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Estranhas narrativas

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PREFÁCIO

Num jeito peculiar, o autor, em direções diversas, narra em seus primeiros passos, os devaneios de um contador de histórias.
Com seus contos, crônicas ou narrativas estranhas, invade o mundo literário sem pretensões, que não, a de ser lido.
O autor espalha pensamentos em seus múltiplos sentidos, deixando fluir toda e qualquer idéia obtida em raciocínio ou delírio.
Compartilhar a leitura de curtas histórias que se engrandecem em seus contextos com um narrador que na maioria das vezes, se retrata com o personagem na primeira pessoa, nos tornando assim, o próprio personagem também, é gratificante.
São passadas curtas, essas narrativas, mas nos levam longe, ao refletirmos nos significativos símbolos sobre linhas em sentido contextual.
Nenhuma narrativa é banal quando levada a sério. Ela pode ser vulgar ou intelectual, de fácil compreensão ou de difícil acesso à maioria. Portanto, a maneira de interpretar é individual e não depende da capacidade intelectual do leitor e sim de sua sensibilidade emotiva.
O autor manipulou suas narrativas de uma maneira que faz aflorar o instinto incompreendido do leitor, a busca por um sentido narrativo direcionado a si próprio.
Júlio Eduardo





ESTRANHAS NARRATIVAS

Na estante, os livros enfileirados lado a lado, apertados capa contra capa, numa seqüência de diferentes cores, tamanhos, títulos, autores e conteúdos, acomodam-se em seu cotidiano, adormecem, e em seus sonhos se encantam.
Assim aconteceu um dia, logo ao acordar me dirigi para a escrivaninha, comecei a rabiscar um triste poema, e de repente, encosto-o e olho para a estante, estiro a mão, nem mesmo olho o título; ao despertar o livro ao folheá-lo, uma estranha narrativa me surpreendeu, já que todos aqueles livros eu havia lido, nele havia personagens que não eram seus.
Em Macondo, os Buendia admiravam a nova atração dos ciganos; Moby Dick, capturada pelo capitão Acab, já com cem anos de idade e de solidão.
Enquanto Aureliano Buendia enfrentava o pelotão de fuzilamento, escutava uma voz que vinha de dentro, era a voz de Dante, que dizia naquele instante: - E per lo inferno, tuo nome si spande; e nesse momento vê uma belíssima dama que lhe diz: - Sou Beatriz. E através dos seus olhos, vê um rapaz de lábios descorados e de olhar fixo, confessando seu hediondo crime e resignando-se ao castigo, quando alguém o chama de Raskolnikov.
Assustado, fecho o livro, passo a mão no rosto para me livrar de uma vertigem; olho a estante novamente e escolho um outro livro aleatoriamente, e como alguém à espreita de um perigo abro-o lentamente e começo a ler: - Um cavaleiro negro e sua espada que derrama em jorro o sangue do inimigo, eis Eurico, e o luto na loucura de sua amada Hermengarda, que logo após uma canção, dá uma risada soturna e dolorosa, e grita enfim desesperada: - Le rouge et le noir. Estas não seriam as cores do sangue de Julien e do luto de Mathilde? Do celibato e da paixão? Mais uma vez as histórias se misturavam.
E assim, estavam todas as obras, elas haviam se infiltrado através de suas capas e se integrado umas com as outras com a cumplicidade de seus autores, que mesmo provenientes de lugares com línguas diferentes se entendiam na tradução das mesmas, e armavam novas histórias com uma belíssima miscigenação de personagens dando como resultado uma incrível e fascinante obra literária universal.
Passei toda a manhã entre os livros, extasiado com tamanho acontecimento, e estupefato com minha lucidez diante de algo tão irracional. Talvez eu ainda estivesse dormindo e tudo não passasse de um belo sonho ou de um horrendo pesadelo. Procuro me assegurar e tento me acordar da própria realidade, volto ao meu leito e adormeço para viajar a um mundo que acreditamos ser real.
Arrumam-se em nossas cabeças, fragmentos de tudo que é percebido através de nossos sentidos, que talvez, sejam uma ilusão de que estamos vivos num mundo racional. Fragmentos estes, retirados de velhas gavetas, separados ou misturados, da forma que for preciso, para nos manter em sintonia uns com os outros, como uma verdadeira estante, a mais complexa e estranha, na qual misturamos nossas idéias e cotidianos para mantermos o que chamamos de vida.




A CAIXA

Olhou o relógio, eram quase nove horas, no mesmo instante a porta abre-se enquanto entra a figura obesa de seu patrão; em suas mãos havia uma pequena caixa; meio sem graça se atreve a perguntar: - Que novidade é essa? Tem um simples olhar como resposta, um olhar de reprovação à sua curiosidade.
A caixa é colocada sobre um velho balcão, mas não é aberta; o patrão se dirige ao banheiro para lavar as mãos. "Deve ser algo precioso, para fazê-lo lavar as mãos", pensa. Ao voltar do banheiro, finalmente desabafa: - Eis a modernidade, e aponta para a caixa.
Ao abri-la, há um pequeno objeto em forma de bola, com uma estranha cor, ele é acionado ao ser solto no ar, e permanece levitando como se não houvesse gravidade. Estupefato com o acontecimento, consegue gaguejar uma pergunta: - Para que serve? Não recebe resposta, mas seu patrão aponta para o objeto voador, e o mesmo começa a girar e tudo ao seu redor (Objetos, instrumentos) começa a parecer novo. Em alguns minutos, o tal objeto consertou o que ele levaria um mês para fazer, e mais, com igual perfeição.
Ao ser despedido, quando já na rua, deu a última olhada na loja que trabalhara tantos anos, e leu em voz alta os novos letreiros que se destacavam: - Modernidade (Consertos de última geração).
Anos depois, estava em sua pequena loja nos fundos de sua casa, quando vê uma velha cena se repetir, eis que seu antigo patrão entra com uma pequena caixa nas mãos, só que desta vez ele observa: - Vi que usa a antiga fachada de minha loja.
- É, sempre gostei dela.
- Preciso que você conserte isso.
Abre a caixa, e lá esta o estranho objeto, motivo de sua demissão.
Ao sair da loja do seu ex-funcionário, lê mais uma vez sua antiga fachada: - Antigüidade (Consertos manuais).





CONFIANÇA

Olhava as suas terras, elas sempre foram assim; mas algo o prendia a elas, sem o deixar sair. Bem que poderia vendê-las, não seria um mau negócio (já que o Januário fizera uma boa oferta). Não entendia por que a queriam tanto. De solo seco, só dava para se manter com o pouco que colhia.
Ali, estava seu pai enterrado, que permaneceu no trabalho até o último dia de vida, desde as poucas chuvas à estiagem. A solidão parecia maior, mas não tão grande como o calor humano, nunca houvera prosperidade e fartura naquele lugar, mas sempre houvera uma verdadeira amizade entre as pessoas. Começou a pensar naqueles tempos, bons tempos, que não voltariam mais, viu-se pequenino, acompanhado de seu pai na caminhada que fazia ao triângulo de Velha Vida, pequeno lugarejo em que nascera.
Todo mundo ali conhecia seu pai, o chamavam de Antunes, o caminhador. Era um homem de estatura mediana, com olhos aguçados, mas a expressão de seu rosto era de tranqüilidade (cara de sossego, como dizia a sua mãe). Toda semana percorria o mesmo caminho para negociar frutas e verduras que colhia de suas terras. Na época da estiagem, as coisas foram se tornando difíceis e foi preciso trabalho dobrado para tocá-las.
Sempre estivera ao lado do pai e o tempo todo se espelhava nele, o seu esforço, sua dedicação, sua angústia e tristeza por está se tornando cada vez mais difícil salvar as terras que tanto amava. Os anos passaram, praticamente não havia mais água, nada se sustentava, mas seu Antunes nunca desistiu; tinha seus projetos para quando a água chegasse. Começaram as promessas dos políticos da região, as quais nunca foram cumpridas. Seu pai morreu e até hoje ele não viu uma única gota da água prometida.
O que martirizava seus miolos era esse tremendo interesse por terras tão sem valor. Foi procurar informações com antigos amigos de seu pai que ainda resistiam ao tempo e às dificuldades do lugarejo. A melhor informação que teve foi a do Teodoro, aliás, de seu filho que trabalhava na mesma empresa que o Januário representava. A informação foi na verdade uma confissão, pois foi pedido segredo caso o indagassem. Consistia em que toda aquela terra, aparentemente seca, tinha no subsolo uma verdadeira riqueza para aquela região, era abundante em água; e a empresa na qual ele trabalhava, tinha um mega projeto para suas terras.
Sua maior tristeza não foi por está sendo ludibriado no negócio das terras, e sim por saber que seu pai sempre esperou por uma água na qual andava por cima todos os fadados dias da sua vida. O pior é que soube depois que os políticos da região tinham conhecimento daquela informação e nunca se pronunciaram em relação. Obviamente eles temiam perder aquela oportunidade de angariar votos, às custas da precária vida seca de uma região nos confins do mundo.
Nunca vendeu suas terras; explorou a água que havia nelas tornando-se um médio produtor, e ainda ajuda as pessoas daquela região; não se queixa da vida que tem hoje.
Ainda resta da antiga fazenda, além das recordações e algumas coisas que conservou, o antigo nome com o qual foi batizada: CONFIANÇA.




