Mão & Caneta

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Em nome do pai e do filho

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PREFÁCIO

São tantos questionamentos que é necessário desvirtuar-se um pouco da realidade para melhor introspecção em busca de algumas respostas.
Vale ressaltar que quase sempre não temos resultados coerentes.
O poeta norte-riograndense João Felinto Neto faz brilhar no universo literário esse ponto de luz que é Em nome do pai e do filho. Poesia crítica aos conceitos, aos preceitos e ao sentido da vida. Um extremo solavanco na intensa necessidade de criar para viver, não eternamente, mas por muito mais tempo.
Ao debruçar-se sobre estas páginas, o leitor ficará inquieto diante da presunção inconsciente com a qual o poeta destila um insidioso veneno nas mentes pacíficas e acomodadas ao pensamento convencional. O poeta digere o sofrimento, as angústias, o inquietante indagar cotidiano à sombra da enorme catedral e o pálido porque dos importunos, através de seus versos.
Em nome do pai e do filho não convenciona verdades nem sintetiza argumentos. Todavia, exaspera aos que não enxergam à luz da razão.

Humberto Gaspar






EM NOME DO PAI E DO FILHO

Ao bater na porta,
Meu corpo treme.
Então, me acorda
A dor premente.
O meu corpo sente
E desaprova.
Quem me acordaria
Àquela hora,
Seria enfim, a morte?

Luto pra ser forte,
Indiferente.
Adentra o recinto,
Descontente,
O meu filho que sofre.

- Pai, minha tia diz que sua sorte
É de Deus castigo.

- Venha cá meu filho,
Sente-se ao meu lado.
Não existe Deus ou o Diabo.
Eles não têm nada haver com isso.


- Não entendo, pai.
Qual é o motivo?
Aonde você vai,
Eu irei contigo?

- Escuta, querido.
Lembre-se do que digo.
Imagine uma velha carroça
Numa disparada sem sentido,
Numa poeirenta e triste estrada.
Quando o burro em uma guinada,
Joga a roda numa poça d’água
Que enlameia uma cerca,
Não há um motivo.

Todavia, nem todas as estacas
Seriam afetadas.
A lama seria os males do mundo.
Eu, uma das estacas atingidas.
Poderia ser a sua tia
Ou qualquer pessoa nesse mundo.

São tolas palavras,
As que a fé, dita.
Que sejam caladas,
Que sejam proscritas.
Nada determina nossa vida.
São folhas caídas
Numa enxurrada.
Quanto a estar contigo,
Será para sempre
Em suas lembranças.
Não é diferente,
Quando o corpo morre
Também morre a mente.
Eis que nossa alma
Morre com a gente.
Não chore filho,
Não fique descontente.
Há contos de fada,
Onde nossa alma
Vive para sempre
Num lindo lugar.
Basta acreditar,
Que estará presente.

- Minha tia disse que o inferno
É um lugar quente,
Onde a alma geme
Atormentada.

- Sua tia é louca e desvairada,
Foge de si mesma, assustada,
De um fanatismo incoerente.
O Diabo não passa de muita gente.
O inferno, uma vida atribulada.
Quando o cérebro pára,
Não há cético ou crente
Que veja mais nada.
Onde haveria de estar a alma,
Além de numa mente fértil e demente?
Filho, para sempre
É coisa passada.
Viva o presente.
Quanto a céu e inferno
E um viver eterno,
Não seja inocente,
É coisa sonhada.

- Pai! E se for verdade
O que a tia diz.

- Ela é infeliz,
Mesmo com saúde,
Tem medo da vida
Mais do que da morte.
Onde há verdade,
Há também coragem.
Quem vive
Não morre.
Onde estaria
O Éden perdido,
Esse paraíso
Feito de matéria,
Onde um ser pensante
Sem massa cefálica,
Caminharia um instante
Sob um chão de nada,
Numa tarde ensolarada
Quando não haveria sol?
Lá estariam as almas,
Também sem matéria.
Sentiriam elas,
Uma beatitude
Sem haver terminações nervosas?
Isso tudo é prova
Que é a imaginação,
Uma ilusão,
Quase ninguém nota.

-Pai,
Se não existe Deus
Quem criou o universo
E tudo que nele há?

- A resposta está
No fundo do cérebro.
Basta acreditar.
Não há criação,
Tudo é de fato.
Sendo Deus então,
Uma criação
Do homem fanático,
Seu próprio retrato.
-Preste muita atenção,
A razão fala mais alto.
Quando ouvir o coração,
Avalie o resultado.
-Se eu morresse agora,
Morreria satisfeito.
Pois, vivi outrora
Tudo que tive direito.
- O mundo é perfeito
Em sua imperfeição.
Imagine-o como criação,
O autor um deus
Que é em si perfeito.
Esse deus, quem fez?
E por sua vez,
Qual o criador
Que o outro deus criou?
Seria sem fim.



- Pai, diz para mim,
Como vou viver
Longe de você;
Não será meu fim?

- Chegarei ao fim
Como um indivíduo intelectual,
Entre o bem e o mal,
Entre o bom e o ruim.
Todavia,
A minha matéria continuaria,
Ela é infinita.
Sendo assim, um dia,
Serei apenas uma lembrança.
Você é criança.
Vai crescer, sabia?
Digo isso a você,
Apesar de não saber
O que espera o futuro.
O que não aconteceu
É obscuro.
Não há jamais, como prever
Se ainda vai acontecer.
Siga seus princípios
Morais e éticos.
Seja sempre cético
Ante os artifícios.
Afinal, a vida em sociedade
Exige coragem
E respeito mútuo.

