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O herege III

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O Diabo, um moleque de recado.
Quer manter-me ao seu lado no inferno.
Errado ou certo, tudo será condenado.
Deus ou Diabo, pecado eterno.

O Diabo quer se apropriar de minha alma.
Isso me acalma, por ser o menos cruel.
Sei que no céu tudo se acaba.
Não serei nada, um robô de aluguel.

Como fora planejado, eu estava ali no céu.
Deus, sem seu véu de bondade, em seu trono,
O mais orgulhoso dono de um labirinto de fel.
Sua boca tem o mel em palavras de engano.

Eles tentam descobrir onde estão os fugitivos,
Os rebeldes inimigos e que sabem a verdade.
Porém, minha amizade os mantém escondidos
E perdidos dessa cruel divindade.

Deus num gesto de amizade, tenta um engodo.
Enquanto o outro, o Diabo, me observa.
Sinto falta da erva que no chão da terra, colho.
No meu olho, uma lágrima escorrega.

Eis que o anjo é capturado e nos entrega.
Pois na certa, este foi torturado.
Deus ou o Diabo, nenhum presta.
Põem-me de volta a terra, sem cuidados.

Quando sou lançado a terra,
Deus já espera que não seja escutado.
Disso, o Diabo se encarrega.
Falo de maneira séria e sou mal interpretado.

Deus continua enganando a humanidade.
E na verdade, ninguém quer me escutar.
Tento falar, e já em vasta idade,
Contra a minha vontade, resolvem me trancar.

No manicômio, sou maltratado.
Deus e o Diabo aparecem pra falar.
Querem humilhar esse velho condenado.
No meu estado, eu não tento nem lutar.

Raramente vejo, um ou outro dos perdidos
Que por algum motivo, do ataque escapou.
Um deles me contou o ocorrido:
Todos foram redimidos ao julgo do Senhor.

Deus não honra compromisso.
Já sei disso, porém, ninguém acredita.
Deixa pista, quando omisso.
Apesar disso, o fiel hesita.

Deus com o Athéos, acordou
Um favor: Que a ninguém torturaria.
Dentro ria; e mandou o seu feitor.
O Diabo esnobou no que sabia.

Todos foram torturados na alegria,
Tudo que pior havia, a mando do Senhor.
O terror que jamais alguém faria.
O Diabo assim agia por rancor.

O refúgio foi explodido por magia.
Deus sabia como provocar pavor.
Seu feitor, o Diabo, merecia
Cada alma dividida com o Senhor.

Quando devolvido ao meu corpo,
Acordei-me sendo posto numa maca.
Um amigo me tirava a corda do pescoço
E um outro, o socorro chamava.

Desmaiei novamente, acordei no hospital.
Estava mal, não conseguia nem falar.
Eu queria contar uma história real,
Onde somente o mal vai dominar.

No entanto, ninguém quer acreditar,
Nem mesmo escutar o meu aviso.
“- Deixa disso, tente se acalmar.”
Tentava me enganar um amigo.


A dúvida

“- São seqüelas do trauma sofrido.”
Assim, fico atormentado e louco.
Pouco a pouco, de mim mesmo duvido.
Todavia, insisto que não sou louco.

Em algum tempo, me dão alta.
Sinto falta da minha família.
Eu sabia que tudo acabara.
No entanto, mantendo a calma, eu superaria.

Ainda tentei alertar as pessoas.
Porém, todas, não me acreditavam.
Condenavam minhas palavras. Tolas,
Mesmo boas, não sabiam onde pisavam.

Eu insisto em que aproveitem a vida.
Não há problema ou dívida que se compare
À morte, que é um talhe, uma ferida,
Uma alma mantida na maldade.

Por que a humanidade não consegue enxergar?
Deus não quer ajudar, está claro.
O Diabo serve para negar
Todo o mal que há no Deus louvado.

No tempo que fiquei internado,
Nunca vi um aleijado andar
Nem vi brotar um membro amputado.
O deus louvado não queria ajudar.

Vi uma mãe que pedia ajuda:
“- Por favor, cura o meu filho amado.”
O Deus safado se omite na ajuda
E põe a culpa para o servo Diabo.

Pois quem criou o ser infectado?
O resultado antecipado do fato ocorrido
Era conhecido pelo malvado,
Se tudo é determinado pelo Bendito.

Quando uma vítima escapa,
Diz-se que foi salva pelo Bendito.
Mas duvido, posto não ser evitada
A causa que o deixou comprometido.

