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O herege I

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Prefácio

Não acreditar em Deus, não significa que todos os valores morais e éticos caiam por terra; que o bem e o mal nada signifiquem, ao contrário, o apego à vida e o respeito mútuo aumentam pela própria condição humana de uma vida passageira e finita.
A consciência de que apenas a matéria prevalece em outras formas é o ânimo e a esperança de que de algum modo somos eternos.
Os laços sociais seriam reforçados e as afeições enaltecidas, pois na hora do desespero, diante do desamparo, procuraríamos nosso semelhante.
Não precisamos de Deus para exaltar o que temos de bom e nem tampouco do Diabo para amainar o que temos de mau.
Precisamos aprender a lidar com forças naturais e racionais que nos norteiam para tornar o mundo mais justo, com respeito mútuo, sem intolerância e prezando ao próximo; sabendo que como indivíduo, o nosso tempo é relativamente curto; que teremos um fim e que jamais haverá volta.
Com certeza, Deus é apenas um entrave para que o homem aprenda a respeitar o ambiente, pois o seu desleixo com esse mundo é a sua ilusão com um céu de harmonia e paz. Façamos de nosso planeta vivo, um paraíso, no qual Deus seja apenas uma lenda como Papai-noel, um velhinho de barba que presenteia as crianças, e não um ser irado que nos condena ao eterno martírio por ultrapassarmos condições impostas e que nos oferece a salvação desde que o adoremos.
Por incrível que pareça o mundo com toda a sua evolução ainda é uma criança que acredita em seres e lugares mitológico-religiosos, Deus, Diabo, anjos, céu, inferno etc.
Quando iremos crescer e resolver nossos conflitos existenciais racionalmente?
Quando iremos envelhecer e aceitarmos que por tudo o que passamos valeu a pena e que não é preciso ser eterno para ser feliz e completo?
Nenhum céu, oferecerá uma realidade tão maravilhosa como a vida.
Nenhum inferno será tão impiedoso quanto o martírio religioso, a milhares de anos, cominado à mente humana.


João Felinto Neto
Julho de 2005





Tomo I

Entre a cruz e a espada

Em meus lábios o Diabo põe a língua.
Ele me ensina o pecado, me devassa.
Ele me arrasta a seguir sua doutrina
E de cima, esparge uma nuvem de fumaça.

Chega Deus, em minha face, dá um tapa.
Descarrega sua raiva em sua mão.
Ainda tem a ilusão que minha alma
Pode ser elevada à salvação.

E promete no seu céu, a eternidade.
Sem vontade, sem delícia, sem prazer,
Sem poder, sem martírio, só bondade;
Sem vaidade, sem razão e sem porquê.

O Diabo então si ri, em gargalhada.
“Ofereces quase nada ao desgraçado.
De que vale do outro lado, uma vida eternizada
Sem sentir nada do que há desse lado?”

Põe-se Deus a falar em harmonia;
Na alegria em poder se elevar;
Não pecar, venerar sua energia.
“Se tardia, poderás se lamentar.”

- Deus, que há? Eu não disse uma palavra.
Tua raiva poderá me condenar.
O Diabo não veio me cobrar, só ensina a minha alma
A ter calma. Minha sina, talvez seja então pecar.

“Calma Sólio, dê uma chance ao Senhor.
Ele tem muito amor para te oferecer.
Um viver repleto de pudor,
Sem calor, sem vontade e sem querer.”

“O que tu, Diabo, podes oferecer?
O prazer além da imaginação;
A razão e a ciência para que possam me esquecer;
A indecência do querer e o fogo da paixão?”

Dessa vez, quem interfere sou eu.
- Basta Deus, já não queres me salvar?
Vou falar, nada disso o Diabo ofereceu.
Disse: “Eu apenas posso te ensinar.”

O Diabo não consegue controlar
Uma risada, faz soar e me faz ensurdecer.
“Esse herege vai te fazer ao céu voltar
E deixá-lo para lá, pros abutres comer.”

“Persevero, arrepende-te de tudo.
Surdo, mudo e sem ter opinião,
Serás então, o bendito e puro fruto
A renovar-se, oculto, dentro do meu coração.”

“Assim não!” O Diabo toma a frente.
“Nada sentes pela alma desse herege.
O que queres é um seguidor demente,
Tão doente que a geena não merece.”

“Alto lá. Como ousa assim falar.
Foste expulso de meu lar, isso não conta?
Desaponta por quereres me superar.
Teu padecer será por fazer tal afronta.”

O Diabo prontifica-se em responder.
“O que tentaste fazer não deu em nada.
Esta casa é meu reino de poder.
Cada ser é uma alma desgarrada.”

“O herege é um exemplo do que digo.
Um fatídico acidente fez nascer sua revolta.
Ante a porta era apenas um mendigo.
Foi tão rico que imputou o pescoço à corda.”

- Ouça agora o que tenho a dizer.
Escolher é uma dádiva da vida.
Não me diga o que devo ou não fazer.
Posso ver que entre vós só há intriga.

- Sou apenas um joguete em vossas mãos.
Empuxão, bem ou mal é o que destina.
Eu julgava que era minha, a decisão.
Ilusão, uma miragem à retina.

Deus ensina com estranha mansidão.
“Meu perdão, tenha fé que ao mundo falta.
Seja a palha que reveste meu colchão,
A oração que ao meu coração aplaca.”

O Diabo ao contrário se exalta.
“Condiscípulo, que falta, o que queres insinuar?
Que ao tomar uma decisão errada
Só terias uma chance, camarada, a de acertar?”

Deus:“Não soubeste de teus dois senhores?
Um ou outro, ou seus valores, terias tu que escolher.
As delícias de viver no céu e seus louvores
Ou os temores da alma no inferno a gemer.”

“Sempre queres ao meu reino difamar.
Queres julgar aquilo que não podes ser.
Quem vai crer que o céu é o lugar
Ideal para ficar uma alma a revivescer.”

Tardiamente então eu pude ver
O meu ser entre a cruz e a espada.
Não estava propenso a ceder.
Deus ou Diabo, subir ou descer a escada?

Encravada estava em minha memória,
A história de uma vida agitada.
Foi amarga com minha triste derrota
Que comporta as pessoas que eu amava.