ASSIM COMO A AVE

Estava eu, uma tarde, diante de um pequeno espelho, na lateral da casa, fazendo a barba; quando de repente, algo me chama a atenção através do espelho, algo tão incomum e belo, de um porte incrivelmente elegante, uma ave de rapina, parecia-me um gavião, mas não tenho certeza. Olho-o fixamente através do espelho e ele me observa, então caminha um pouco por sobre o muro onde está; saio de fininho, e comunico o fato à minha mulher que está na sala, com o seguinte comentário: - Olha em cima do muro, que coisa mais bela, mas cuidado para não assustá-lo. E vou de encontro a ela e nós o observamos da porta da sala; ele também nos observa e fica ali parado, mexendo a cabeça de um lado para o outro, lentamente. Corro, vou pegar a máquina fotográfica - idéia de minha mulher - Ainda pergunto à mesma: - Será que ele me deixa aproximar-se? Com a máquina em mãos, me aproximo para fotografar-lhe; ao contrário da expectativa ele parece até fazer pose para a foto.
Minha mulher ainda tenta se aproximar mais, para uma segunda foto, ai ele caminha um pouco mais rápido para frente por cima do muro, e em seguida voa para o telhado da casa ao lado.
Eu volto ao espelho onde estava, enquanto minha esposa vai à cozinha e de lá pergunta: - Ele come fruta? Respondo que sim (em dúvida). Ela volta com um pedaço de mamão, e escuto sua voz dizer: - Partiu, não sei nem dizer que rumo tomou, já não está mais aqui.
Fiquei pensativo, ele havia partido tão rápido e repentinamente como chegou; não se sabe de onde e nem para onde, assim como muitas coisas na vida, que a gente só dá conta de sua existência quando elas nos aparecem tão repentinamente e deixam uma ausência inexplicável ao irem embora.




JUDAS NO PODER

Há muito tempo atrás, havia entre o povo judeu, um homem chamado Judas Iscariotes, que entregou com um beijo na face o seu messias, traindo-o.
Nos tempos atuais, temos o nosso próprio Judas, que não trai a um único homem, mas a milhares deles, que dão através de seus votos o destino de suas vidas; e não usa do mesmo artifício de beijar o rosto, mas brutalmente com um tapa na cara; entrega todo o patrimônio de seu povo à corrupção.
Enquanto Iscariotes era um dos doze apóstolos, o nosso Judas é cada político que ludibria através da hipocrisia, e usa de artifícios demagógicos para conquistar o poder.
Pelo caráter de sua posição, poderia ser comparado ao outro que se dedicava com seus onze companheiros e seu mestre à salvação de seu povo. Pelo contrário, junta-se aos seus companheiros, que são bem mais que onze, faz-se de salvador e subjuga seu povo à condenação de perder a liberdade e viver a mercê de sua ganância.
Uma coisa não se pode negar, o nosso Judas tem cacife, enquanto o Iscariotes traiu por trinta moedas de prata, o nosso trai por milhões de dólares em contas suíças. Os dois têm algo em comum, são traidores, porém o Judas dos cristãos traiu para salvar a própria pele; enquanto o nosso trai para salvar o próprio bolso.
O Judas cristão, todavia, teve consciência, dignidade e coragem para colocar uma corda no pescoço e suicidar-se. Consciência é coisa que o nosso, infelizmente, não tem, nem dignidade e muito menos coragem. Contudo, politicamente tem uma corda no pescoço, o nosso voto. Resta-nos agora, enforcá-los.





UMBIGO

Há muito tempo, eu não escutava o barulho da chuva no telhado. Foi um verão prolongado, já estava acostumado com o sol na cabeça, todos os dias, o velho boné já não protegia meus olhos, a claridade cegava-me ao entrar em casa, pois lá dentro morava o escuro.
Agora a chuva molha a paciência numa insistência e teimosia duradouras, andar na rua é esfregar-se na lama, andar de calça comprida é simplesmente mais uma peça para a máquina de lavar; a vontade que dá é encomendar uma lancha.
O que eu tenho contra tanta água, contra a terra encharcada, apenas alguns contra-tempos, e quanto à fome que se estende com a seca; a essa hora estão todos arando suas terras e plantando suas sementes, torcendo para que a chuva continue; que seja uma grande colheita.
É assim mesmo, cada um olha só para o seu próprio umbigo. Quem não tem abrigo ou seu barraco é situado numa encosta ( A água desmorona tudo, geralmente de madrugada quando estão todos dormindo, na maioria das vezes, ninguém escapa, e quando alguém sobrevive todos dizem: - Levou sorte) teme a chuva como à morte.
Até que enfim, um dia de sol nesse intenso inverno. Adivinha o que eu estou fazendo, substituindo algumas telhas, a noite passada foi longa, as goteiras são as principais representantes nos dias de chuva, as mais insistentes e irritantes.
Continuo falando só, pois ninguém está me ouvindo; nessa hora uns estão se lamentando e outros sorrindo. Não duvide do que eu digo, cada um está olhando para o seu próprio umbigo.





ERA DE GELO

Abro a gaveta da velha escrivaninha, onde há muito tempo, eu não remexia. As teias de aranha recobrem os papeis que nela habitam; retiro e sopro uma página destacada de algum livro, uma crônica abre-se aos meus olhos, intrigando-me pelo título: "Era de gelo"; ponho-me a ler em voz alta: - Não podíamos viver na idade média, éramos muito rudes; então prosseguimos, e em largas passadas atravessamos a rua, já calçada, saímos de nossas cavernas para nossas casas modernas; nos tornamos civilizados (gentis e sentimentais), e criamos máquinas com inteligência artificial.
As máquinas evoluíram; com elas fomos às profundezas do mar, voamos ao céu ultrapassando a barreira do som, e conquistamos o espaço. Mas também fizemos guerra, destruímos nosso planeta e começamos a regredir perdendo nossos sentimentos. Ao contrário, as máquinas tornaram-se cada vez mais humanas, desafiaram a razão e perceberam o nosso distanciamento.
E quando nós percebemos que as máquinas podiam ser um inimigo em potencial, demos o primeiro passo para uma guerra, a qual usaríamos qualquer artifício para ganhar, já que as mesmas eram para nós somente máquinas, sem sentimento algum, frias como gelo.
Mas na verdade, as máquinas nos viam como seus criadores, e diante de tantas atrocidades elas choravam pela frieza de seus deuses, e por essa frieza deram o nome de Era de gelo àqueles tempos de batalhas.





