.





SONETO SESSENTA E UM

A saudade é onda em fúria nos rochedos.
Insistente, quer meu peito perfurar.
Sinto a mesma solidão que tem o mar,
Por guardar tantos segredos.

A lembrança é a luz da lua nos penedos.
Temporariamente tende a me iluminar.
Vejo a escuma alvadia se formar.
Em seguida, desfazer-se entre meus dedos.

Sinto o vento frio assanhar os meus cabelos.
Não responde onde posso te encontrar.
Dessa forma, não atende a meus apelos.

A desolação do mar não me dá medo.
É a mesma que ficou em teu lugar.
Por que foste afastar-se, assim, tão cedo?




SONETO SESSENTA E DOIS

Minha morada não parece passageira.
Enganando-me eu avanço os sinais.
Meu dia-a-dia permanece nos anais
De uma história verdadeira.

Minha loucura durará a vida inteira;
Tão breve e curta, em meus passos mortais.
Saio ileso entre atos casuais
De uma vida corriqueira.

Minhas escolhas são regidas de maneira
Que eu siga a conceitos culturais,
Onde meus ais são apenas brincadeira.

Estou cercado por limites de fronteira.
Sou submisso ao escrutínio dos demais.
Além do mais, devo respeito à bandeira.




SONETO SESSENTA E TRÊS

Queria ser só imaginação.
Sou mero pensamento impetuoso,
Que não ver quão doloroso
É viver de inquirição.

Não posso aceitar suposição
(Não por ser criterioso)
De um fato curioso,
Como justa explicação.

A fé não passa de superstição,
E pode ser um passo perigoso,
Se dado em nossa direção.

Indago até mesmo à razão,
Se o assunto é melindroso
À minha eterna indagação.




SONETO SESSENTA E QUATRO

Sou eu, esse do canto direito,
Ao lado da cerca desalinhada.
Pai, mãe e toda a filharada.
Eu fui sempre desse jeito.

Nessa outra, sou o que está no leito.
Foi uma gripe mal curada,
Quase me matou, a danada;
Ainda sinto dor no peito.

Sempre fui o derradeiro.
Fui a última barrigada.
Era um menininho feio.

Nessa aí, já era artilheiro.
Essa foto virou capa
Da revista “O cruzeiro”.




SONETO SESSENTA E CINCO

Tenho ciúme até de seu passado.
Talvez, amar seja o maior castigo.
Mas mesmo assim, quero você comigo.
Não viveria sem tê-la ao meu lado.

Quantos na vida, tem reencontrado
O ser amado que estava perdido
Como se fora um velho conhecido
Que aparece como por acaso?

Sei que você foi o maior achado.
Desde o começo, me senti vencido.
Mas satisfeito por ser derrotado.

Não merecia melhor resultado.
Pois só agora, a peça faz sentido.
Sou a platéia e você o tablado.




SONETO SESSENTA E SEIS

Observo a rua, por cima do muro,
Enquanto a construção está pela metade.
O muro cresce até o final da tarde,
E espera a noite toda, no escuro.

Em sonho, um projeto eu estruturo.
Não haveria muro na cidade.
De toda janela eu tiraria a grade,
Ampliando os horizontes do futuro.

O dia amanhece, eu misturo
O sonho, o muro e a realidade.
Eu ficara com o lado obscuro.

A luz da liberdade, eu procuro.
E vejo do outro lado, a claridade.
Como no sonho, derrubei aquele muro.




SONETO SESSENTA E SETE

É uma noite sem luar, tempo nublado,
A escuridão lá fora me arrepia,
Junto à intensa e poderosa ventania
Que varre as telhas do telhado.

Olho da janela do velho sobrado,
Vejo o foco da lanterna do vigia.
Passeio pelo quarto pela vigília
Que me mantém à meia noite, acordado.

Observo o pêndulo em movimento ritmado,
O badalar que à hora anuncia
E me deito no pequeno acolchoado.

Com o tempo, sinto o corpo relaxado.
Eu esqueço o que ao redor acontecia
E caminho para o sono, conformado.




SONETO SESSENTA E OITO

As pedras se agrupam calcetando a rua.
As calçadas em alturas desiguais.
Além de mim, há algo mais
Que observo quando vai surgindo a lua,

Minha sombra que na calçada se insinua
Como as jovens prostitutas nos sinais,
Que parecem aos meus olhos, irreais,
E se perdem na escuridão da rua.

Quando a lua entre nuvens, se oculta;
Minha sombra vai se dissipando em ais.
Fico só, na sombria noite escura;

Onde sombra e criatura são rivais.
Mau augúrio, a minha triste figura
Que anseia sua sombra por demais.