Fecho os olhos e relembro o começo,
O desejo de ter uma grande família.
Não haveria regresso ao que vejo,
Nem ensejo de voltar àqueles dias.


O autocídio

Era um homem de vida sensata.
Tinha vida cara, tudo que alguém pode ter.
Não me cabia dizer que era dádiva.
Quando via, calava, alguém sem comer.

Meu pecado, as mulheres, seria.
Nos talheres, diria, requinte e tradição.
Minha mão, o poder que cabia,
Não deixava vazia a minha razão.

Minha prole tinha vida cara.
Eram moças prendadas e valentes varões.
Entre dons e herança bastarda,
Mesa farta e grandes decisões.

Conheci quase todo o planeta.
De luneta olhava para o céu.
Meu papel era o dom da caneta.
Minha letra, a de um menestrel.

Mas como se emborca a ampulheta,
Foi estreita a mão que a emborcou
E me imputou uma terrível desfeita.
Tal desfeita, para sempre marcou.

Foi a bordo de luxuoso iate.
A família e parte da tripulação.
A emoção desconhece o desgaste.
Desgaste do homem que perde a razão.

Poucos anos, já nada restava.
Mendigava, o extinto patrão.
Sua mão se abria e fechava
Quando nela botava, alguém, um tostão.

Perdi tudo que a vida me dera.
Numa vela perdi toda a razão.
Em minha mão, nada mais então coubera.
Já não era dono da situação.

Eu me tornei um bêbado inveterado,
Um escravo da miséria e do rancor,
Um homem sem amor, um condenado,
Sempre arrastado ao fundo em que chegou.

Acreditando minha alma, estar presa
Na correnteza de um corpo azarado.
Pobre coitado, jogado na sarjeta,
A mantinha coesa e a arrastava ao pecado.

Ponho uma corda numa árvore que faz sombra.
Não me assombra qual será o resultado.
O meu pecado traria uma chama
Que tornaria santa, minha alma do outro lado.

Sinto o nó cada vez mais apertado.
Um simples laço, minha existência arranca.
Sinto a garganta, e os olhos ejetados.
Um breve estalo, perco toda esperança.

Agora estou entre Deus e o Diabo.
Não há culpado, a decisão foi minha.
O pé caminha na direção do passo
E o acaso, deixou minha alma sozinha.

O Diabo insiste em novamente falar.
“O que há, de minha parte nada tive haver.”
- É verdade o que estás a dizer ou queres me enganar?
Quero ouvir o que será que Deus tem a dizer.

“Sólio, não levo tristeza a ninguém,
Como também não trago nenhuma alegria.
Você duvida, a dúvida faz bem.
Porém, apenas durante a vida.”

“Fique ao meu lado, herege infiel.
Eu sou o mel que adoça a flor.
Sou o amor que mantém terra e céu
Longe do fel, do inferno e da dor.”

“Que Diabos!” O Diabo exclama.
“Sou a chama que acende a paixão,
A vazão do prazer sobre a cama,
A derrama da eterna ilusão.”

Qual dos dois é o prato que mais pesa,
O da reza ou do intenso prazer?
Qual vai ser a escolha, errada ou certa?
É a terra que eu quero escolher.


A visita ao céu

Deus impõe-se. “Vou mostrar o que te espera.”
E assim me leva a um belíssimo lugar
Onde há um tapete só de ervas
E uma esfera que não pára de girar.

Uma luz tão intensa que irradia
Harmonia e o mais puro amor.
Não há dor, não há tédio, não há vida.
Tudo é só energia, sem calor.

Orações e louvores eu ouvia.
Tantas almas vazias de emoção.
Comunhão entre todas que havia
E seguiam a mesma direção.

Não havia discórdia ou intriga.
Não poderia, não havia discussão.
Toda alma sabia o que queria,
Concordavam com a mesma condição.

“Vê herege, a imensidão da paz.
Quer ainda mais do que te oferto.
Vê de perto, todos eles são iguais.
Não há ais, são como robôs de ferro.”

“Não há culpa, nem arrependimento,
Não há tempo que mensure os seus dias.
São vazias as mentes em discernimento.
Treinamento há nas cabeças sadias.”

“Se acaso houver alguma falha
E a alma levante a menor dúvida,
Antes de ser expulsa, é recondicionada
Ao dom da palavra, ser passível de culpa.”

Interrompo ao meu guia universal.
- Se não há mal, nem conflito de interesses;
Esses seres com asas de metal,
Legião tão leal, e o Diabo era um deles?

“Mas os anjos não são como os mortais.
Suas almas jamais tiveram um corpo,
Nem um rosto, nem atos imorais.
Porém Satanás foi sempre um anjo torto.”

“Tudo começou com um imenso vazio.
Foi um desafio a vinda do nada.
Minha carapaça era escuridão e frio,
O corpo esguio em forma de larva.”

“Minhas asas rompem a escuridão.
Dão vazão a energia acumulada.
Emanada minha luz na amplidão
Surge a razão, a extensão do nada.”

“Dei origem ao universo numa enorme explosão.
Só então, criei uma legião de anjos.
Entre tantos, um chegou à perfeição.
Sua ambição me levou a outros planos.”

“Seu poder tinha a dimensão de sua pretensão.
Disse não, e o expulsei com alguns outros,
Eram poucos, mas eram minha criação.
Não havia prisão, os deixei soltos.”

“Resolvi habitar quantos planetas
Minhas veias pudessem irrigar.
Olhe lá, a esfera que encandeia,
Pus, alheia, para deles me lembrar.”

“Pus um caldo primitivo, uma sopa.
Foi à toa que a vida veio brotar.
Tanto lar e não havia uma pessoa.
Mas um dia, à toa, vi a evolução brilhar.”

“Não só em um, mas em muitos deles.
Muitos seres em extrema evolução.
A emoção me tocou somente n’aqueles
Seres que surgiram almas na razão.”

“O azul, a Terra, me tomou toda a atenção.
Vi surgir da evolução de uma primata, minha Eva.
Depois dela, vi surgir o meu Adão.
Foi em vão, o Diabo quis a Terra.”

“Nesse instante começa a nossa guerra,
E a terra dividi em bem e mal.
No final valeria ou não a espera.
É eterna a espera do final.”




“Houve uma civilização mais avançada
Que chegara do espaço sideral.
Foi fatal sua invenção mistificada
Que falava a propósito do sobrenatural.”