Se uma folha que cai tem permissão do Senhor,
Um criança que despencou de uma escada
Teria a queda evitada por compaixão e amor.
Porém, ninguém evitou. Omissão e falta.

Há crianças passando fome.
Culpar o homem é racional.
Se a conseqüência é fatal e a morte some,
Tomam do homem e dizem:- Deus é o tal.

E quando alguém faz o mal e se dá bem,
Eis que também é omissão não punir.
Não queira se iludir, quando alguém
Faz só o bem e é punido aqui?

Por que deixar-se cegar pela fé?
A vida é o que é, basta olhar.
Por que procura evitar que também
A razão tem o seu lugar?

Deus nem precisa usar o seu poder.
O homem crê sem questionar.
Ele quer se enganar para não vê
Que dele é o poder de amar.

Deus a brincar com seus destinos,
Usa caminhos de dor e medo,
Guarda em segredos seus desatinos,
Joga dadinhos com os seus dedos.

Eu mesmo escrevo a minha história.
Minha memória é a verdade.
Na realidade, não busco glória,
Só quero deixa-la agora, pode ser tarde.

Preso entre grades, no silêncio,
Eu tenho tempo para escrever.
E se você agora está lendo
O meu depoimento, pude vencer.

Saiba que apesar de todo o poder,
O seu ser é inalcançável,
Inabalável é o seu querer.
Porém, morrer é inevitável.

Contudo, viva o mais que puder.
Toda sua fé, ponha na vida.
Cabeça erguida pro que der e vier.
O que Deus quer é que você o sirva,

É que acredite estar salvo.
Você é o alvo, não há salvação.
A morte é um não ao bem mais caro.
Mantenha-se calmo, com o pé-no-chão.

Não é blasfêmia, eu vi de perto.
Um céu eterno em bondade, é ilusão.
Deus e o Diabo em união, estão decerto,
Mantendo o inferno em dupla mão.

Às vezes, ainda vejo Deus e o Diabo.
Sou humilhado, isolado como um louco.
Ambos fazem pouco, quando sou visitado
Por um velho aleijado e mouco.

Esse velho é um amigo de verdade.
Apesar de sua idade, não me falta.
Tem com a flauta, uma enorme habilidade.
Tenho saudade do nosso tempo de farra.

Eis que um dia ele chega com uma carta
Assinada por seu nome como neto.
Era um jovem muito esperto, o que mandara.
Eis que o principal da carta, ponho em verso:


A carta

“Senhor Sólio, sou um jovem inventivo.
O motivo é que não creio em Deus.
Amo os meus entes queridos.
Atendo a pedidos de um, que é amigo seu.

Meu avô, um dia, me surpreendeu,
Quando leu parte de sua história.
Chegou a hora, os méritos serão seus
Como também serão seus, o martírio e a derrota.

Muitos irão lhe condenar, a grande maioria.
Quem diria, que a tamanha inteligência
Fosse negada uma existência mais digna?
Eis a vida, causa e conseqüência.

Sua história terá o título escolhido,
Merecido, O herege, ótima escolha.
Não foi à toa, acredito.
Não duvido que sua história é boa.”

Ficou acertado uma data,
Quando seria enviada uma pessoa
De sua escolha, dizia também a carta.
Assim, eu esperava à toa.

Eis que na data marcada,
Um camarada vem falar em suspensão.
“-Houve manifestação de gente alta.”
Essas palavras me doeram o coração.



Não espere que a verdade
Seja a realidade que vivemos.
O que temos é vontade
Que jamais seja verdade o que tememos.

Meu velho amigo, ainda me visita.
Minha vista me atrapalha um pouco.
Estou ficando louco com esta vida.
Sem saída, vai me deixando aos poucos.

Enquanto eu escrevo, um deles se aproxima.
O outro, lá de cima manda um beijo.
Eu vejo que a vida termina.
Nessa última linha o desespero...





Fim







Posfácio

Quarenta anos antes de ser publicada a obra O herege, Sólio falece no manicômio SOB OS OLHOS DE DEUS, na manhã de terça-feira, dia 04 de outubro de 1966. Morreu pedindo ao seu velho amigo que não o deixassem levar. Em gritos, pede ao mesmo que convença ao seu neto, publicar O herege.
Suas últimas palavras foram: “O mundo merece saber a verdade; mesmo que ela seja tão dantesca.”
O conteúdo deste livro foi encontrado num velho depósito, entre fichas de pacientes do referido manicômio. A última estrofe estava quase ilegível.

João Felinto Neto
Maio de 2006