- Pai, eu devo questionar a tudo?

- Filho, na verdade não importa
Se alguém criou o mar,
Banhe-se.
Quem faz o vento soprar?
Sinta-o.
De onde vem a música?
Dance.

- Pai, até onde devo aprender?

- O saber
Não tem limite.
Nós devemos aprender
O que na verdade existe.
Porém, é apenas conhecimento.
O verdadeiro instrumento
É aquilo que criamos.
Pois, ultrapassará nossos anos.
Viveremos assim, mais tempo,
Dentro de futuros pensamentos.

- Boa noite, pai.

- Durma bem, filho.

Quando enfim, parte
A minha criança,
Vem-me a lembrança
De um livro que li.
Pura poesia no livro havia.
Em voz alta, eu repito
O seu título:
- Em nome do pai
E do filho.





SUA CASA

Não espere por Deus, nunca,
Você nunca o verá.
Sua voz será a única
Que você ouvirá.

Se quer acreditar,
Não escute o que digo.
Porém, se duvidar,
Questionar é preciso.

Entre covas dispersas,
Não há bem, não há mal,
Só há nossas conversas
De fulano de tal.

Em um golpe fatal,
Acertei sua nuca.
De uma forma geral,
Vou fundir sua cuca.




AURORA

Sou eu que choro de amargura
Enquanto a noite escura
Ainda sorri lá fora,
Ao ver surgir a lua.
Estou à espera da hora,
Perante a loucura
Da dor e da demora.
Eis que a manhã se afigura,
O sol me apavora.
É mais um dia de tortura
Por não ter ido embora
Como se fora, a pouco, a lua,
Nessa mística mistura
Que é a aurora.





POR ACASO

Eu tomo uma decisão
Entre duas opções.
Numa, eu mato um leão.
Na outra, não.
Sei que a decisão é minha,
Mas a tomei por acaso.
Nada, a ela determina.
Não é destino, é um fato.
O leão fora caçado,
Não por que devia ser.
E também foi por acaso,
Na minha frente, aparecer.
Há um leão a morrer
Por efeito do disparo.
A causa, o meu querer,
Uma disposição ao acaso.
Na verdade, leões eu não mato,
Apesar, de versos, escrever.
Não importa na vida o que faço.
Por acaso,
O que faço
É viver.





DESPEDIDA

Em cada ponto de partida,
Uma chegada.
Em cada casa
Há uma porta de saída.
Em cada sala,
Uma visita indesejada,
Que se cala
Numa ingrata
Despedida.





O ANJO E O MONSTRO

Tu és o meu lado humano,
Aquele que cuida de mim;
As asas de um doce anjo
Que voa sobre meu jardim;
A cura de minhas feridas;
A cicatrização da dor;
A emoção de minha vida;
A realização do amor.

Eu sou meu lado desumano,
Aquele que quer ver meu fim;
As garras de um cruel demônio
Que fere o anjo no jardim;
A fúria que não é contida;
O obscuro lado do terror;
O monstro que em mim habita
Que é insensível ao teu amor.





ALIENÍGENA

Esse mundo não é meu,
Eu sou um alienígena.
No meu mundo não há Deus,
Não há castigo que fira,
Não há alma condenada,
Não há céu e nem inferno.
Lá, o que tem de eterno
É a essência herdada.
É a única morada
Que o acaso concebeu.

Já nesse mundo de adeus,
Cada um de nós perdeu
O caminho para casa.





LIVRE DA FÉ

Pai,
Não me faça odiar a teu Deus
Só por não merecê-lo.
Os castigos que devem ser meus,
Não os dê a terceiros.
Não desejo jamais conhecê-lo.

Os meus erros
São atos banais
Ante os ais
Dos que choram de medo
De um deus que é espelho
De indefesos mortais.

Pai,
Não condene meu êxito
De livrar-me tão cedo,
Dessa fé dos demais;
De acordar desse teu pesadelo,
No qual, os meus desejos
Levar-me-ão ao degredo
Com minh’alma em paz.





UTOPIA

Sou borboleta perdida
Que no jardim bate asas.
Nasci sem ter companhia.
No casulo fui lagarta.
Arrastei-me nesta vida,
Entre árvores esfolhadas,
A procura de comida
Numa floresta devastada.
Hoje, vôo em liberdade.
Sinto a saudade de um dia
Em que eu era utopia
E não verdade.





CULPA

Eu fui a lei
Para o homem que nasceu jurado.
Fui um carrasco
Para o vassalo
Que desobedeceu ao Rei.
Eu fui talvez,
A cova para o missionário
Que ao ver o Diabo
Achou que era a sua vez.
Fui eu, vocês.
A cada um, eis meu recado:
Sou agora o pecado
Pela morte que me fez.





UM GRÃO

Sou do universo, um grão.
Ponho na mão,
Um punhado de areia.
Sou apenas isto?
Ainda dizem que eu existo!
Sei que existo
Por acreditar saber.
Porém ser,
É aquilo que acredito.
Entender,
Eis a parte mais difícil.
Se existo,
Por que não consigo ser?





CONTINUIDADE

A distância
É apenas a espera.
A espera,
Paciência.
Abra os braços,
Continue em terra.
A lembrança,
Barco a vela
Que navega em silêncio.
Não há nada de novo no tempo.
Amanhã, não importa a idade.
Somos continuidade.





MÃOS OPOSTAS

São tantas as minhas dúvidas;
Perguntas que jamais terão respostas.
No meu campo de batalha, não há luta.
Sem pecado, não há culpa,
Só as duas mãos opostas.