“Com o tempo foram poucos os contatos;
Só boatos de alguma exposição.
Distorção de um mundo de letrados
Enganados pela própria erudição.”

“Houve um tempo, fiz um acordo com o Diabo.
Resultado de uma inseminação,
Por uma mão humana tive o filho batizado,
Seu reinado tem enorme duração.”

“O acordo consistia em um teste.
Foi a peste do Diabo quem ganhou.
O meu filho não salvou, nem mesmo a pele.
Em matéria de teste, esse me calejou.”

“Essa foi a única vez que interferi.
Daí foi que decidi que pelo fim aguardaria.
Eu teria assim almas servis,
Prisioneiras vis, em minha hierarquia.”

“Quando vivos, tuas almas são livres.
Teus deslizes, as põe sobre minhas asas
Ou nas malhas de redes invisíveis.
Insensíveis, os anjos, pelo universo, as espalha.”

“Vamos voltar, que o Diabo está se ardendo.
Assim sendo, observe o que verás,
Onde estás e o que fores percebendo;
Vá dizendo, eu desejo ouvir mais.”

- Eu estou em um túnel de vento
Onde o tempo não parece passar.
No lugar, de momento a momento,
Sinto um ameno e adventício pulsar.

- Vejo nuvens. É estranho o enorme silêncio.
É extenso e soberbo, o colorido que há.
Ao girar, muitas vezes, qual moinho de vento,
Não entendo como pude voltar.

O Diabo esperava já um tanto zangado.
Do meu lado, Deus estava de pé.
Minha falta de fé me manteve calado.
O danado do Diabo me pergunta: “- O que é?”

Respondi:- Não é nada. E me mantive calado.
O Diabo insatisfeito com as poucas palavras,
Destilava um veneno há tempos guardado.
Com o seu mal-olhado, me fitava e rosnava.

De repente, acha graça e de mim se aproxima.
Se anima ao dar-me uma sugestão.
“E então, a vez agora é minha.
Não pra cima, o inferno é pro chão.”


A visita ao inferno

O Diabo Põe a mão no meu ombro.
Eu me assombro com tamanha pressão.
Sua visão me deixou mais tristonho,
E com ânimo me arrasta ao chão.

Numa fenda enorme, o chão se abre.
Um detalhe: mistura de sons, uma confusão,
Um enorme vulcão, uma grande cidade,
Parecia ser tarde, quase na escuridão.

O Diabo falou: “ Tudo é intensidade.
Como na jovem idade o efeito da droga.
Hora, aqui não existe, nem qualquer amizade.
A vontade, aqui, é a única moda.”

“Imagine o prazer de um orgasmo
Elevado ao mais alto grau, pela eternidade.
Na verdade o desejo se torna ilimitado
E o resultado é a contínua vontade.”

“Todo o conhecimento é aqui repassado
Aos condenados que buscam explicação.
A visão que terão é desde o vácuo
Ao Deus tão louvado, à razão.”

“Então Sólio, o que me diz, estás pasmo.
O teu estado seria de admiração
Ou então teu estado, ao contrário,
Seria resultado de tua decepção?”

Eu respondo, enfim, à observação do Diabo.
- Estou fadado a dizer-te que sim.
Mas enfim, na balança ainda pesa o outro lado.
Resultado, gostaria de um tempo para mim.

Eis que a fenda que havia se fechado
Num estalo recomeça a se abrir.
Sem sentir já estou do outro lado
Entre Deus e o Diabo, a sorrir.

Ante Deus pus-me então a repetir.
Ao ouvir minha recente petição...
“Então seu desejo é sozinho refletir.
Vais seguir o caminho da extrema solidão.”

- Gostaria de poder pela terra andar,
Repensar até tomar uma decisão.
Se estiver em minha mão, quero acertar.
Ao voltar eu direi qual a minha opção.

- Pediria aos senhores o meu corpo de volta.
Não importa qual será o resultado.
O Diabo e Deus levam então uma prosa.
Eis a glória, eu teria meu espírito implantado.

“Não será tua imagem tão boa quanto antes.
Nos primeiros instantes, vais sentir-se estranho.
Não serás como antanho, sendo os dias distantes.
Reimplante de alma, não estava em meus planos.”




Tomo II

A ressurreição

O meu corpo é da árvore retirado.
É untado o pescoço com um pouco de barro.
Que bizarro, pela boca de Deus meu espírito é sugado
E soprado em meu corpo, pelo nariz. Escarro!

Com um beijo do Diabo eu enfim ressuscito.
Não é nada bonito meu retorno dos mortos.
Meus esforços me deixaram esquisito.
Eu insisto, já não tenho remorsos.

Observo à volta, não é o mesmo lugar.
Nada há, só areia, é um infenso deserto.
É decerto um lugar que permite pensar.
Ao olhar, qual dos dois me levou tão a sério?

Um mistério, o que eu iria à frente encontrar.
Nesse ermo lugar tudo seria incerto.
“Fique esperto,” eu escuto o Diabo falar.
“Ao voltar terá que optar entre o céu e o inferno.”

- Não o vejo, mas posso escutá-lo falar.
Quis gritar, mas antes Deus interveio.
“Esse é o único meio para te acompanhar
E guiar os teus passos o caminho inteiro.”

Olho em frente, sigo sem rumo certo,
Ainda incerto do que iria encontrar.
Caminhar e manter-me sempre esperto.
Um decrépito peregrino, vejo se aproximar.


O peregrino

- Aonde vais apressado assim peregrino?
Que destino o leva a andar sem parar?
Não há lar que o faça parar no caminho
Nem carinho que o faça ficar.

“Acompanha o andar desse velho e escuta.
Minha culpa me arrasta a peregrinação,
Condição submissa a uma esquecida jura
Que perdura até minha libertação.”

Sigo os passos apressados do decrépito ancião.
Que aflição o levou a fazer tal loucura?
Uma censura desmedida ao próprio coração.
Vida em vão, sem se dar o perdão, sem desculpa.

“Vê se serve a lição.” Escuto a voz de Deus.
“O que levou os seus, por acaso, foi o mar.
É perder ou ganhar. D’aquela vez quem venceu
Não fui eu, nem o Diabo, foi o mar.”