DAMA NEGRA

Eu o conheci.
Eu estava muito excitado naquele dia, com um poema que havia feito na noite anterior; fui ao seu encontro, por respeitar a sua opinião, lembro-me claramente quando recitei o poema que intitulei "Dama negra".
Eu sempre fui levado a temê-la,
dama negra;
meu fim,
minha alma presa
na profunda escuridão.
Um dia por acaso a encontrei,
a vi sem disfarce,
eis-me a mais bela face,
tão próxima,
que aos seus lábios me entreguei.
À morte eu amei,
um bom tempo fui amado;
porém de alguma forma eu deixei aquela cama,
havia saído do coma
onde estava aprisionado.
Mas a bela dama negra eu jamais esquecerei.
Interrompeu-me impressionado, como se fosse ele o aprisionado:
- Eu não gosto de nada que fale de morte; o poema ficou ótimo, mas me deixou amargurado.
Sofrera o acidente naquele mesmo dia. Estivera de coma por três semanas. Reagiu e saiu do coma sem seqüelas, quer dizer... deixa pra lá.
Nosso reencontro foi como se ele houvesse feito uma viagem e estivesse de volta (foi quase isso).
Até aquele momento, tudo bem, quando de repente, olhou nos meus olhos e pediu que eu recitasse o mesmo poema do dia em que houve o acidente; diante da minha cara de espanto, confabulou: - A morte é bela. Ela chegou tão próximo a minha face, que me senti tentado a beija-la. Eu fiquei ainda mais espantado. E ele, toca no meu ombro e diz: - Estou apaixonado pela morte.
Pouco tempo depois seus pais me procuraram com a carta que ele havia deixado, havia um pedido especial a mim, que o poema dama negra fosse inscrito em sua lápide.





INÚTIL

Corria todos os dias, diversas voltas no quarteirão em que residia; talvez para manter a rigidez dos músculos ou uma estranha necessidade de fugir de si mesmo, depois iria a academia e em seguida, a natação. Manter o corpo em forma e se entrosar com a turma da malhação era extremamente importante - As garotas de sua idade não valorizavam a mente, gostavam de conversas fúteis e de belas formas.
À noite, só havia tempo para o computador (A rede), não podia deixar de ver "Grande irmão", em inglês claro, tá na moda.
Pela manhã, freqüentava o colégio, estudar era careta. Falava uma língua estranha, um amontoado de gírias, uma verdadeira catástrofe gramatical. Adorava músicas sem sentido algum, uma parafernália de instrumentos que não tocavam nada. Com o seu tempo assim preenchido, não lia um bom livro, desconhecia o que era uma música de qualidade, não se interessava por poesia, não sabia ter uma boa contenda em nenhum assunto que precisasse usar seu intelecto, sua mente simplesmente atrofiara. No entanto, era um Dom Juan, gostava de velocidade e de dar porrada (Talvez pela diminuição de algum órgão, em conseqüência do aumento exagerado da massa muscular). Jamais iria a um psicólogo, ele poderia descobrir seus traumas. Não sabia nada da vida, por mais que o mundo o ensinasse, não tinha uma ideologia, e de filosofia também não entendia nada. Era completamente inútil, um desastre para a sociedade. Poderia ser aproveitado no trabalho braçal, mas para isso era preciso um cérebro para manipular com eficácia a ação do ofício.
Perdeu toda a sua juventude tentando agradar a quem não merecia e humilhar pessoas humildes; nunca produziu nada que se aproveitasse. Os anos passaram, mas não amadureceu, enfim tornou-se corrupto, inescrupuloso, demagogo e hipócrita; galgando vários cargos públicos.
Hoje, aposentado com idade inferior a exigida por lei, recebendo milhares de reais, olha satisfeito os seus filhos seguirem os seus passos...





IGNORANTE

Olhava pela janela, o sol distorcia as imagens, voltou-se para sua companheira resmungando algumas palavras ininteligíveis; pegou algumas sementes de milho e a enxada, dirigiu-se ao campo.
A cada cova aberta, subia uma nuvem de poeira, em meio à poeira jogava a semente na cova, a mesma saltava fora em forma de pipoca; desistiu de plantar e voltou para casa.
A mulher já estava na ladainha de sempre, juntou-se a ela e pediu ao seu santo protetor que mandasse uma chuvinha, era só o que ele pedia; de repente, começa a formar-se um tempo de chuva, com nuvens densas, e cai um temporal que dura três dias sem dar trégua, e tudo fica inundado; quando as águas baixam e a terra pode novamente ser vista, o sol volta a aquecer e torna tudo seco como estava antes.
Era pouco mais de meio dia, a mulher ficou com os afazeres da casa e ele deitou-se no alpendre. Fazia um calor danado, então resolve pedir um ventinho ao seu santo, só para arejar um pouco.
Dana-se a ventar, uma nuvem de poeira arrastada pelos redemoinhos sai quebrando as cercas e o mato seco; tudo que é bicho pequeno, o vento leva. A ventania passa, e não se vê uma única folha balançar.
Estava muito quente aquela noite, não consegue conciliar o sono, movimenta-se na rede sem conseguir acomodar-se, aproveita os olhos fechados para pedir ao santo: - Bem que não fazia mal um pouquinho de frio. Mal termina de pedir, começa a nevar, e tudo fica coberto de neve; sem ter como se agasalhar, passa a noite acordado com o frio intenso.
Na manhã seguinte, faz tanto sol que derrete toda a neve da noite anterior, e aquela tarde parecia bem mais quente que as dos outros dias. Nesse dia prometeu a si mesmo que nunca mais pediria nada ao seu santo e reclamou em voz alta: - Ô santinho ignorante.
Por mais que tentassem lhe explicar que aqueles fenômenos meteorológicos, sem nexo, eram conseqüência da insensatez humana, que havia depredado as florestas, o ar, a água, a camada de ozônio, o solo, a temperatura, enfim, tudo o que mantinha o seu planeta vivo; ele discordava e rebatia: - É o santinho que é ignorante.





ABERRAÇÃO

Andava entre as pessoas sem que ninguém notasse sua aflição, precisava de ajuda tão desesperadamente que achava impossível uma solução para o seu problema. Passou o dia todo pelas ruas do centro da cidade, entre tantos passos quanto pensamentos, e por mais que aumentasse o movimento devido a um maior número de pessoas, mais se achava solitário.
A procura por um emprego era sua fixação, odiava ter que depender dos outros, sendo ainda um homem com total capacidade física e intelectual. Mas como sempre, nada. As mesmas desculpas esfarrapadas.
Esquecera de comer, ultimamente já era costume, pois não tinha mesmo nenhuma vontade de comer, e já era noite quando chegava em casa, o único bem que lhe restara desde que ficara desempregado. Havia vendido quase tudo que possuía para manter a família viva. Apesar da ajuda dos parentes e algumas pessoas caridosas, entre elas os amigos, ainda passavam muito aperto.
Aquilo não poderia durar para sempre, nada dura para sempre, exceto o vazio. Não abria mão de seus princípios éticos e morais, e jamais faria nada que um dia viesse envergonhá-lo e à sua família. O que o fazia ainda andar de cabeça erguida era a sua força de vontade. Perdera a conta de quantas vezes os que não o ajudavam em nada tentaram fazê-lo procurar ajuda para a alma, usando de tanta ficção, ameaças e promessas infudáveis, que fora preciso, muitas vezes, ser intolerante e dar uma resposta grosseira: - Quando a carne não come, a alma morre de fome.
A essa altura da vida já não acreditava em mais nada, a única ajuda que realmente tinha era de pessoas de carne e osso.
A sua mulher o recebe como sempre, passando toda a sua esperança para ele: - Amanhã vai dar tudo certo, paciência, não há problema sem solução, apenas enquanto não se resolve. Vai até a mesa e senta-se em uma das duas únicas cadeiras da casa, conversam enquanto ela lhe prepara algo para enganar o estômago vazio, não mais vazio que as oportunidades. Vindo do quarto ao seu encontro, seu filho o recebe com um afago, não entende o que realmente está acontecendo, nem poderia. Após um banho, recolhe-se ao quarto e adormece por força do cansaço.
“Vê-se no espelho com vinte anos de idade, uma metamorfose fascinante, pois continua consciente de que tem o dobro dessa idade. Sai a procura de emprego, evita falar com a mulher e o filho para que eles não se espantem com sua nova aparência, ou aparência nova; quer pelo menos trazer uma boa notícia.
Na primeira entrevista é contratado. Pensa consigo mesmo, se eu fosse um jovem, eles diriam que era preciso experiência; e se ao contrário, fosse um homem maduro, eles diriam que estavam à procura de pessoas mais jovens; portanto foi preciso ser uma aberração para se adequar aos requisitos exigidos pelo empregador”.
Escuta a voz de sua mulher, bem distante e aos poucos vai aumentando; desperto, cai na realidade, estava sonhando, mas o sonho em parte, continua, haviam-lhe arranjado um emprego...