SONETO SESSENTA E NOVE

Perdoa-me esse jeito desprovido
De atenção, de cuidados e conversa.
Não posso te fazer essa promessa.
Não que eu pense ser o amor desmerecido.

Embora tenha, às vezes, esquecido
Aquela dita data que expressa
A noite em que tudo enfim, começa;
Ela estará sempre comigo.

Será que amar assim, não faz sentido?
Não choro, mas há lágrima imersa
Em tudo isso que eu te digo.

Não quero ver teu coração partido.
Todavia, meu caráter me alicerça.
É dessa forma que eu existo.





SONETO SETENTA

Alguém que um dia houvesse de se perder
Pelos atalhos do mesmo caminho
E se encontrasse triste e sozinho
Sem saber o que devia fazer;

E de repente, começasse a chover,
Tentasse correr e pisasse num espinho,
Caísse sobre cobras dispersas num ninho,
Que fosse picado e começasse a morrer;

Jamais deveria pensar em destino.
Pois tudo não passa de mero viver.
Buscar um motivo será desatino.

Quando os urubus o viessem comer,
Seria apenas questão de instinto,
Sem necessidade de saber por quê.




SONETO SETENTA E UM

Não há sinal de vida no vasto deserto.
Mas se olhasse de perto, na certa veria
Que há espinhos e flores, beleza e perfídia,
Que sua fina areia soterra mistério.

Se ocupar os seus olhos com maior critério,
Perceberá que é decerto uma utopia.
Onde é extremo o calor que exala o dia;
A noite erma e fria é somente o inverso.

Há tantas almas e ossos tal cemitério,
Que se preservam há séculos na fantasia
De mitológicos deuses, céu e inferno.

Era afiada a lâmina, fundindo o ferro.
Enquanto a história, às lutas sobrevivia,
Em pergaminhos papiros, em prosa e verso.




SONETO SETENTA E DOIS

Não há nenhuma fronteira,
Não há limites no mundo.
A não ser, os acordos imundos
Que nos impõe barreiras.

Eu não aceito a cerca.
Esse desgosto é profundo.
E a mim mesmo afundo
Sob esse mundo, do qual sou presa.

Mesmo a maior fortaleza,
Não prenderia meu mundo
De sonho, liberdade e beleza.

Tenho a mais nítida certeza
Que não pertenço a esse mundo
De dissabor e tristeza.




SONETO SETENTA E TRÊS

Eu tenho que admitir
Que é preciso se iludir
Com estórias de natal,
Onde o bem vence o mal.

Não posso mais resistir.
Pra suportar o porvir
É preciso ser normal
E aceitar o habitual.

Eu vou ter que reprimir
A loucura que advir
Do meu jeito casual.

Não consigo nem dormir,
Só em pensar em sorrir
Para o meio social.




SONETO SETENTA E QUATRO

Hábeis mãos dissecaram meu cadáver.
Um entrave ao tocar o coração
Que começa a pulsar na ilusão
De que vive, embora tarde.

O legista solta o órgão que ainda arde.
Tem na face, assombrosa expressão.
O calor que irradia é emoção
De um coração que insiste e nunca parte.

Uma súbita idéia o invade.
Com cuidado, vai fechando a incisão.
Mas percebe que o órgão não reage.

Ele atenta para um mero detalhe.
Então, pega novamente o coração.
Em sua mão, outra vez, o órgão bate.




SONETO SETENTA E CINCO

A amizade é um ato de respeito
Que exige desprendimento e simpatia.
Entre alguns, uma mera utopia,
Sendo apenas fingimento e despeito.

Não há uma fórmula e nenhum segredo.
A amizade nem ao menos se avalia;
É solidificada pelo dia-a-dia,
Pela necessidade de servir primeiro.

A amizade se enraíza em humilde meio,
Na enorme maioria que a propicia
E a considera um laço forte e estreito.

Há uma minoria com certo receio.
Para essa seleta minoria,
Amizade é só vínculo financeiro.





SONETO SETENTA E SEIS

Quantos rebanhos perdidos
Em aldeias seculares,
Onde o pastor punha altares
E os levava ao sacrifício?

Hoje, os pastores são vistos
Em recônditos lugares,
Entre bases de pilares
De enorme templo erguido.

Os rebanhos são tolhidos
E levados aos milhares,
Para um abissal abismo.

Os pastores pervertidos
Mantêm sob seus olhares
Os rebanhos submissos.