Continuo a jornada com modesta companhia.
Quase que não comia, uma pequena porção.
Sou cristão. Minha fé me nutre. Dizia.
Inocente seguia para a eterna prisão.

Quando noite, o velho quase não dormia.
Que magia o mantinha acordado?
O cansaço seu corpo não percebia.
Não vivia, já estava condenado.

Ao seu lado, seus conselhos eu ouvia.
Quem diria, pareciam um desabafo.
Calejado, não sabia o que fazia.
E se perdia, carregando o seu fardo.

Diz o Diabo: “Com quem ele se parece?
Troque a prece por muitos goles de álcool.
Eis no palco o ator que à vida esquece.
Se te aborrece, esta é a lição do Diabo.”

- Eu pedi para ficar só e refletir.
Mas sumir e continuar a me amolar
É zombar do que tenho a decidir;
Fiquem aí e me deixem pensar.

“Herege, nós decidimos te mostrar
Que ficar é impossível para ti.
Vais ter que prosseguir e escutar.
O que irá, muitas vezes, se repetir.”

Sinto o sol que começa a me aquecer.
Tento ver onde o peregrino está.
“Venha cá”. Eu escuto ele dizer.
“Venha ver. Desta vez eu vou ficar.”

O segui sem querer lhe perguntar.
Ao adentrar na cidade que escolheu,
Disse adeus sem ao menos acenar.
Vejo o mar. Para o porto sigo eu.


O mar

Um navio, que ao vê-lo me pareceu
Que nem Deus e o Diabo iriam embarcar.
Vou sossegar, foi o raciocínio meu.
Disse adeus, sem ninguém para acenar.

Ao zarpar um arrepio me estremeceu.
Aconteceu que eu comecei a relembrar
Que foi no mar que perdi o que era meu.
Ele venceu e pela terceira vez o iria enfrentar.

À distância, a cidade, pouco a pouco, desapareceu.
Então me bateu uma vontade de andar no convés.
“Quem tu és?” De repente alguém apareceu.
Disse eu: - Diz primeiro quem és.

“Sou apenas um simples marujo que embarca.
Minha casa, sempre foi e será o alto mar.
Embarcar para mim é uma palavra mágica.
É simpática tua maneira de falar.”

- Deixe-me apresentar, companheiro de embarcação.
Tenho uma missão de enorme pesar.
Estou a viajar como uma assombração.
Aperte minha mão e vamos prosar.

“Quem tu és? Eu insisto em saber.”
- Lá no alto poder sou chamado de herege.
Assim emerge esse estranho ser
Que começa a compreender para que serve.

“Estranheza herege não existe no mar.
É o lugar onde se tem de tudo.
Sou marujo, posso te assegurar,
O que vou te contar, até juro.”

- Acredito que sou um viandante sortudo.
Sobretudo por gostar de histórias.
Boas memórias tornam um homem astuto.
Meu nome é Sólio, estarei mudo ante a tua retórica.

“Nessa mesma hora, o sol a ir embora,
Uma senhora, com o olhar muito triste,
Não desiste de ficar aqui fora;
Muito embora, o marido insistisse.”

“Ele desce ao seu camarote.
Eis que a morte parece avisar.
Pois o mar arremessa num golpe,
Uma onda tão forte, que a tira de lá.”

“Sua ausência não é percebida
Até a bendita volta de seu marido
Que aturdido, o seu nome grita
E agita o braço estendido.”

“Um marujo corre ao seu encontro,
Ao ponto onde a senhora estava.
Ele achava que o senhor de branco,
Já em pranto, algum mal passava.”

“Vi seu corpo a boiar na água.
Assim fala o marido aflito.
Por favor meu amigo, vê se a salva.
Tenha calma, eu vou fazer isso.”

“Uma bóia por ele é lançada,
Amarrada a uma grande corda.
Nada importa; joga-se na água.
Mergulhava procurando a senhora.”

“Foram muitas tentativas frustradas.
Suas braçadas iam se reduzindo.
Num pequeno redemoinho, lá estava.
Com a força renovada vai sorrindo.”

“Um bote salva-vidas fora lançado
Ao mar agitado, por seus companheiros.
O marujo, num golpe ligeiro, é arrastado,
Depois de ter lançado a senhora aos marinheiros.”

“Num esforço, o marujo à bóia agarra.
Que içada por outro companheiro,
Ainda chega primeiro que a resgatada.
Retirada do bote estreito.”

“Os primeiros-socorros são feitos.
Entre os peitos ela é pressionada.
Sua boca é soprada em um beijo;
O desejo era apenas vê-la salva.”

“O marido já estava desesperado.
Ao seu lado mantém-se de joelhos.
Sem receio pede ao Deus tão louvado
Que a mantenha ao seu lado, é o seu desejo.”

“Nós jamais voltaremos ao mar,
Ao salvar minha eterna senhora.
Nessa hora ele a ver vomitar
E começar a chorar pela volta.”

“Em voz alta, fez essa promessa
Ante a amada desperta do torpor.
Seu amor é o que mais interessa.
Tão depressa alivia a sua dor.”

“Muitos anos depois, ouvi falar
Que naquele lugar um iate afundou.
E à senhora levou para sempre, o mar.
O marido, a escapar, nunca se recuperou.”

“A história é verídica. Eu era o marujo.
Um jovem rabujo começando a navegar
Que estava a caminhar para ser um adulto.
E jamais ser sabujo, seria um homem do mar.”

Entre lágrimas agradeço ao marujo.
Vê-se tudo, o marido era eu.
Ele então entendeu que houve descuido.
“Absurdo esquecer-se do que prometeu.”

Nesse instante, ouço Deus: “Não me culpe herege;
Essa prece jamais poderia ser atendida.
Aquela vida foi salva por um homem que rege
E deve ao ofício, salvar qualquer vida.”

“Quanto ao afundamento do iate;
Foi em parte por falha humana.
Coincidência tamanha, foi a proximidade
Da localidade da antiga façanha.”

“Pela coincidência, não foi meu pecado.”
Ouço o diabo falando com pressa.
“Posto ser essa, obra do acaso;
O mesmo cenário, uma outra tragédia.”

O marujo também comovido me diz:
“És um homem infeliz meu amigo.”
- Eu te digo uma coisa, a qual aprendi:
Eu vi que a fé é um verdadeiro castigo.