Não sei ajoelhar-me e fazer súplicas,
Estas ações em mim seriam hipócritas.
A quem eu deveria tais desculpas?
Não há sensação nas luvas.
Minha prática é estóica.

A minha mão não sela minha jura.
Minha loucura é baseada em lógica.
A minha trajetória não é curva,
É retilínea sob a luz de minha óptica.





CERVEJA

Tão fria,
Porém, me deixa tão quente.
Espuma fremente
Que me alicia.

Loira que sacia
Um desejo ardente
Que me deixa ausente
Quando minha boca
O copo esvazia.





CÔMICO

Bati o pó
De minha terra;
Estava só,
A sua espera,
Há mais de vinte anos.
Talvez, já não me reconheça.
Mas sou o mesmo,
Tão cheio de planos.
A minha porta está aberta.
A minha vida um triste espelho.
Diante de meu desespero,
Sou cômico.





O OLHAR

Espantado?
Espantado, talvez.
Espantado comigo?
Espantado pelo que sei.
É fitando o espelho que eu digo
Que não sei o que sei:
Se esse olhar tão perdido
Que é por mim tão temido,
É o meu
Que fitei.





ENTRE GOLES

Entre goles de uma bebida pura,
Pela jura de esquecer o outrora,
O que faço,
Se estou cavando, agora,
Minha sepultura?

Ao pedido de quem mais me culpa,
Pela ajuda de quem mais me olha.
Meu fracasso
Em pedir desculpa,
Já não lhe apavora.

Nem a força de toda ternura
Ante as lágrimas de quem sempre chora,
Vai mover de minha sepultura
Essa areia suja
Que o tempo sopra.
Entre goles de uma bebida escura
Que não mais consola.





ONDA ESPECTRAL

Sou, às vezes, o avesso
De um mundo que me vira;
Uma triste utopia
Do contrário.
Sou o velho calendário
Sobre a mesa;
A página marcada
Do esquecido aniversário.
No cenário
De uma peça teatral,
Sou o caos
De uma ordem imprevista.
Sobre a crista
De uma onda espectral,
Eu sou o mal
Que se exorciza.






SOLIDÃO DIÁRIA

Você me cobra atenção.
Sua boca em vão,
A mim, condena.
Sou eu a folha serena
Que cai no fim do verão.
Você tem sempre razão.
Em minha culpa condena.
Talvez, um dia eu aprenda
Que solidão é ofensa
Se em meio à multidão.






MÃO ALHEIA

Se não sou erro,
Apenas me engano.
A mim, acusando,
Não põe cadeia.
Pois se é feia
A minha ação,
Assim engana.
Não tenho gana
De ser mais feliz,
Por ser raiz
Daquela que me apanha,
A mão alheia.





AO ALCANCE

Onde posso lhe encontrar,
Corpo de sereia?
Que ao sair do mar
Deixou na areia
A minha vontade.
Em sua liberdade,
Voa para casa
Num lençol de asas
Como uma gaivota
Quando sobrevoa
Um moleque à toa,
Triste a caminhar.






REMÉDIO

De que me adianta o céu
Se os que amo sucumbirem ao inferno?
Não valeria a pena ser eterno,
Prefiro ser mundano.
Pois o meu pensamento é profano,
Amenizando o tédio
Como um remédio
Para esse desengano.
Não tenho medo de queimar no inferno,
Se estiverem salvos os que amo.
Não acredito que exista um plano
Ou um destino certo.
Meu futuro, no acaso, é incerto
Como fora antanho.






A CHUVA

Não tenho medo de ir para fora
Enquanto a chuva cai.
Mas, se você sai,
O meu coração chora,
E se demora,
Ele chora mais.
Sei que meus ais
Não lhe comovem, agora.
Minha senhora,
Quanta falta faz.
Não tenho paz,
A chuva não consola
E a lágrima de outrora,
Tal qual a chuva,
Cai.







VALIA

Não acredito
Que cada um mereça seu castigo.
Pois que o nosso preço
Não é nossa valia.

A uns, caber tristeza.
A outros, alegria.

Não acredito,
Nem acreditaria.
Por ver penar o certo
Em meio ao deserto
De sua teogonia.

O que não vale nada,
Seguir na mesma estrada
Em sua companhia.

No arrependimento,
Apagar pelo tempo,
Toda sua vilania.

Não acredito,
Nem acreditaria.






CALENDÁRIO

Sou uma página ao vento,
Por alguém me arrancar.
Porém, eu me contento.
Fica em meu lugar,
Uma data expressiva
Que irá à deriva
Quando o tempo passar.







ESCURIDÃO E LUZ

Clamor
De quem me fala.
Beijos
De quem me trai.
Eu sou a paz,
Quando vitória.
Reconheço
Querer mais que minha nota,
Uma ambição que me sufoca.
Não seria Jesus,
Iscariotes com a sua corda?
Árvore torta.
Sangue na cruz.
Beijo que me seduz
E me deflora.
Escuridão e luz.






TEMPORÁRIA

Nessa vida temporária,
Atribuo os meus passos,
Ao acaso.
Pois destino
É tristeza e embaraço.
Se descalço,
Um espinho me penetra.
Sou poeta
Em um mundo calejado,
Onde todos são levados
A ter pressa,
Onde a meta
É um futuro avançado.






O RINGUE

Amo sem piedade
Pelo amor que dou.
Não peço em troca
Sua lealdade.
Na minha idade,
Não esqueço quem eu sou:
Um lutador
Sem inimigo de verdade.
Meu ringue,
Um palco de vaidade.
Saudade
Por não ter opositor.