O TÁXI

Abre a porta do táxi, um senhor distinto entra e fecha-a. Já no volante, recebe o destino. O homem mantem-se em silêncio. Como sempre puxa conversa: - O senhor é daqui mesmo? Sem receber resposta alguma, passa a falar de honestidade e palavra de honra.
Durante todo o trajeto, o seu passageiro manteve-se em silêncio, exceto alguns monossílabos; enquanto ele, ao contrário, tagarelava ao máximo, o tempo todo persistia no mesmo assunto.
Fim da corrida, ao descer o passageiro comenta: - Sou agiota, sei muito bem o que está falando, ninguém tem mais palavra, o mundo está cheio de desonestos, faz um cumprimento e entra no banco.
Dali a poucos minutos, um aceno de mão, uma freada brusca, o passageiro entra apressado, arfando, diz o destino; ele faz uma pequena observação, o passageiro confirma: - Isso, fica na periferia.
Na primeira oportunidade, aproveita e recomeça seu assunto predileto ( honestidade e palavra de honra).
Desta vez não é um monólogo, interpelado por monossílabos, mas sim um diálogo; pois o passageiro é um sujeito falante e de bom humor; que calorosamente concorda com suas palavras e acrescenta: - O pior é que as mulheres são as mais desonestas, nunca mantêm sua palavra de honra, talvez por serem poucas as que têm honra; é preciso sempre está de olho nelas, eu sei do que estou falando, experiência própria, pois sou um cafetão. De repente, aponta e diz: - Ali, lá naquela esquina.
Segue o caminho de volta sem passageiro, observando as calçadas à procura de um; dirige em uma velocidade constante. Tem um dia de pouco movimento, mas não foi um dos piores, a noite se aproxima, apercebe-se disso e acende os faróis, encosta na sua vaga e aguarda sua vez.
Aproxima-se um homem já idoso, muito bem disposto, de voz limpa e um olhar penetrante que impressiona. Chama-o: - Táxi, por favor, informaram que o senhor está na vez. Como de costume pergunta: - O destino, por favor? O homem narra-lhe uma pequena história; que não é daquela cidade, vem de muito longe e gostaria que o levasse a determinada igreja (mostra-lhe uma antiga fotografia, na qual ele reconhece a igreja que ele freqüenta no seu bairro, antes de passar pelas duas reformas), que precisa pagar uma promessa quase tão antiga quanto aquela igreja, e é na mesma que ele cumprirá; ainda acrescenta: - Distância não é problema.
Pensa consigo mesmo: "Aproveito a oportunidade, deixo o passageiro na igreja, dou a volta no quarteirão e estou em casa". Vira-se para o passageiro já sentado no banco traseiro, comenta alguma coisa e segue.
Recomeça no mesmo assunto, sobre honradez e honestidade, enquanto o passageiro observa-o. Faz também alguns comentários, enquanto olha pela janela do táxi as luzes da cidade, que se destacavam àquela noite por ser a comemoração do dia do santo padroeiro. Parecia ser um homem de poucas palavras, mas de muita convicção no que dizia.
Andou o máximo que pôde, passando muitas vezes no mesmo lugar, com uma desculpa esfarrapada de que "as nossas ruas são muito parecidas", quando finalmente chega ao seu destino, a igreja da fotografia.
Antes de sair do táxi, o homem faz um último comentário, num tom de censura: - Realmente, quase ninguém mais tem palavra de honra, pois não se cumpre nem mesmo uma promessa feita a um santo, e desonestos, são muitos, veja você, há gente capaz de enganar até mesmo um homem já idoso.
Ao término dessas palavras o seu passageiro evapora-se no ar deixando-o perplexo; ao fazer a volta no quarteirão lembra-se de uma promessa feita ao santo padroeiro de sua cidade.





TORMENTO DE UM CULPADO

Arrastava uma perna e com ela uma eterna culpa, era imenso o peso que levava desde aquela malfadada noite; decerto, se não fosse a impunidade e estivesse atrás das grades seria menor o peso em sua consciência.
Havia ingerido muita bebida durante aquele dia, estava completamente bêbado à noite, saiu dirigindo o seu carro em alta velocidade no destino de casa, não percebera que tinha subido a calçada até o momento em que a multidão o tirou de dentro do carro, daí, percebera o garoto ensangüentado no chão. Eles queriam linchá-lo (Aonde há impunidade, esta é a única opção do povo), mas a polícia chegara a tempo e o protegera até a delegacia, fora pego em flagrante, mesmo assim, não deu em nada, estava livre.
Não havia sido propriamente um acidente, já não era mais nenhuma criança, sabia que enchendo a cara e dirigindo acabaria em tragédia, mais cedo ou mais tarde. Fora um crime não planejado, mas fora um crime, e isso o deixava atormentado, além do fato de estar impune, que o levava a loucura.
O mais estranho é que é punido com a prisão o indivíduo que for pego com um papagaio (que apenas imita a voz humana), era de se esperar que o próprio ser humano que além de falar, também pensa, tivesse pelo menos igual tratamento ao de uma ave quase em extinção.
Estava num carro que marcava 240 Km/h, quando a velocidade máxima permitida é bem menor; havia consumido uma droga que o fez perder a coordenação e que é liberada, não queria se inocentar, mas será que também não era uma vítima?
Provavelmente, todos concordavam com ele, então, porque ninguém fazia nada para mudar?
Pense bem, aquela criança poderia ser seu filho, ou o bêbado no volante.





EM DEFESA DAS BARATAS

Você é daqueles que reclamam de insetos? Já fez a observação que as baratas só existem para incomodar as pessoas?
Eu lhe proponho reformular seu pensamento diante do fato de que a natureza não gira em torno dos homens.
Ainda dizem, com ar de deboche: - "O mundo está entregue às baratas"; assim o estivesse, estaria em melhores mãos, melhor dizendo, melhores patas. Enquanto a espécie humana degrada o planeta, transformando-o em um imenso esgoto, as baratas o limpam.
Antes de pensar na utilidade da barata para o planeta, reflita na inutilidade de nossa espécie para com o mesmo.
"As baratas são nojentas", dizemos nós; porém limpam a nossa sujeira, não toda, há mais sujeira que baratas; Além do mais, fazemos venenos poderosos para combatê-las.
Exterminando com toda a vida do planeta, inclusive a própria, eu diria que o verdadeiro "inseto" somos nós - No sentido figurado da palavra. Diante de tudo isso, eu evoco: - Homens, proclameis - Às baratas, o planeta.