“Vamos seguir cativos a nossa jornada,
Meu camarada, a grandes tormentos.
Teus momentos de estrada,
Minha estada de ventos.”

Tantas outras histórias me foram contadas;
Por demais arrastadas pelo meu pensamento.
Todas elas contendo passagens bizarras.
Eu, atento, a escutá-las em profundo silêncio.


O continente

Chega o dia em que o navio atraca
Por pesadas amarras a um distante cais.
“Aonde vais?” Pergunta-me o marujo com calma.
- Do fundo da alma, à procura de paz.

“Prossigamos amigo, não parta.
Essa marca pode o mar apagar.”
- Caminhar sobre largas passadas.
Poderei novas marcas alcançar.

“Sendo assim, vá. Quem sabe um dia nos revemos.
Eu com remos a singrar águas mansas.
Tu me alcanças com passos mais lentos.
Pensamentos sobre histórias tantas.”

Finalmente piso em sólida terra.
Ninguém à espera. Longe de meu lar.
Que ermo lugar, quanta gente séria.
Velas abertas de um barco a pescar.

Adentro em uma pousada bem hospitaleira.
Temo ser estrangeira a língua falada.
Uma gente amada, de estranhas maneiras.
Sendo à minha estreita, a língua usada.

Pergunto: - Que terra é essa na qual piso?
Recebo um aviso que ela é eterna.
“Encerra mistério, mas é um bom abrigo.
Bem-vindo amigo, eis a nossa terra.”

“Encontrarás nela a paz que procuras.
A certa altura é enorme o vento.
Não passa o tempo, não há sepulturas.
São puras, as almas no templo.”

É soberbo esse estranho continente.
Um nascente de encher os olhos.
Tão simplório é o povo presente;
Também crentes no mundo dos mortos.

Eu contrato um guia, um nativo.
O motivo, uma lenda antiga
De uma aldeia perdida a qual não tinha mito.
Sobre isso, um ancião explica.

“Esse povo habitava as colinas.
As ruínas ainda estão lá,
Próximo há algumas minas.
Mais acima conseguirás alcançar.”

“Por incrível que pareça essa lenda,
Não há quem entenda o que está no cume.
É costume que se evite aquela fenda
E não se estenda até a Pedra do perfume.”

“É no topo. De lá se avista o mundo.
Mais ao fundo se encontra a pedra.
Parece eterna. Tem inscrições num túmulo.
Túmulo ou portal para outra era.”

“Vá e veja tu mesmo o que te espera.
Não há feras, nem vestígio da aldeia.
Mas me creia, há o mistério da pedra
Que estréia um estranho perfume que semeia.”

Poucos dias alcancei com o guia,
As antigas ruínas e as minas.
Ele me ensina qual a trilha
Que eu devia seguir mais acima.

“Desse ponto tua pessoa vai sozinha.”
Diz ainda, o guia amedrontado:
“A algo de errado com essa colina.
Lá em cima é um lugar encantado.”

Dou adeus e parto sem olhar para trás.
Ando mais que um velho andarilho.
Não há empecilho que me faça voltar atrás,
Ainda mais pelo que já havia vencido.

Finalmente eu encontro a fenda.
Estupenda a emoção de encontrá-la.
Uma rara magia me acena.
Não há quem entenda como ultrapassá-la.

Depois de algum tempo, minha busca termina.
Então lá de cima, observo a vila embaixo.
Embaixo, por maior que seja, vê-se pequenina.
É linda a vista aqui do alto.


A aldeia

O perfume exalado leva-me até a pedra.
É bela, de um estranho formato.
De um lado na borda externa
Há diversas escritas e símbolos cruzados.

Sentado à sombra, encosto-me na pedra.
E dela emana o estranho perfume.
Tal lume, o sol se projeta.
Minha meta era chegar ao cume.

Qual porta secreta a pedra se abre.
Através de grade eu sou arrastado.
Levado colina abaixo sem escape.
Ao chegar a base eu sou libertado.

Ainda assustado com o ocorrido;
Num lugar perdido, por mim encontrado,
Diz um velho barbado, com estranho sorriso,
“Seja bem-vindo filho, tu és esperado.”

Eu me surpreendo por não ter mais escutado
A Deus ou ao Diabo há algum tempo.
Ao vento, em tal profundeza, é vetado.
Eu saio com cuidado, eis meu desempenho.

Assim, sou levado à lendária aldeia.
Numa esteira, há uma jovem de rosto afilado.
Sou posto ao seu lado enquanto ela ceia.
Serve-se ligeira do esquisito cardápio.

- Como assim, um filho esperado?
Questionado, um outro jovem me esclarece:
“És tu o herege que não esquece o passado.
És um homem letrado, sem prece.”

“Não existe nenhum mistério.
Falo sério;fomos antes, avisados.
Todos os cuidados deram certo.
Mesmo esperto, tu foste enganado.”

Alguém falou sobre mim. Quem seria?
Deus não poderia e nem o Diabo.
Esse povo é levado pela filosofia.
Mitologia, não viria ao caso.

“Não estranhe; o marujo nos avisou por rádio.
Mas meu caro, te pregamos uma peça.
Porém, o que interessa é ter nos encontrado.
Mantenha-se sentado e à espera.”

Demorou-se algum tempo, a jovem esbelta.
Acabou-se a espera. Ela senta-se à minha frente.
“O meu povo é diferente. Mas, é da terra.
Nessa caverna, todo misticismo é ausente.”

- Teu povo não tem nenhuma crendice.
Para ele é tolice, não há existência de Deus.
Sendo assim, é ateu o povo que aqui reside,
Pois me explique o que aconteceu.


A filosofia

“O meu povo busca explicação para tudo.
Para tudo sempre há uma explicação.
A questão é que não contamos com o absurdo
De usar o recurso da imaginação.”

“Há coisas que estão à mão.
Outras não, apenas no pensamento.
Um momento, aquelas durarão.
Estas então, um eterno tempo.”

“Não se pode compreender o todo.
Posto, ser composto por enésimas partes.
Como frases dispersas sob um vidro fosco,
Aos poucos, desvendamos esse enigma, destarte.”

“Se fragmentarmos as partes do todo,
Ainda será pouco o que descobriremos.
Assim sendo, seremos tolos,
Todos, pelo que já sabemos.”