PALAVRAS

É madrugada,
O silêncio traz consigo
Versos perdidos
Por minha alma,
Que escravos da razão,
Nunca terão
Expressão em suas falas.
São palavras
Que talvez não digam nada,
Por serem versão.
Se fossem versos
Declamados ao inverso,
Dariam lágrimas.





MONOCROMÁTICA

Dedico minhas horas ao sorriso,
Como castigo
Aos que nunca dão risadas.
Monocromáticas,
Almas sem o colorido;
Duvido
Que algo possa ajudá-las.
Poucas palavras
Que insultam meus ouvidos.
Descubro
Que sem cores, são fantasmas
Que acreditam estar vivos.





ILUSÃO DESMERECIDA

Não sou a construção
Sob medida.
Ninguém habita,
O meu triste coração.
Talvez, seja ilusão
Desmerecida,
Quem acredita no amor
E na paixão.




SÓCIOS

Não choro,
Apenas desabafo meu pesar.
Não sei se amar
É um bom negócio.
Nas pautas de um papel,
Nós somos sócios;
A nossa meta
Era o amor não se acabar.
O nosso prejuízo foi deixar
Que houvesse intromissão da concorrência.
Inevitável a nossa falência.
Tivemos que nos separar.





OUVINTE

Sou aquele
Que sucumbe a toda hora,
Em seus tristes pensamentos.
Não espero,
Nem deleite, nem sorrisos.
O meu risco
É estar vivo.
Vou embora.
Minha história,
Mal contatada,
Sem ouvidos pra escutar.
Pela demora,
Sou agora
O ouvinte esquecido,
Que repete as palavras
Sem sentidos,
Depois chora.





O ANJO

Eu sou o anjo
Que saiu de casa
À procura de Deus
E que descobre que seus braços
Não são asas,
E que o inferno
É a favela em que nasceu.
Que sua salvação é sair ileso
Do projétil de uma bala.
Que não tenciona ir parar no céu,
Pois sua igreja é uma lei equivocada.
Sua única certeza
É que o mundo é cruel.
Que seu poder vem do calibre de uma arma.
Que carrega almas como uma missão,
Na ilusão
De que a morte irá salvá-las.
Que as feias chagas que há em suas mãos,
Foram causadas pelos cabos de suas armas.
Que o seu sermão
É um discurso na baixada.
Que enquanto fala,
Vende drogas aos irmãos.
Que o seu perdão
É uma atitude rara.
Que o seu sorriso é uma triste gargalhada
Que parece uma crise desesperada
De quem perde a razão.
Que carrega sua cruz
Tatuada em suas costas.
Que suas respostas
São parábolas em vão.
Que sua oração
São palavras indecorosas.
Que ao ser ferido pelo gume de uma faca
Cravada no peito seu,
Abre os braços enquanto seu sangue jorra,
Olha para o céu e chora
Por acreditar, outrora,
Que podia encontrar Deus.






NADA SERIA

Sou o rascunho
De uma história mal contada.
Muitas vezes, apagada
Pela mão que corrigia.
Sou a grafia
Que a mim mesmo, ocultava.
A palavra que ditada,
Escondia
Que eu me ouvia
E a caneta acompanhava.
O que há muito já sabia,
Que amassado entre páginas dobradas
Pela mão que me escrevia,
Nada seria.






NOSSA VITÓRIA

Cada detalhe do seu corpo
Nos recomeça.
Como se lentamente,
Encontrássemos nossa pressa.
Lábios tocados
Pela anuência do querer.
Eu sem saber
Que o seu caminho é que me leva.
E na hora de voltar,
Eu em você,
Você em mim.
Nossa vitória,
Chegarmos juntos ao fim.





PERFUME

Se não consigo entender-me,
Como posso avaliar o teu caráter?
De minha parte,
Quero apenas entreter-me.
Porém a solidão
Na escuridão,
Arrasta-me ao ciúme.
Eu poderia beber a noite toda,
Não sairia de minha roupa,
O teu perfume.







DUAS PARTES

Sou em dois,
Sem metades.
Sou em parte,
Um fim.
Duas partes
Em uma unidade.
Sou metade em mim.
Ruboriza uma parte,
Com vergonha de mim.
Talvez por ser humana.
A outra parte
Apenas me acompanha,
Por ser parte de mim.





COMPENETRADO

O poeta
Põe as mãos sob a cabeça
Pra pensar no mundo,
Mesmo que dele se esqueça
Por não conhecê-lo a fundo.
Em seus versos, manifesta
A expressão de sinto muito.
Por dizer: - Não me aborreça.
Por favor, vê se me deixa,
Eu não tenho mais assunto.
O poeta
Não esquece um segundo
De usar sua caneta
Para falar com o mundo.







SENSATEZ

Quero
Alimentar o meu sorriso pobre,
Com os momentos de espontânea lucidez.
Quero talvez,
Iluminar com um gesto nobre,
A amargura dessa timidez.
Não sei
Se nas idéias, sou realmente louco,
Ou falta pouco
Para morrer de vez.
Minha verdade
Convalesce por meus erros.
Os meus acertos,
Uma estranha realidade,
Sensatez.






O SELO

Sou memorável
Nesse jogo de memória.
Não há história
Num presente sem passado.
Leio ao meu lado:
“De alguém que foi embora.”
Quando eu falo, de fora,
Dentro tem alguém calado.
Não há recado
Se o bilhete, a chuva molha,
Enquanto o mensageiro chora
Sem que possa entregá-lo.
Neste cenário,
Sou o selo imaginário
Do envelope que descola
E é pisado pela sola
Do sapato
Do carteiro aposentado.