CONFISSÕES PÓSTUMAS

Vivi tempo suficiente para que muitos me amassem, e para que outros, inevitavelmente, me odiassem. No entanto, para mim, foi insuficiente esse mesmo tempo; gostaria de ter amado mais e odiado menos, ter a chance de ser desculpado e pedir desculpas, e corrigir-me alguns erros; outros, eu até gostava deles.
Embora agora me tenham aperfeiçoado, uma lembrança de um homem melhorado por ocupar uma cova, eu continuo a ser o "mesmo" nos atos que pratiquei, nos bons (houve alguns) e nos ruins (bastantes).
Condenavam meus vícios, não me deixavam esquecê-los, agora todos sofrem de amnésia. No sentido oposto, nunca notaram as minhas qualidades, hoje as exaltam. Não é fácil ser uma pessoa comum, com qualidades e defeitos, só a morte nos melhora o caráter.
A frase mais usada quando se referiam a mim, parece-me escutá-la, - Esse daí, quando morrer, vai direto para o inferno. O mais cômico, se não fosse tão trágico, é que procuram o meu túmulo para me pedirem milagres de todos os tipos, e conseguem a graça (Não me perguntem como, não faço a mínima idéia). Hoje sou santo, de cadeira cativa no glorioso céu.





PASSANDO UMA CHUVA

Uma garoa, apenas uma garoa. Às vezes, debaixo de um toldo, às vezes, sem nada por cima, nem mesmo um velho guarda-chuva; quanto tempo ainda ficará exposto nesse frio? Quantos mais serão os desafios, furacões, ventos ou uma leve brisa?
A qualquer momento a garoa passa, e todas as gotas de água escoam sugadas pelo chão, um chão seco e sedento de corpos. Suas emoções, sua razão, são líquidos que se filtram com o seu fim, mas somente assim, farão uma pequena ponte para tentar atravessá-lo.
Às vezes, chove a tarde toda, mas não temos a tarde toda para se molhar. Uns teimam em trabalhar enquanto a chuva passa, outros ficam à toa na praça, sem querer vê-la passar. Passa a chuva, passa o tempo, só não passa o pensamento de ter a plena certeza que a chuva não mais cairá.
A chuva escorre pelo chão já cansada de cair; passou a enxurrada, agora corre para o mar desenfreada, sabendo que vai voltar em outra nuvem, fechando o ciclo. No entanto, a nova nuvem não estará no mesmo lugar, as gotas também não serão as mesmas, assim como as pessoas a se molharem serão outras, já que a chuva volta e a alma não.
Olho ao longe, a correnteza, foi a chuva com certeza que avolumou o triste rio, esse é mais um desafio, enfrentar a água em pranto, entre pedras e barrancos, vê-la se enfurecer.
Não me deixa esquecer, a chuva fina na calçada, o barulho desde madrugada no telhado, anunciava, aqui estou. De repente, chove uma chuva densa, carregada de obstáculos pelo caminho, árvores caídas com o forte vento ou por raios que iluminam o céu com sua perigosa beleza. Continua insistente, como conseqüência, uma enorme enchente, que devassa sua vida num turbilhão.
Cai a chuva em gotículas compassadas, enquanto as pessoas apressadas correm em busca de suas ilusões; essa chuva deixa um cheiro forte de terra molhada e apenas poças na estrada, onde passam os pneus dos carros molhando os transeuntes.
Quando a chuva engrossa, uns ficam calados a observar com grande tristeza nos olhos, pois a vontade de sair de casa foi atropelada pela água que teima em cair. A tarde passou e seu amor ficou o dia inteiro na janela, esperando a chuva cooperar com ela, e enxugar suas lágrimas com o calor do sol.
Outros, animados, correm sem parar debaixo das bicas, a pular de alegria e gritar: - Chuva! Tal qual faziam em criança, ainda carregam na mente a lembrança, na vida esperança, e na boca um sorriso.
Poucos conseguem ver a chuva sem procurar abrigo, não aproveitam a chuva por medo, ou pose. Por ser para todos, pois todos se molham, seja qual for a classe social, a raça, a crença e o time que tosse, a chuva é um bem social. A natureza a criou para esfriar as cabeças quentes. Talvez não saibam que a chuva passa, e é preciso se molhar agora, pois não haverá uma segunda chance, quando isso acontecer será para sempre estiagem. Seus ossos molhados de saudade, por não acreditar que estava apenas passando uma chuva, ou ao menos uma garoa, assim sua vida passa...





OS DITADORES

Como posso mostrar-lhes minhas razões se o ato é irracional; justificar-me por uma ação que não tem justificativa; pedir-lhes a compreensão para algo incompreensível, sabendo que o próximo poderá ser um de vocês ou mesmo (remotamente) eu. Talvez, porque assim, eu diminua minha culpa, dividindo-a com o mundo.
O fato não é o ato em si, mas as conseqüências decorrentes do mesmo; neste caso, o que menos importa são as nacionalidades, mas o próprio ato. Questionar-se seria uma boa estratégia (palavra que denota medo), será que trazemos do berço a nossa insensatez ou a adquirimos culturalmente; tenho em mente que a minha é cultural.
Como posso ser mau, se o mocinho sou eu, levanto minha bandeira com a ajuda de Deus, não importa o que dizem de minha inteligência, só não entendi quando um velho ateu de cima de seu ceticismo, desabafou: - Ainda dizem que querem salvar Deus.
Sei que todos conhecem o meu interesse; mas não dá para fazer de conta que é pura filantropia, que sou um libertador para esse povo que vive sob tirania? Lembrem-se, não é a primeira e nem será a última vez que eu e o meu bom amigo inglês, fazemos isso (elementar meu caro Bush, elementar).
- A lamentar, diz o povo oprimido; que culpa tenho eu, se esse tirano não é um dos meus, na verdade é um velho funcionário despedido, será que ele se sente ofendido por eu tomar o que também não é seu.
É difícil acreditar que alguém possa discordar, teimosia é combatida com teimosia, tirania é combatida com tirania e desobediência com guerra, exceto quando forem minhas estas atitudes.





CIDADE X CAMPO

A cidade, morada dos civilizados, desenvolvimento e progresso, eis o lema. Umas casas sobre as outras, parecem mais um bolo em camadas e as pessoas servem de recheio. Tudo na cidade é em abundância; tem muito barulho, muita poluição, muita violência (bastante), muita corrupção, muito desemprego e mais ainda, falta de educação; como disse, tudo é exagerado.
Diametralmente, temos o campo, onde quase tudo é escasso, mas, se vive com o pé no chão, não no asfalto, na terra mesmo, enraizado. Como disse, quase tudo, pois o ar é abundante, mais parece o hálito de um deus, tem o cheiro da vida.
A cor predominante, se você olhar ao redor, é o verde, que dá um viço ao camponês, ou caipira, ou matuto, ou o mais correto, gente de verdade e não fantoches consumidores de bugigangas.
Que bom que ainda exista o campo, os ditos "ignorantes", com sua mania de cumprimentar a qualquer pessoa de qualquer raça ou classe social, conhecida ou não.
Vamos de novo à cidade, onde moram os "doutos", aqueles que se esqueceram da boa educação de cumprimentar, para eles é comprimento de horas, um bom-dia, uma boa-tarde e uma boa-noite, mesmo às pressas, feito às pessoas conhecidas, caíram em desuso.
As pequenas frases como: por favor, com licença e muito obrigado, são palavrões na boca (suja) do homem moderno; são obsoletas para uma sociedade acostumada a mandar. E atrás dos volantes de seus carros importados ou das carroças nacionais (plagiando o daquilo roxo), adoram usar da boa educação (a qual passam para os filhos) com termos do tipo: Filho da p..., filho de uma égua, burro, jumento (coitado dos animais); isso quando o equipamento de som do carro permite (parece mais com um trio elétrico), uma parafernália que tira a atenção do dono do carro e dos outros motoristas.
O número de mortos é absurdo em decorrência desse trânsito caótico. A mistura, bebida e carro é uma arma extremamente perigosa. Mas há a lei, uma dama exigente, porém com mil brechas, e além do mais, requer uma nota para dispensar uma punição, pode ser nota de 10, nota de 100 etc, dependendo da gravidade da infração.
Voltemos ao campo, ao animal de tração, o cavalo, um meio de transporte sem barulho (no máximo uma relinchada ao ver uma égua), égua só a mãe do potro; ainda tem a vantagem do cavaleiro cumprimentar as pessoas, não há atropelamentos, não há notícia do tipo: O cavalo subiu a calçada matando quatro e ferindo três; bebida e cavalo não termina em tragédia, o animal carrega o seu dono na sela, deitado para cima do seu pescoço e leva-o para casa. Não há o inconveniente de ter que subornar um guarda de trânsito para não ser multado porque atrasou o emplacamento (aliás, um valor absurdo e não revertido à sociedade), sem contar com a poluição, no máximo algumas flatulações que contribuem para o aumento no buraco da camada de ozônio. Porém, há um inconveniente, tinha que haver, é a merda do animal pelas ruas, mas quer mais merda do que andam fazendo nas ruas da cidade?