“Somos apenas pequenos fragmentos.
Não podemos explicar nem mesmo qual a razão
De sermos apenas fração do que queremos.
Seres pequenos que desejam a imensidão.”

“Um ser que então, à nossa imagem e semelhança,
fosse a pujança de um universo de tamanha proporção
que nossa razão não consegue concebê-lo,
é sê-lo, uma grande criação de nossa imaginação.”

“Desmascaramos as fantasias de nossos antepassados.
Fomos levados a explicar com fundamentos.
Se não os temos, não tentamos burlá-los.
Assim meu caro, sem explicá-los, os deixemos.”

“Haverá um tempo, em que juntando os pedaços,
Teremos laços que desvendarão alguns enigmas.
Acabar-se-ão os dias, e muitos desses pedaços
Serão eternos obstáculos à nossa sabedoria.”

- Parece até, que eu pertenço ao teu povo.
O que dizes, não é novo para mim.
Pensei assim. Mas como fazer que todos,
Mesmo poucos, pensassem igual a mim?

“A dificuldade é fazer alguém parar pra pensar.
Duvidar de tão segura verdade.
Não ser covarde, não ter medo de enfrentar
O que não se pode explicar. Agir com naturalidade.”

“Não que todos tenham que pensar igual.
Alguns, mal conseguirão entender.
Mostrá-los que viver é essencial,
Afinal, não há outra coisa a fazer.”

“O que interessa é o que temos agora.
Nada importa depois da nossa extinção.
Está em nossas mãos, a descendência nossa.
Uma terra nova que a base seja a razão.”


As vozes do passado

“Essa, quando morrer, vai dar trabalho igual a ti
para decidir entre Deus e o Diabo.”
Ouço esse comentário de um amigo que vi parti.
Eu começo a ouvir vozes do passado.

Devido ao meu silêncio, a jovem comanda
A uma dama, que me leve aos meus aposentos.
Em meus pensamentos, percebo a chama
Que nos acompanha, caverna adentro.

Sentado numa pedra extremamente polida,
Eu ouvia outra voz do meu passado.
Um chamado num sussurro, que eu sabia
Que não seria deste lado.

“Nós andamos pela Terra como almas
encantadas e jamais pelos vivos percebidas.
Nossas vozes são ouvidas por tua alma.
Pela tua falsa e estranha vida.”

- Queres dizer que eu posso ficar na Terra.
Sendo nessa forma, sem ser escutado.
Um enforcado que só pode ouvir conversas,
Sem em nenhuma delas ter participado?

-Mas nada me disseram, nem Deus e nem o Diabo.
Que safados! Aonde andam que já não os escuto?
Estou confuso. Vós sabeis o que passa do outro lado
Ou estai enganados com esses dois verdugos?

“Algumas vezes, um dos nossos se infiltra no inferno.
Pois no céu, o mão-de-ferro não as deixa pensar.
Sendo assim, as almas de lá são robôs de ferro,
Vestidos de ternos num eterno orar.”

“Nós sabemos que tu foste ludibriado
Por Deus e pelo Diabo, em tua volta.
Tua revolta, os deixou desconfiados.
Então ambos, combinados, te observam a toda hora.”

“Essa história de por culpa só no acaso
É um velho hábito dos dois poderosos,
Orgulhosos com seu antigo pacto.
De fato são dois mentirosos.”

“Vai haver uma reunião no salão celestial.
Anjos bons, anjos maus lá estarão;
Apertando-se as mãos, o bem e o mal.
Afinal essa intriga é uma grande invenção.”

- Quer dizer que eles não são inimigos,
E os castigos, o que realmente são?
“A condenação é um acordo resolvido,
Meu querido, terás a constatação.”

A voz se cala e em pouco tempo
Vejo um templo e ouço um bater de asas.
O som de vaias que ecoa no templo
No momento em que o Diabo fala.


Tomo III

A reunião

“Deixem minha voz ser escutada.
A minha estada neste salão será curta.
Não há disputa, posto ter sido acertada
A direção de algumas almas com quem discursa.”

Reina um silêncio absoluto,
Como se luto, ali houvesse.
Continua em prece, a pauta do discurso,
Do ser esdrúxulo que o escreve.

“Façamos o sinal da cruz
Ao homem jus, o anjo alado;
Ali ao lado dessa luz,
Aquele que conduz, o senhor por todos louvado.”

Assim prossegue o Diabo
Encarnado no estilo retórico.
Sendo simbólico e sarcástico,
Dramático e muito estóico.

“Passo a palavra ao nosso anfitrião.
Eis a razão deificada em um ser.
Eis o poder em uma única mão.
A vastidão do próprio poder.”

Eclode novamente o bater de asas,
As vaias e assovios agudos.
De repente, todos mudos quando ele fala,
O dono da casa, o rei dos sisudos.

Sua voz estronda no silêncio
Como dentro da caverna, o eco.
Seu sucesso, eu agora entendo.
Um poder tremendo e tão perto.

“Sou o vosso Deus supremo.
Venho do nada abissal.
Real como estão me vendo.
Sendo o criador do bem e do mal.”

“Declaro esta reunião anual, iniciada.
Vetada será toda opinião
Que seja então contrária.
Lendária é a minha decisão.”

“As minhas almas são condenadas
quando salvas pela oração.
Elas serão recicladas e idiotizadas.
Eis a prática desta ação.”

“Jamais terão uma consciência
E nem ciência do que realmente são.
Sem decisão, sem coerência;
Somente crença e evangelização.”

“Tomei enfim, uma decisão radical:
Que o mal terá uma enorme elevação.
Compensação pelo meu percentual
Como Diretor geral dessa organização.

Sinto minha visão se turvar
E o ar me faltar, pelo que escuto.
É um insulto a quem vive de orar;
Condenado a acabar como parte de um lucro.

Deus é justo. Quantas vezes eu ouvi.
Aprendi que o mundo era injusto.
Agora descubro que para ser feliz
É desde a raiz, ficar longe disso tudo.

Prossegue assim o discurso anual.
Bem e mal, semblante do mesmo ser.
Ganhar, perder, nada tem com casual.
Deus é real nas nuances do poder.

“O Diabo é o Senhor do lado escuro.
Um ser astuto que sabe compreender
Quanto prazer eu tenho de meu orgulho.
Assim, faz tudo para seu posto manter.”