SONETO SETENTA E SETE

Meus olhos me satisfazem na emoção
De ver a dona da razão que determina
O marco onde meu caminhar termina
Em sua fria e repentina aparição.

Qual uma flecha de Eros, essa visão
Trespassa o meu coração que tem a sina
De esquecer tudo que a vida lhe ensina
E se entrega aos arroubos da paixão.

Eu sem saber aonde ir, qual direção,
A sigo com o olhar até a esquina.
Uma buzina chama a minha atenção.

Em meu estado de alucinação,
Corro tal louco e a alcanço ainda,
Na plataforma da velha estação.




SONETO SETENTA E OITO

Um sonho que tende a ser maior
Quando na realidade é concebido.
Um som que sempre é ouvido
Quando tem uma nota só.

Um gosto que é bem melhor
Quando sempre é apetecido.
Um beijo que jamais é esquecido.
E quando enfim, é repetido, é de cor.

Um caso que ao ser proibido,
Tende a aumentar o perigo
E a tornar-se bem maior.

Entre lágrima e sorriso,
Numa tradução que não faz nenhum sentido,
O amor é traduzido por si só.




SONETO SETENTA E NOVE

Não sei se respirar
É o que demonstra que eu vivo.
Ou são os pensamentos indecisos
Como o que acabo de citar.

Não sei se continuo a procurar
Uma resposta, um motivo.
Eu sei que não me explico;
Por isso insisto em indagar.

Não sei se o mundo quer me dar ouvido.
Se há alguém que queira escutar
Meu desabafo sem sentido.

Meus gestos podem ser repetitivos,
Meu riso pode não mais encantar.
Mesmo assim, vou questionar se for preciso.




SONETO OITENTA

Não posso acreditar na ilusão
Que o mundo é uma espécie de cárcere
No qual cada detento tem a chave,
Mas só será liberado após a execução.

Eu rio tanto, dessa tola afirmação:
Diante de uma ingênua liberdade
Onde o preso faz a sua parte
E o carrasco lhe promete salvação.

Todavia, o cativo tem a sua punição.
A sua liberdade virá tarde,
Após lenta e dolorosa extinção.

Não poderá provar sua versão.
Jamais terá de volta sua carne.
O verbo só, é apenas flexão.




SONETO OITENTA E UM

Eu resisto ao tempo, trágica figura
Que se insinua em meu pensamento.
Tua capa negra esvoaça ao vento,
Uma enorme foice, tua mão segura.

Vejo tua sombra à minha procura,
E aumenta mais o meu sofrimento.
Pois não sei o quanto ainda agüento
Evitar meu corpo ir à sepultura.

Enquanto teu dedo me acusa,
Entre o horror e o tormento,
Mal percebo a minha loucura.

Sinto está morrendo a esta altura,
Ao ver revelado em vil momento,
Que afinal, a vida continua.




SONETO OITENTA E DOIS

Procura no sorriso de uma criança,
O sutil reflexo de ingenuidade e beleza,
Quando à sua volta tudo é estranheza,
Que encontrarás tua esperança.

Procura na tua remota lembrança,
O tempo em que a maior tristeza
Era acalentada com atenção e presteza,
Que encontrarás tua esperança.

Se a tua vista não alcança
E ainda esperas que aconteça,
Encontraste a tua esperança.

Não deixe que de tua infância,
A tua idade se esqueça,
Que sempre terás tua esperança.





SONETO OITENTA E TRÊS

Nem a noite silencia o meu ser,
Permaneço a exercer meu pensamento.
A escuridão lá fora e o vento,
Acalentam meu prazer de escrever.

Não existe outra forma de me ver,
Que não seja através desse momento;
No qual passo ao papel o meu tormento
E o melhor que poderia oferecer.

A idéia que procuro não perder
Na ilusão do meu débil entendimento
É aquela que não posso compreender.

Não consigo minhas dúvidas, conter;
Muito menos, escrever com fingimento;
Nem também, a verdade esconder.




SONETO OITENTA E QUATRO

O que somos na verdade que não seja
Ilusão de nosso próprio pensamento?
Nós vivemos no mais tolo fingimento,
Por que nossa consciência assim, deseja.

Essa posição que o homem tanto almeja,
Por achar que é de seu merecimento,
Já não passa de um enorme isolamento
Ao qual a nossa espécie está sujeita.

Nossa civilização ainda rasteja,
Apesar de todo o seu conhecimento
E da esdrúxula mania de grandeza.

Triste espécie que degrada a natureza,
Consciente do próprio aniquilamento,
No intuito de acumular riqueza.