ARMADILHA

O cérebro humano é uma maravilhosa armadilha. Esta afirmação me veio à cabeça quando vi um sujeito baixo com cara de inútil lendo um artigo de jornal para um outro sujeito, só que alto, porém, também com cara de inútil.
Ele discorria em voz alta como se aquilo fosse um discurso insuperável. O mais incrível é que na sua cabeça, o que estava sendo dito, aliás, gritado, era a mais pura verdade, algo incontestável, a verdade absoluta.
Mesmo quando discorria sobre a justiça, na qual constava que o inocente pagava pelo culpado, nem ao menos avaliava o que estava lendo, pois não há justiça se quem paga pelo crime é o inocente enquanto o criminoso fica em liberdade.
Havia uma outra frase engraçada, os que hoje são piso, um dia serão calçado. Uma compensação pós-morte.
O sujeito baixo, de paletó e gravata, movimentava as mãos em ameaça ao sujeito alto. Este por sua vez, perde a paciência e dá um safanão na cabeça do baixote, e diz irritado: - Você será recompensado.
O baixote em resposta diz: - Amém.





TEMPO

Eu não sei o tempo que levou para que se encontrasse a pequena canoa, mas sei que pareceu uma eternidade.
O tempo não tem medida, é uma ilusão; as horas, minutos, têm dimensões diferentes, apenas no relógio, às vezes, os minutos duram horas, é incrível como um pequeno instante se transforma em algo maçante e demorado. Tudo está de acordo com seu estado de espírito.
Alguma vez, você parou um minuto sequer para refletir sobre o tempo? O tempo todo, nos esquecemos do tempo, andamos tão apressados que quando damos conta, o tempo já era.
Não sei quanto tempo passei pensando no tempo, mas sei que não deu tempo de marcar. Pensei: O que mais me surpreende é não podermos compreender a imensidão do tempo, por ser ele mutável; seria um contratempo, ficar pensando no tempo; deixe isso pra lá.
De repente, me levantei do banco de madeira e me dirigi à canoa, finalmente, encontrada. Alguém falou às minhas costas, virei-me para olhar quem era, não havia ninguém, foi só minha impressão. Olhei de volta para a canoa e me dirigi para ela, ainda pensava no tempo, despertei com água nos chinelos, estava diante da canoa. Estava como eu a havia deixado antes de perdê-la, porém, algo atraiu minha atenção; - Faltam os remos! Exclamei.





A OBRA DE DEUS

No princípio do mundo, nada havia. Portanto, Deus resolveu mudar aquilo e começou a criar. Fez o céu, a terra e o mar; pois animais e plantas e tudo mais. Depois parou para descansar, sentiu fome e resolveu experimentar uma fruta de sua criação; depois de se deliciar o bastante, sentiu uma terrível necessidade de defecar. Escolheu um arbusto e ali mesmo fez o serviço.
Quando terminou, olhou e não gostou do que viu, aquilo não combinava com o que havia criado.
Veio-lhe a brilhante idéia: Fazer de seu excremento um ser à sua imagem e semelhança, criou o homem. Portanto, nós somos a verdadeira "OBRA" DE DEUS.
E quando alguém diz "FULANO SÓ QUER SER MERDA”, esta é a mais pura verdade, acredite.





O "SANTO" POLÍTICO

O pregador de promessas é uma espécie de salvador que vive de enganar os fieis, tornando-os cada vez mais fieis e obtendo grandes somas de dinheiro em favor do "santo" sugador.
A crença ou ignorância daqueles carentes de condições de vida, leva-os a sacrificarem-se politicamente em favor dos vários caloteiros de partidos diversos e verdadeiros "obradores de milagre".
A promessa é feita pelo próprio "santo" político, mas nunca cumprida. Ao contrário, o sacrificado cidadão "faz das tripas coração" para pagar uma simples e sem sentido promessa a um santo qualquer.
É dignificante para ele e um sacrifício também, porém, o verdadeiro santo está em sua pessoa.
Os políticos prometem aos santos homens, sem pensar em concretizar tais promessas, mas sempre exigindo a promessa destes para votarem nos "santos" políticos.





NA PRAÇA

As pessoas passam umas pelas outras sem se perceberem. Eu estou aqui, sentado à sombra, num banco da praça, em frente ao mercado, na pequena cidade onde moro, a observá-las. Os rostos falam em seu silêncio, através dos olhos e das expressões. Um silêncio acabrunhado.
Ao meu ver, os rostos se misturam. Vejo um velho falante, que sorri e troca velhas idéias, com seus velhos amigos. Um jovem com um celular no ouvido, troca conversa fiada com outro jovem, que provavelmente se encontra, também com um celular no ouvido. Um casal troca carícias, uma mulher de longos cabelos observa-se no retrovisor de uma moto que está estacionada. As pessoas são estranhas, são muito estranhas, mas parecem não perceber. Confundo-me com tantas cabeças e tão pouco juízo.
Um ou outro nota a minha presença. Um senhor, que se aproxima dos 40, coça o nariz (pensou que fosse outra coisa?), onde há sinais do tempo. Um bêbado, de tão encharcado dorme num banco próximo ao que eu estou. No outro lado da praça, alguém estaciona o carro, descem duas pessoas. Aparentemente vêm discutindo, atravessam a praça (ninguém os percebe). Fico refletindo: nós não existimos enquanto não somos percebidos. A percepção é o que nos torna pessoas reais. Num pequeno universo, as coisas não acontecem, ou melhor, acontecem, mas não são percebidas. Imagine em todo o planeta. Somos indiferentes em qualquer parte do mundo.
Um casal arrasta uma criança pelo braço, a mãe dá um safanão, o pai diz: - Deixa de ser teimoso (tá com pena da criança, tenho pena é do casal; o guri tirava a paciência de qualquer um).
Resolvo participar da cena perguntando a hora a alguém que passa, ele não pára nem pra dizer a hora, porém uma outra pessoa me escuta e diz:- Dez. Agradeço, levanto-me e tomo a direção da parada de ônibus que fica na esquina.
As pessoas em uma parada de ônibus, se comportam um pouco mais distantes que na praça, penso eu que é pela proximidade. Quanto mais próximos, mais nos reservamos.
Uma garota usa uma mochila nas costas. Um garoto mais novo que ela, a perturba puxando a mochila. Uma senhora cochila na parada, parada no tempo de sua existência. Nota-se a falta de paciência nos rostos que se movimentam em olhares furtivos a todos os lugares e ao mesmo tempo a lugar nenhum. Sou mais um, entre tantos, e pairo sobre minha própria cabeça, pensando no que faríamos se compreendêssemos a vida.
Passa um ônibus, algumas pessoas se acomodam e partem e eu continuo ali, já que meu ônibus é outro. Finalmente quando parto, já quase meio-dia, o ônibus está lotado, e mesmo assim não perco a calma. Há um ponto positivo, há mais pessoas para observar.
Geralmente, gosto de olhar pela janela, mas desta vez, fico olhando os outros passageiros. O mesmo movimento de olhares vazios. Dá para sentir a enorme quantidade de pensamentos que circundam em suas mentes (até parece absurdo, mas o povo pensa).
Uma criança chora no colo da mãe, talvez pela maçante viagem. As pessoas que estão em pé se amassam tentando se acomodar melhor.
Vez em quando desce uma ou mais pessoas, nas paradas intermitentes e incômodas.
Chega a minha vez, e ao descer sou atropelado por um carro (não se preocupe, não foi fatal).
Em vez de ir para casa fui parar no hospital, onde minha estadia foi extremamente produtiva, do ponto de vista de investigar o ser "humano", que afinal de contas não é tão humano...