RESPOSTA

Se alguém me perguntar:
- Quem sois, agora?
Direi que fui outrora,
Quem não soube esperar.
Se insistir interpelar,
Que isso não é resposta,
Ratificarei que agora,
Não sou nada sem lembrar.







TEORIA IMAGINADA

Tenho uma idéia
Que na prática passaria
Como teoria imaginada,
Por alguém que não sabia.
Minha idéia materializada,
Pode não mostrar sabedoria;
Mas com tinta e caneta, ela daria
Uma bela poesia
Declamada.







REFÚGIO

Vivo,
Pois respiro
Minhas horas de existência.
Onde o suor é liquido
De minha sobrevivência.
Sempre sob o risco
De sucumbir à demência,
Procuro refúgio
Nos caprichos da inocência,
De que um anjo resoluto,
Vai manter a consciência
De que vivo mais
Que luto.






CONDECORADO

Acato
Todas as ordens que me dão,
Sem nunca dizer não,
Sem desacato.
E quando chamam minha atenção
Com um sermão,
Fico calado.

De um soldado raso
A capitão,
Medalhas são
Bons resultados.

Não posso tomar uma decisão,
Será violação,
Seria rebaixado.

Se eu então pensar,
Haverá uma expulsão.
Serei um cidadão,
Jamais condecorado.






FALHO

De que me vale a culpa,
Se há perdão.
Quebro a promessa,
Ainda há jura.
Peço desculpa,
Estendo a mão.

Se cometo um pecado
É que sou falho,
Faço mais não.
Não serei condenado.
No fim, sou perdoado.
Recebo ajoelhado,
A salvação.







O ERRO

Eu cometi um erro,
Não por querer,
Mas por jamais, poder
Me conter,
Não consumar de fato.
Talvez, o meu prazer
Tenha custado caro.
O que posso fazer,
Se por amar você,
Fui condenado?
Nunca pensei de ver
Tão grande amor
Como um pecado.






AINDA É DIA

Nunca é o bastante a companhia
Dos que cercam nossa vida
Quando a saudade
Pela morte, os silencia.
São nessas horas vazias,
Que exigimos do tempo
Uma regressão de lembrança,
Na esperança
De aplacar o sofrimento.
O cotidiano incomoda
Pela falta percebida.
A agonia
É saber que não há volta
E a revolta
É saber que ainda é dia.






MINTO

O eu distinto,
Não se apraz,
Nem se conforma
Nessa dor que incomoda
O meu instinto
Que ao se sentir extinto
Se acomoda
Numa paz
Que em mim, aflora
Quando minto.





IMPREVISIBILIDADE

Num sistema tão complexo,
Não afasto
A impossibilidade do destino
Pela imprevisibilidade do acaso.
Talvez, seja um desatino.
Todavia, é o que eu acho.
A verdade não está no que eu faço.
Mas naquilo que imprimo.
Qual seria o meu caminho?
Qual o meu próximo passo?
O exemplo que eu sempre examino
É a maneira que termino
Um poema inacabado.





POR ALGUM MOMENTO

Deixo em mim,
Variar o tempo,
Quando lembro
Do que prometi.
Não acaba, todo o sofrimento.
Mas se torna ameno,
Por algum momento,
Sinto ser feliz.





LÁGRIAM TARDIA

Sou a lágrima tardia,
Do arrependimento em vão.
Não seria solução,
Por ser vazia.
Não por falta de emoção,
Mas, pelo mero perdão
Que não teria.





ENTRE AS FALHAS DO ASFALTO

O meu sorriso é forçado.
O meu gesto acanhado
Ante o mundo que me cerca.
Encontro a porteira aberta
E me dispo do roçado.
Sou um fruto descascado
Que a cidade não conserva.
Estou seco, desolado.
Entre as falhas do asfalto,
Acho terra.
Finco meus pés no passado
E me sinto ainda, cercado
Pelo mato e pela erva.






E NUNCA MAIS

Quantos sonhos já tivemos
Sem poder concretizar?
Quantos ais,
Quantos momentos?
Tantas dores, pensamentos
De que eu ia me curar.
Não importa quanto tempo,
Esta é minha despedida.
Quantas noites mal dormidas
Para ver a minha vida
Se esvair?
O mais difícil em partir,
É ter que olhar para trás
E saber que nunca mais
Vou poder vê-la sorrir.






FRAGMENTOS DE MEMÓRIA

Seu sorriso não provém de fingimento,
Sua dor não o incomoda.
A verdade
É apenas fragmento
De sua débil memória.
Sua voz,
Mantém presa no silêncio
Que seu lábio acomoda.
Está parecendo agora,
Um louco que comemora
Seu sofrimento.






EXISTENCIAL

Somos a memória de uma vida
Existencial,
O bem e o mal
Numa condição real
E reprimida.

Somos uma versão colorida
Do status social,
Padrão estético normal
De uma verdade merecida.

Somos ilusão na despedida,
Uma forma espectral
Numa visão estrutural,
Matéria orgânica apodrecida.

Somos uma lembrança dolorida
Que por ser especial
Toma âmbito universal;
Numa criação mental,
É imortal e indefinida.





SIMPATIA

Os meus olhos
Sepultaram a timidez que em mim
Havia.
O que tenho hoje em dia
É enfim,
Só simpatia.
Olho cada intimidade
Sem escrúpulos, com vontade
E a mais explícita malícia.
Minha boca diz: Delícia!
Nada mais me envergonha.
Descobri que dessa forma é que se ganha
Simpatia.