“É o guardião da cidade sem perdão,
Onde não há infração, pois não há lei.
Sempre pensei em criar uma prisão;
Daí então, um carrasco eu criei.”

“Quanto a vós, de milhares de legiões,
Sois os cordões que nos ligam aos humanos.
Um ledo engano de minhas divagações.
Suas privações fazem parte de meu plano.”


O plano

“Consiste esse plano em três etapas:
A primeira com a farsa de um velho pensamento
Onde fiz um juramento que de nada adiantava,
Uma terra desejada esquecida pelo tempo.”

“Na segunda etapa, a promessa foi em vão.
Um varão nascido de uma jovem casta,
Não passava de outra dissimulação.
Então eu o mandara para salvar todas as almas.”

“A terceira, deu-me a idéia o Diabo.
Fui ousado em tomar tal decisão.
Uma nova visão de um cura revoltado
Que exaltaria o pecado e a condenação.”

“Houve reforma e contra-reforma na religião.
Uma nova legião de atormentados,
Mais fanáticos e de muita ambição
Numa dispersão pelo mundo, alucinados.”

“Acreditando estar salvo pela crença,
Não dispensa nenhum deles, o dinheiro.
No mundo inteiro há desavença,
Muita ofensa e também desrespeito.”

“Eis que o plano está dando certo.
Há um deserto de bom senso;
Um pretenso homem sério
Que decerto é um hipócrita tremendo.”

“Eles herdarão meu anacrônico céu.
De juizes a réus passarão.
Continuarão na língua, a terem fel.
Não há mel, onde eles ficarão.”

“Quanto à minha já citada decisão,
Tem por razão, o número de maus
Que sobem nas naus da conversão.
Daí então, será alguns degraus.”

O Diabo interrompe o discurso
“Este recurso eu não havia pensado.
Do meu lado, ainda vou pagar-te juro.
Ao escuro, poucos serão condenados.”

“Ainda restam os que pensam,
Os que tentam aos beócios esclarecer,
Os que pedem o porquê e que nos pesam,
Que desprezam o que tentamos fazer.”

“Os hereges que nos deram outras formas.
Nessas formas fomos nos distanciando
Do humano e da sua nova escola.
Não importa, não fazem parte dos meus planos.”

“Porém, não permitirei que o mundo seja uma aldeia.
Que ninguém creia que exista Deus e Diabo.
Que ambos os lados é apenas uma teia
Que a si semeia o caos e o acaso.”

“Tenho a meu favor, as guerras entre os humanos.
Há muitos anos, desde que o homem habita a terra.
Porém estas são da tua parte, Demônio.
Plano árduo para a alma que o despreza.”

Aproxima-se do Diabo, um anjo negro;
em segredo, anuncia ao seu ouvido.
Aturdido, o Diabo sobe ao conselho
E vermelho anuncia o acontecido.

“Sólio foi encontrado pelas almas perdidas;
Uma amiga e um amigo do passado.
Deve ter sido avisado pelas ditas,
Comovidas com seu triste estado.”

De repente, estou na mesma pedra.
A voz me cerca. “Fomos descobertos.
Sejamos espertos, saiamos da caverna.
Espera. Adeus. Estaremos por perto.”

“O que fazes, Sólio, sobre esta pedra;
Numa caverna, do mundo isolado?
Com quem tens se encontrado, me interessa.
Depressa; quero ouvir teu comentário.”

- És o Deus que tudo vê, que tudo escuta.
O que eu faço nesta gruta, tu não sabes?
Minhas frases, tu já não mais escutas?
Tua audição é curta como são os teus olhares.



A visão

“Como ousa assim falares, ser iníquo.
Foste rico e acabaste dependurado.
A soma de teu pecado é teu castigo.
Se não estiveres comigo, estarás com o Diabo.”

“Deus seja louvado!” ouço o Diabo.
“Ao meu lado, não serás repreendido.
Não haverá castigo e nem pecado.
Serás um escravo no limite do sentido.”

- Não duvido. Porém, prefiro o meu lado.
Ser julgado por nada ter cometido,
Além do autocídio por estar desesperado.
Por culpados, vejo o Diabo e Deus enlouquecidos.

Nesse instante sinto uma dor lancinante
Em minha fronte, a estourar meus miolos;
Fecho os olhos e uma visão arrepiante
Leva-me distante para o lado dos mortos.

Novamente a Deus e ao Diabo revejo.
Neste ensejo, peço para sanarem minha dor.
Sem me dar valor o Diabo manda um beijo.
Deus aponta-me o seu dedo indicador.

Passa a dor. Dedo em riste, Deus aponta para frente.
O Diabo sorridente me falou:
“Eis a dor em tua mente.
Tua amada está ausente. Mas de mim não escapou.”

Vejo entre as almas néscias, minha família.
Triste ilha onde nada tem valor.
Todavia, o meu amor eu não veria.
Estaria onde o Diabo me falou?

Viro as costas para cena tão horrenda;
Minha prenda no limite do cansaço.
O seu braço estendido me acena.
Tive pena por eu não tê-la salvo.

Volto aos filhos parvos que não me reconhecem.
Seus olhos parecem ver a Deus somente.
Vejo minhas sementes a fazerem preces.
Homens e mulheres perdidos para sempre.

De mentes vazias, sem nenhum passado;
Espíritos condenados ao amor doente
Que nem mesmo sente o calor ao lado.
Tão abandonados e de si ausentes.

Cânticos e louvores, gritos de alacridade.
Almas sem vontade, sujeitas ao olímpico.
Flores sem espinho, sem olor e naturalidade.
Na mediocridade, seguem um só caminho.

Que empíreo sombrio o mundo almeja;
Onde ninguém deseja questionar,
Onde não há ardor quando se beija,
Não há queixa, nem mesmo um ansiar.

O beijo

Eu prefiro vagar entre ruínas.
Mas ter minha própria opinião,
Sempre ter a visão de quem caminha,
Sem seguir uma linha, a qualquer direção.

Volto à sã consciência, nada vejo.
No escuro, desejo descansar.
Amanhã, procurar é o que desejo.
Sinto um leve beijo. Adormeço sem sonhar.

Na manhã seguinte acordo mais disposto.
Lavo o rosto. Sou levado ao grande salão.
Bate o coração ao ver de novo
A suprema do povo, a jovem Razão.