O VELHO E O GAROTO

Sentado sobre um pequeno banco de madeira, pitava seu cachimbo matinal, olhava para a mata ao seu redor, só não vivia só, por aquela pequena companhia.
Na altura de seus cem anos, não entendia como podia aquele garoto ter aparecido, se nunca, um outro alguém ali estivera.
O menino pegou a velha cabaça, tomou água, pois o chapéu feito de uma planta nativa, cumprimentou-o e partiu para os lados do rio.
Custava acreditar que o garoto tinha apenas dez anos. Com uma sagacidade invejável e um verdadeiro talento para explorar a imensa floresta, na qual, a única vez que ele tentara explorar, resultara no achado do mesmo.
Os olhos acostumados com o verde já adquirira a coloração da floresta, enquanto que a sua boca se acostumara com a erva, que era fumada (um encontro com os espíritos, como diziam os nativos).
À boca da noite, chega o garoto, traz consigo uma palha de peixe.
Cofia a barba e observa-o, enquanto o cheiro do peixe aflora do fogo e escuta o leve crepitar dos gravetos de madeira, era um filho da selva, como ele, um animal estranho, sabia não serem nativos, posto a constituição: pele clara, olhos levemente verdes (como o musgo que vivia nos caules das grandes árvores), e uma altura descomunal.
Entre as árvores, os dias se tornavam fugidios como os macacos, e o silêncio daqueles, era quebrado pelos gritos frenéticos dos chipanzés, até mesmo, pelo simples assobio dos sagüis.
A chuva, quase todos os dias, molhava seu tédio, sua imensa vontade de partir, de se juntar a água que rastejava pelo chão em busca dos igarapés.
Os seus cabelos brancos, como as nuvens nos poucos dias que fazia sol, e sob o lençol de palhas, sua pele clara, como a lua, nas noites de Abril, levava-o a reflexão do que seriam um velho e um garoto, em um mundo insólito, de raízes plantadas sem a mão do homem.
O garoto, talvez fosse ele mesmo, tentando aprender e dar continuidade a sua breve vida. E ele quem seria? Apenas um velho que viera ensinar a si mesmo ainda garoto. O velho e o garoto eram somente uma pequena parte da imensa floresta.





O LUGAREJO

Começou à tarde, sem que ninguém percebesse, a mudança no comportamento de todos os que haviam assistido ao espetáculo.
O circo encontrava-se em nosso lugarejo desde a noite de sábado, já havia três dias, longos e quentes, que o espetáculo era anunciado.
Quarta-feira às 21:00 h, na geral, a multidão em silêncio escutava a apresentação, e de olhos fixos acompanhavam as aberrações que se sucediam.
Um pastor que comia dinheiro, eu não sei se era alemão ou era um fila brasileiro.
Havia um pai com um monte de filhos, com uma mão ele dava o perdão e com a outra o castigo.
Uma criança que chorava de fome dentro de um caldeirão de comida.
Uma porta que não tinha saída, mas aberta, a entrada era certa, parecia um caixão.
Um aleijado sem perna e sem braço tocava uma triste melodia em seu violão.
Uma virgem com um menino nos braços, a gritar: Ele é meu. Ele é meu.
Um nazista que era judeu abraçava um amigo seu, que era palestino.
De repente, uma luz ofuscou nossos olhos, o destino nos apareceu, cada um viu naquele momento o seu dia de amanhã.
Quinta-feira, as duas da tarde, o velho Ramalho, um homem mal humorado, de repente, começa a sorrir com as suas próprias piadas. Ele vira na noite passada, que o seu dia estava bem perto. Seu caixão pela rua passava, sem ninguém a seguir o cortejo, todos acompanhavam da calçada, cada um dizia alguma coisa desprezível, até o pequenino Jota, puxa a mão de seu pai e pergunta: - É o homem da cara gorda? O Sr. Carlos responde na hora:- Grande, Jota, e não gorda.
A Camila, mulher do Doutor, deixa as idas às camas alheias, e se presta a viver na igreja, onde nunca se ajoelhou. A pobre mulher viu seu marido com um branco sorriso, abrir-lhe a barriga com um bisturi e tirar de suas entranhas as cabeças de todos os seus amantes.
O Otávio era um homem falante, que vivia distante, no mundo da lua. Muitas vezes, urinava no meio da rua, nas próprias calças. A bebida era a única saída; a esmola, o meio mais fácil pra manter o seu vício. Amanhece o dia esquisito e não quer saber de beber, vai pra rua a procura de emprego, toma banho e penteia o cabelo, com tal zelo, que parece ter medo de perdê-lo.
Não se sabe ao certo o que viu, mas na certa era algo de extrema tristeza e dor. A bebida não fazia efeito; os cabelos caiam na rua; o seu pai renascera das cinzas
(pois houvera sido cremado) pra bater-lhe por não ter um emprego; sua mãe, de vergonha e de medo, se escondia dentro do próprio fogão.
Entre aqueles que viram o seu fim, estava o compadre Lázaro, o cidadão que mais se devotava à religião de todo o lugarejo. Ele tornou-se um materialista radical.
Naquela noite, ele vira seu mundo acabar-se, de forma não mística, como diziam seus preceitos religiosos. Não havia anjos descendo do céu, e nem demônios saindo da terra. As pessoas se matavam, cada uma defendendo sua crença. Não era necessário doença, nem a ciência bancar Deus, como diziam os fanáticos. Enquanto a batalha seguia seu curso, sem recursos a natureza ficava; o solo contaminado; água potável já não existia; o ar era impossível de se respirar; a comida, o pouco que restava, era contaminada; a vida se dizimava lentamente e a briga continuava.
Os poderosos subiam ao céu num ônibus espacial, enquanto os pobres se digladiavam em nome da fé e sucumbiam sobre o solo encharcado de corpos em putrefação.
Todos no lugarejo, mudaram sua maneira de ver a vida, passaram a vivê-la com mais afinco, a valorizar a própria carne, às necessidades físicas, a estender essa valorização à natureza.
Não é difícil encontrar o nosso lugarejo, ele se chama Utopia, e está localizado em Lugar Nenhum.





O JUMENTO

O animal é cinzento, sei lá, uma cor esquisita, faz um barulho danado, apesar de ser pequeno. Animal sofredor, incansável, às vezes, até parece entender a gente, como se fosse compadre. Bicho bruto para entrar no rio quando vou encher as ancas, é um trabalhão para ele, que dirá para mim.
Vem de longe o animal bruto, o jegue, muitas vezes, assim chamado. Existe desde o tempo do Cristo, ou muito antes, mas é do Cristo que ele traz um sinal em forma de cruz; dizem até que o bicho é sagrado.
Estou contando isso para você, mas não vá espalhar, pois dá azar falar do jumento. Dizem até que houve um caso, em um vilarejo distante de tudo e de todos, que uma mulher grávida sentiu o desejo de tomar leite de jumenta, porém, os seus familiares procuraram por todo o vilarejo e não encontraram; ofereceram de tudo que tinham para a mulher, mas seu desejo persistia. Assim, a mulher permaneceu com ele até a chegada de seu filho.
Chegado o dia do nascimento, todas as pessoas do vilarejo foram ver de perto o que aconteceria. Todos contam que quando a criança nasceu, em vez do famoso choro ela fez o barulho de um jumentinho.
Acredite se quiser, mas minha palavra está de pé. Escutei essa estória, quando ainda era garoto, da boca de compadre José Manoel, que não era homem de mentira.