RACIONALIDADE PERVERTIDA

Mergulhado na profundidade
Desse mar de lágrimas,
Sou uma charada
Pensativa;
Tão ativa
Quanto um vulcão em larvas.
Desgraçadamente intuitiva,
Minha racionalidade pervertida,
Extirpou o meu direito de cuidar
De mim mesmo.
Sou sobejo do que há.





ALUCINANTE

Não foi tempo bastante
Para saber quem eu era.
Talvez, fosse quimera
Ou uma mera
História distante.
Não importa o instante,
Já sou húmus da terra.
Brota em mim uma erva
Verdejante.
Um maluco inconstante,
Masca um pouco de mim.
Sou enfim,
Alucinante.






ÚLTIMO ABRAÇO

Por que é tão curto,
Se é tamanha a intensidade?
Ainda luto
Para voltar a realidade.
Eis que o cansaço
Retém-me no chão de areia.
Preso na teia
Do seu último abraço,
Sob as estrelas,
Tenho o rosto contemplado
Pelo riso inacabado
De tua surpresa.






AMO

Amo com temor,
Sem fantasia,
Como jamais, amaria,
Esse alguém.
Amo sem arroubos de alegria
Qual a noite ama o dia
Que a tem.

Amo também,
Esse amor que não teria;
Não por mera covardia,
Mas por sê-lo
De outrem.

Amo quem mantém
O meu segredo
De amar a quem
Por medo,
Já não ama mais ninguém.






O REFRÃO

Não consigo por os pés no chão
Pela ilusão
De que sou sonho
E que componho
Uma breve canção,
A que disponho.

Que em nota singular,
Acompanha o refrão
Numa língua que não há
Mais tradução.

Lentamente, ressuscita
Minha débil razão.
Numa mão,
A caneta ainda grifa.
E diviso na escrita,
O refrão.






AMIZADE E CARINHO

Não esqueça de olhar as estrelas,
Antes que não mais perceba
Que amar é de alma.
Ser feliz é um estado de graça,
Onde o riso é um passe de mágica
Que a vida almeja.
Não se veja
Enquanto se espelha
Na vaidade;
Pois que amar
É honrar a humildade,
Não importa quem seja.
As pegadas que ficam na areia,
Não demarcam o caminho a seguir.
Mas, mostram que alguém por ali,
A pouco caminhava.
Dessa forma, a verdade consagra:
Nunca estará sozinho.
Ao amar,
Haverá na estrada,
Na medida exata,
Amizade e carinho.





AÇÕES VERDADEIRAS

Não velemos o nosso fracasso,
Se há espaço
Sobre nossas cabeças.
A esperança,
Talvez não prevaleça
Ao que a vida é de fato.
A miséria é mais que embaraço,
Um fiasco à nossa nobreza.
Não selemos a mente estreita
Enquanto abrimos os braços.
Sepultemos o que temos de falso
Com ações verdadeiras.






POR NÃO MERECER

Toda noite,
Eu deito ao seu lado
E fico a esperar,
Entre um beijo, um breve abraço
E uma canção de ninar,
Você adormecer.
A janela
Ainda aberta,
Me faz perceber
Que a lua ilumina
O sorriso de quem sonha
Com o mundo que vê.
Fecho os olhos
E me ponho a pensar no porquê
De ver esse mundo mudar,
Sem poder alcançar
A inocência de ser.
Às vezes, sem nem mesmo perceber,
Temos a resposta.
Mas viramos as costas.
Talvez,
Por não merecer.





TALVEZ NÃO DÊ RESPOSTA

Não encontro forças
Para tomar a frente
Dessa dor calada.
Juventude postergada
Por um amor ausente.
Um mal-humor crescente
Que deságua em lágrimas.
Vista embaçada
De um olhar descrente,
Enquanto a carta estende
A mão que me sufoca
Numa decisão recente.
Quem não me compreende,
Talvez não dê resposta.






IGNOTO

Um incógnito
Na equação do pensamento,
Que em silêncio,
Ante o vislumbre antecipado,
Chora por dentro
E permanece em si calado
Por ser velado
Pelas dores do seu tempo.

É ignorado
Pelo descuido de momento,
Na inevitável
Propensão de ser pretenso.
Tão caroável
Ao inexorável sofrimento
De seu ser inominado.







LOUCO SORRIDENTE

As horas inerentes
Ao dia
Em que a esperaria
Longamente,
Por trás da grade fria
Onde meu corpo ardia
Por esse amor premente,
Deixaram minha mente,
Senão vazia,
Minguada à tristeza evidente.
Por esse amor demente,
Em asas imponentes,
Voaria.
Quem sabe, assim, seria
Um louco sorridente?







SEM PRIMAVERA

Com a neve que cobre o chão, a erva,
O herbívoro
Por fome, é extinto.
O carnívoro
Que segue seu instinto,
Se afasta do abrigo
Da caverna.
Já não há uma caça
E ele espera.
Porém, morre pelo frio que o congela.

Eis que o homem agoniza no silêncio,
Onde o vento
Anuncia a desgraça,
Consciente por saber que é a causa
De não ter mais primavera.
Nessa hora, olha os corpos que ainda vela,
Com as mãos sobrepostas aos ouvidos,
Ainda escuta os clamores e gemidos
Que ecoam dessa terra.





SELVAGEM

Quem pode ser
Nessa vida,
Que enquanto lambe a ferida
Tenta ao inimigo esquecer?
Na certa, não é humano,
É um selvagem insano
Que morre sem perceber.







SÓ POR VOCÊ

Não vejo uma razão para correr,
Ter tanta pressa para um fim
E mesmo assim,
Ainda esperar para morrer.
Se quer saber,
Estou falando de você
E não de mim.
Se hoje, não, tende a dizer.
Talvez, amanhã, diga sim.
Se nunca puder responder,
Seja você,
Só por você,
E não por mim.







HUMANOS II

Todos dormem,
O que fazem em seus sonhos, agora?
Quem se acorda
Faz plano
De não ir à escola.
São os lobos
Que caçam lá fora,
À procura de anjos
Que perdidos em meio à escória,
Se tornaram humanos.







ATÉ O ÚLTIMO TROCADO

Quem são os homens
Que acreditam na decência de seus mitos?
Que ficam ricos
Sobre o medo do pecado.
Os castigados,
Ainda têm o prejuízo.
Mas em seus risos,
Acreditam estar salvos.
Somos escravos
De uma fé que não é justa
E que nos custa
Até o último trocado.


POR DEMAIS

Quero debulhar minhas angústias
Na esteira da saudade de meus pais.
Não quero mais
Que reaver minha conduta,
Pois minha culpa
É herança de ancestrais.
Aos demais,
Eu deveria uma desculpa.
Quem sabe, a última
Ou apenas uma a mais?
Entre meus ais,
Há um grito de quem luta
E que sofre por demais.








BATEAR

No batear da bateia,
Só veio ouro.
Senti-me um tolo
Por procurar.
O que esperava encontrar
Além de posse e poder?
Em troca iria perder
O meu poder de sonhar.
Melhor que ouro é viver
Sem nunca se deixar vencer
E aproveitar o prazer
Que é ao seu sonho buscar.
Devolvo o ouro ao lugar,
Sem padecer.
E volto a batear.






PRIMOGÊNITO

Foi Jesus, crucificado
Por um ato ciumento.
Posto, o Diabo
Ser de Deus, o primogênito.

Paz na terra
Entre os filhos condenados
Que por deuses venerados
Se tornaram violentos.

Filhos que estão na terra,
Perdoai as vossas ofensas.
Embora não tenham na certa,
Revogadas as vossas sentenças.







Parasita

No parasita
Que habita o meu corpo,
Sou parte morto,
Sou parte vida.
No patogênico universo,
Entre as víceras,
Leva meus dias
E a vontade de comer.
Mas, quem é esse que pra sobreviver,
Destrói a casa que habita?
Sou hospedeiro,
Em proporção ao mundo inteiro,
Sou parasita.







O ARCO-ÍRIS

Ao despontar no céu,
Entre cores, se desperta
O arco-íris.
Os raros pingos tocam o velho telhado.
Mantenho a janela aberta
E meus pensamentos livres.
Saio à calçada
Enquanto a brisa
Alicia meus cabelos.
Acaricio a cabeleira assanhada;
Umedeço os meus dedos.
Volto à sala,
Observo ao espelho
Uma imagem solitária.
Não tenho medo.
Dentre a solidão da casa,
A companhia que me basta
É o que escrevo.







GRANDE EXEMPLO

Vejo, ouço e falo até demais.
O perfume das rosas eu exalo.
Movimento meus braços.
Sigo em paz.
Mas, jamais aos outros.
Sob a chuva, eu corro feito um louco.
Muitos acham que é pouco.
Acho coisa demais.

Mesmo que ELA me tolha os movimentos,
Estarei aqui dentro,
Vivo, em meu pensamento,
Tal a dama que em versos se desfaz,
Movimenta seus olhos e assim, traz
A certeza de ser um grande exemplo.







ARTE LITERÁRIA

Posso não ser a florescência pensativa
Nesse século que passa.
Quem sabe a vaga
Que não fora preenchida
Numa anônima academia,
Na cadeira isolada?
Minha palavra
Pode ser aborrecida.
Minha escrita,
Poesia desvairada.
Mas com certeza,
Nado contra a correnteza
Nessa arte literária.




TRISTE COMPANHIA

A solidão não me conforta.
Porém, compensa com o sossego.
Além da porta,
Está a dor e o desespero.
A violência traz o medo
Que é minha triste companhia.
Ainda é cedo,
Já vejo amanhecer o dia.
Há uma multidão lá fora,
Que a toda hora
Se digladia.
Eis que sair, não poderia.
Pois que eu seria,
Mais uma triste companhia.






ANTIGAMENTE

Cada lembrança traduzida em minha mente,
Me arrasta ao passado.
Estou fadado
A viver de antigamente.
Quando meus olhos
Tinham um brilho diferente
E o mundo à frente,
Queria ser conquistado,
Era tão mágico,
Mesmo sendo inconseqüente.
Sendo inocente,
Nada parecia errado.
Hoje, ilhado
Por recordações frementes,
Estou fadado
A viver de antigamente.






TREPADEIRA

O amor que sinto é tanto
E dessa maneira
Me mantém aprisionado
Àquela que amo
Tal qual planta trepadeira
Que a vida inteira
Permanece presa ao canto
Onde fica o jarro.
Esse amor requer cuidado
Pra não se tornar lembrança.
Como o jarro na varanda,
Tem que ser sempre regado.






IMPÉRIO

Otávio tem o título de Augusto.
De Roma, é o primeiro imperador.
Tibério continua os seus planos.
Calígula eleva o seu cavalo a cônsul
E é morto pela guarda que criou.
Cláudio assassina Messalina.
Envenenado pela Agripina,
Tem Nero como o seu sucessor,
Que inimigo público se tornou
Quando incendiou a Roma antiga.
Em meio a revoltas e intrigas,
Vêm Galba, Otão, Vitélio em um ano.
E segue-se a eles, Vespasiano
Que enfim, estabiliza a economia.
Seu filho Tito, o sucederia,
Inaugurando o Coliseu romano.
Eis que Pompéia e também Herculano
São pelo Vesúvio destruídas.
Domiciano finda a dinastia.
Dos Flávios, é o último imperador.