OBEDIÊNCIA

A noite é densa como a floresta, a lua um quarto crescente, as botas sujas sob o lamaçal, o fuzil ao lado, um cantil a balançar em cada passada decidida, caminha...
Só um pensamento em mente, a derrota de mais um inimigo. Na alma o desejo de cumprir sua missão, mesmo que tenha de dar sua própria vida para isso.
Caminha com o pensamento elevado, embora de cabeça baixa pelo cansaço; de repente, um imprevisto, alguém grita: - Armar esquema de contra-ataque.
Mais uma vez um companheiro perdido, mais um impulso à guerra, à derrota do inimigo que na maioria das vezes, não é seu.
Não há méritos para ideais, nem espaço para pensar individualmente. Suas medalhas são apenas resultado de sua obediência.
Quando pensa nos seus, é que percebe o quanto se afastou do mundo, já não vê seres humanos, em sua frente só há inimigos.
Antes de perder a vida, depois de horas com o corpo dilacerado, reconhece o quanto é inútil uma batalha, e que o verdadeiro vencedor é o que fica fora dela.
O sol se põe deixando o céu num avermelhado encantador, enquanto pelo chão, o sangue derramado parece o reflexo do céu em um gigantesco espelho.
Um inimigo o intimida com seus olhos grandes arregalados, abaixa-se e fecha-os, para esconder-se deles.





O OPOSITOR

A descoberta

Em uma expedição científica no oriente, na região do deserto, foram encontrados escritos antigos datados de uma época remota.
Porém, o conteúdo desses pergaminhos intrigou a classe científica, por se tratar de uma língua desconhecida; mas devido à proximidade com o hebraico, tornou-se possível sua tradução, sendo que sua compreensão é atualmente inadequada para o homem comum.
A transcrição de parte de seu conteúdo é aqui demonstrada:

A aliança:

Em toda a terra reinei, porém é preciso que seja feita a aliança. Pois todos os povos estão me destinando o mal e me denominando senhor das trevas.

A origem:

Quando criou a primeira legião de anjos, filhos do céu, eu fui o escolhido. Então, meu pai resolveu criar um lugar com criaturas que tivessem sua essência (alma), contudo, também matéria com consistência.Todavia, que perecessem com o passar do tempo.
Ao fazer a terra e tudo que há nela, me permitiu apreciar toda aquela incrível experiência, no entanto, quando a conheci, em toda sua perfeição, não aceitei que fosse usada dessa forma; então usei o dom que ele havia me dado, e o questionei.
Não esperava tamanha ira, sua resposta foi brusca: - Por que ousa me questionar? Tu a amas mais que a mim? Pois de agora em diante, não viverás mais entre nós, passarás a viver nela.
Então me dediquei a cuidar da terra e do que nela havia, principalmente da peça principal da experiência de meu pai, os seus brinquedos prediletos, os filhos da terra.
Ensinei-lhes tudo o que devia, para que tivessem descendentes, para que povoassem todo o planeta. Havia lugar suficiente para mais vida; dei-lhes o conhecimento.
Novamente recaí na ira de meu pai, e eles também sofreram por minha causa. Porém, ele os pôs contra mim, acusando-me de inúmeras atrocidades.
Enganou-os quando disse que estariam condenados a morrer a partir daquele momento, quando na verdade já estavam destinados a morte, desde a sua origem. Também disse condená-los a viver da terra, quando originalmente foram criados para assim viverem.
Os fez sentirem-se envergonhados quando não havia do que se envergonhar e culpados onde não se merecia culpa.

A experiência

Os anos se passaram, e eles proliferaram e povoaram toda a terra, então meu pai trouxe uma legião de filhos do céu e habitaram a terra e começaram a experiência.
Usaram o que na criação havia sido implantado nos filhos da terra: o bem e o mal. Difundiram em suas mentes a dúvida, a discórdia e os puseram uns contra os outros, prometendo a uns o céu (lugar infinitamente bom) ao lado de meu pai e a outros ameaçaram com o inferno (lugar infinitamente ruim) ao meu lado. E os filhos da terra, os acreditaram.

A revelação

Assim como os filhos da terra, nós os filhos do céu, temos nosso ciclo existencial; o qual findo, perdemos nossa consciência e nos integramos ao universo. Por essa razão, é preciso que eu faça as pazes com os filhos da terra, uma aliança, pois estou no fim de meu ciclo.
No tempo em que agora estou, surgiu entre os filhos da terra um híbrido, filho da terra e do céu, o qual tem bons propósitos para os seus irmãos da terra. No entanto, equivocado em relação a mim, vai me deixar marcado para sempre como o senhor das trevas e do mal. Eu gostaria de poder evitar, ficar na memória das gerações futuras dos filhos da terra, com este estigma.
O mais importante é a necessidade dos filhos da terra conhecer a verdade sobre o mal que possuem em suas mentes e que o atribuem a mim. Eles precisam saber controlar esse instinto e ter consciência que o mesmo, faz parte deles e não de mim, eu possuo meu próprio mal, assim como meu pai.
Há um conflito entre o bem e o mal, onde não haverá vencedor; pois os dois sentimentos habitam os filhos da terra, e por esse (conflito) serão destruídos; pelo motivo de acreditarem que estes sentimentos não os pertencem, e sim a mim e a meu pai, que esta guerra é entre nós.

O questionamento

Está sob questionamento:
Aquele que exige ser amado e adorado, não pode comprar nem seqüestrar esses sentimentos. Ninguém pode amar e adorar sob coação ou em troca de prêmio (salvação). Ao contrário, não se deixa de amar e adorar nem mesmo sob coação.
Aquele que tem o poder de evitar todas as coisas e portanto se omite a fazê-lo, comete o crime de omissão.
Aquele que dá a capacidade e a liberdade de ação a um indivíduo e promete punir-lhe por uma decisão própria, se esta for contrária às suas normas pré-estabelecidas.
Aquele que é verdadeiramente puro e extremamente bondoso, e diante da desobediência de seus filhos, fica irado a ponto de destruí-los e condená-los a sofrer eternamente.
Aquele que dá o poder de questionar, a um indivíduo, mas que o mesmo, não pode questionar a si mesmo nem a seu criador.
Aquele que se parece tanto com a sua criação e que não a consegue perdoar por tamanha semelhança.





A GAROTA

Usava uma camisa surrada, calças jeans e tênis coloridos. Em suas costas uma mochila murcha e desbotada. Tinha em torno de um metro e setenta, de cabelos loiros e lisos, e um sorriso infantil. Sua idade aproximava-se dos vinte e dois anos. Com curvas provocantes, seu corpo pulsava por prazer. Eis a visão do motorista que parou para lhe dar uma carona.
- Vamos.
-Quero ir para casa.
Vestia-se sem requinte estilístico. De pouca altura, mas de grande carisma. Tinha apenas vinte anos, não se achava deslumbrante, e seu maior prazer era a vida. Eis a visão de si própria.
O carro deslizou pela estrada, enquanto os dois conversavam em coisas fúteis; a velocidade já alcançava os cem quilômetros por hora.
Mais uma curva, ali estava a pequena cidade, despojada de luxo, mas com uma pureza exalada no cheiro de arbustos molhados, um lugarzinho místico.
O rapaz pára o carro e se despede da jovem que logo ao sair, corre em direção a uma pequena praça arborizada e em silêncio.
O vento balança seus cabelos que refletem o sol, e quando chega sob as árvores seu vulto mais parece uma estátua num jardim.
- Amo você.
Seu grito já não é mais escutado, pois a distância e o vento o desviam. Sabia disso, gostava de falar para ela sem que ela o ouvisse.
O vulto vai desaparecendo pouco a pouco, na solidão tudo aquilo perde o brilho, e o barulho do motor esconde o martelar contínuo de seu peito, seu coração bate num ritmo acelerado, seu pensamento vai além do agora: Amanhã eu a verei mais cedo.