AMALUCADO

Sou um pássaro que voa sobre o trigo.
Em um grito,
Um esquisito espantalho.
Um retalho
Na estaca, esquecido.
O sorriso
De um menino amalucado.
Um bocado
Numa boca, mal comido.
Um gemido
De um corpo esgotado.
Sou velado
Em um corpo apodrecido
E no lixo,
Mais um resto abandonado.





OBITUÁRIO

Entre quatro paredes de uma estreita cela,
Redigi meu obituário
Numa página amarela
De um antigo calendário.
Minha idade, eu esqueço.
Sem endereço, sem nome.
Causa mortis, desconheço.
Quem sabe medo ou fome,
Solidão, ou desespero?
Afinal, o que seria?
Qual o motivo verdadeiro?
Só sei que morri primeiro
Que minha louca poesia.







TODAS AS PALAVRAS

Todas as palavras são silêncio,
Mesmo quando são pronunciadas.
São um turbilhão em pensamento.
Em pouco tempo,
De soberbas a aviltadas.
Podem ser sinceras,
Também fingimento.
E sem argumento,
São silenciadas.
Mesmo quando são pronunciadas,
Todas as palavras são silêncio.






ESSÊNCIA LITERAL

Não sou essencial;
Mas, sou lembrança.
É minha esperança,
Ser real.
Se no material,
Ninguém me alcança,
Que eu seja,
Enfim,
Essência literal.









AVESSO

Em meio a solidão,
Sou companhia.
Na evidente vida,
Ilusão.
Numa reflexão,
Só exagero.
O desespero,
Quando mansidão.
Em plena perfeição,
Sou o defeito.
Se sou na retidão,
O erro;
Talvez, seja no erro,
A exatidão.
Seria eu, apenas o avesso
De minha própria imaginação?







O RISCO

Não feche os olhos ante o perigo
E serás impelido
A sobreviver.
Na vida, só há um sentido,
O de manter-se vivo,
Não importando o porquê.
As rosas de um jardim florido;
As dobras de um papel machê;
O abraço de alguém querido;
Aquilo que nos dá prazer;
A emoção de um sorriso
E a plenitude do querer.
Tenha certeza que tudo isso,
Vale correr o risco
Que é viver.







ENTRE NÓS, EU E VOCÊ

Tanta coisa
Pode se perder no tempo
Entre a vida e o pensamento,
Entre a razão e o querer,
Entre o sorriso e o lamento,
Entre nós, eu e você.

Tanta coisa
Não se pode compreender
Entre a dor e o prazer,
Entre o chão e o firmamento,
Entre o ser e o não ser,
Entre nós, eu e você.

Tanta coisa
Entre nós, eu e você.






FELICIDADE

A felicidade
É mais que um sorriso,
É um compromisso
De todos os sentidos,
Com o coração.
Mesmo em solidão,
É aquela sensação
De que estamos vivos
Em toda nossa extensão.
É manter a mão
Estendida aos amigos.
É melhor que isso,
Abraçar na escuridão.
É o menor grão
Ter valor enaltecido.
O menor motivo,
Valer sua atenção.
Felicidade, então,
É mais que devoção,
É ser o próprio mito.





O ÚLTIMO SOBREVIVENTE

Vento
Na imensidão passiva
De um lugar sem alma.
É nessa área
Que meu coração habita.
De dias quentes,
De noites frias,
É um capricho a aridez que me acalma.
Entre as montanhas do desterro,
Caminha a esmo,
O último sobrevivente.
Um oásis me separara
Em solidão perdida,
Em companhia ausente.






MEUS MORTOS

Meus mortos
Acompanham a jornada de meus dias
Com a mesma ousadia
De seus ossos
Que entre escombros e destroços
Silenciam
A oração de meus remorsos.











FONTE QUE CATIVA

Sigo a direção
Que o meu coração indica
E sigo à risca,
A doutrina do querer;
Mesmo que a razão não possa crer,
Quando o desejo me suplica:
Venha viver!
O amor é fonte que cativa
E para sempre escraviza,
Quando há vontade de beber.










REDEMOINHO

Minha solidão é passageira
Qual poeira em espiral
Que arrasta no redemoinho,
As mágoas que andam em meu caminho,
Para o denso matagal.
Sinto falta de ficar sozinho
Qual solitário passarinho
Que ainda pousa no varal,
Que apesar de ser mansinho,
Com a algazarra dos meninos
Voa, afinal...








APARÊNCIAS

Apenas dissimulo
A sofreguidão
Em meu sorriso.
Enquanto isso,
Insinuo ao coração,
Que fingir é preciso.
Enganar a mim mesmo,
É o único meio
De suportar tamanha dor.
A ninguém é segredo
Que é preciso primeiro,
Recobrar seu valor.






CIPÓ

Não sei ir só,
Na ilusão de meus passos.
O meu fracasso,
Todos já sabem de cor.

Eu sinto o nó
Que ainda prende meus braços.
São seus abraços
Que tomam forma de laços
De um enorme cipó.






VELADO

Eis que em sonho
Se revela,
O meu mundo condenado.
Onde o verde do cenário
Num piscar de olhos, seca.
Vejo a terra,
Um deserto desolado.
Acordado,
Vejo um ancião velado
Por um anjo preocupado
Com a solidão que o espera.