Sinto essa emoção pelo olhar urgente.
Algo a jovem sente. Lembro-me do beijo.
Um enorme desejo e o corpo quente.
Age diferente. Isso eu percebo.

“Voltemos à conversa interrompida pelo teu silêncio.
Que tal falarmos do tempo, sem pressa.”
Concordo com ela. – Então conversemos.
Os lábios movendo, distante da conversa.

A minha procura pelas almas perdidas
Estendeu-se por alguns dias. Mas deu resultado.
Um casal desvirtuado, às escondidas.
Assim, àqueles dias, fomos dois apaixonados.

Por mais que eu gozasse de sua juventude,
De sua plenitude; havia em mim, um vazio.
Eis que meu desafio exigia uma atitude.
E minha inquietude levou-me a ser mais frio.

Precisava tirar meu verdadeiro amor da geena.
Sua mão ainda acena pedindo por favor.
Sentia a sua dor diante de tal cena.
Que pena, vê-la no limite do pudor.

Porém, encontro afinal às almas perdidas,
Despidas de imagem, só posso escutá-las.
Não tento enganá-las só quero a saída
Para juntar minha família, às ditas almas.

“Não vai ser tão fácil, Sólio, teu pedido.
Um espírito perdido é um eterno fugitivo.
Por ninguém é visto. O único motivo
É ser livre e desimpedido, mas jamais, vivo.”

“A primeira fuga, será a de tua amada.
O inferno é uma casa com menos segurança.
Não dê tanta importância àquelas amarras.
Com tamanha farra, iremos desatar as suas tranças.”

“Descanse o bastante, Sólio, tenha calma.
Quando sentirem a falta da fuga ousada
De tua amada, virão com as garras
Em busca das almas que andam ocultadas.”


A fuga

“Deus e o Diabo vão te interrogar;
Querer encontrar a dama perdida.
É certo que uma briga irás arranjar.
Tentaremos salvar a tua família.”

“No céu será mais difícil do que no solo infernal.
Pois a lavagem cerebral não os deixa escutar.
Tentaremos achar um meio legal
Para trazê-los ao normal e o resgate efetuar.”

Assim, eu espero por mais outros dias,
Na mesma agonia de um cão enjaulado.
E o meu cuidado até parecia ironia;
Que às almas perdidas, não pegasse, o Diabo.

Uma noite escuto uma voz conhecida,
De minha amiga, dizendo que dera certo,
Que a fuga decerto já fora ocorrida,
Que minha querida estava por perto.

Agora seria o maior desafio, a entrada no céu.
Seria cruel ver uma alma aflita por ser libertada.
A fé arraigada era um grosso véu
Que o triste réu ao castigo aceitava.

Em mais alguns dias me encontro vencido.
Meu corpo dorido por ânsia e por medo
Que não fosse feito ou se ocorrido,
Ninguém fosse ferido e nem fosse pego.

Dessa vez escuto a voz do amigo,
Ainda abatido, me contar em segredo:
“Não tenhas mais medo, ombro erguido,
Porque não duvido que Deus virá cedo.”

- Agradeço amigo, por teus atos heróicos.
Este ser estóico, saberei enfrentar.
Irei me juntar a vós, o dia está próximo.
Vá logo, Deus poderá chegar.

Pouco tempo fazia que eu me despedira.
Temo a ira do Deus venerado.
Meu estado de dor enfim passaria.
Pois minha família havia se libertado.

Ouço a voz, temendo o julgamento.
Nesse momento, pensei em me esconder.
Para que? Ele me acharia com o tempo.
Meu tormento era me absorver.

“Herege, o que andaste fazendo?
Estás sabendo que tua prole é perdida?
Tua vida não durará tanto tempo.
Estás vendo que não terás mais saída?”

“Desgraçado” grita o diabo esbaforido.
“De metido, foste tu o responsável.
Condenável, o teu ato de inimigo.
Não duvido, pois tu és um deplorável.”

- O que houve? Minha amada está livre?
Não duvide que eu estou satisfeito.
Mas não tenho peito para tamanho deslize.
Não se irrite, a vós, eu estou sujeito.

“Sentirás o peso de minha mão.
De antemão providencio obstáculos.
Meus tentáculos sempre te alcançarão
E em vão tentarás ultrapassá-los.”

Já o Diabo, age de forma diferente.
“Que demente tu és, Sólio, que coragem.
Tua passagem será breve, vê se entende;
Estarei quase sempre ao teu lado, na viagem.”

- Agradeço pela tua companhia.
Mas não preciso de guia, nem de sombra
Que assombra noite e dia.
Do que eu dizia, o Diabo não fazia conta.

“Votaremos.” Eu escuto num sussurro.
Fico mudo ante o medo de falar.
Caminhar pelo corredor escuro,
Sem futuro, dá vontade de chorar.

Ao encontrar a bela e jovem liderança,
Tenho esperança que ela possa compreender
Que nada posso fazer, ou me alcança
O dedo em forma de lança do Senhor poder.


A despedida

- Eu partirei amanhã, continuando a jornada.
Em busca de minha amada e minha prole.
Por favor não chore. Eu voltarei a esta casa.
És uma jovem encantada e forte.

- Assim, suporte nossa despedida.
Bendita a hora em que te conheci.
Quando te vi, pensei que não compreenderia
A tua sabedoria. Fui apenas teu aprendiz.

Ela me beija e me diz baixinho:
“Irás sozinho. Mas estarei contigo.
És mais que amigo, posto ser carinho.
Segue teu caminho, feliz consigo.”

Nos entregamos ao desejo ardente
Que somente o corpo tem o poder de sentir.
Juntos a seguir nosso sangue quente
Que a alma não sente sem ao corpo se unir.

Foi a noite mais longa de minha vida.
O que me intriga é que foi cheia de vontades.
Mas minha metade, não estava viva,
E ainda escondida das duas deidades.

Amanheceu. Parti com um aceno que não dizia adeus.
Enquanto Deus e o Diabo me censuravam,
Os meus pés caminhavam em busca dos meus.
- Adeus! Os meus olhos marejavam.


A casa da árvore

Depois de muito andar pelo continente
E ver tanta gente absorvida pelas fantasias,
Diria que o mundo em que vivem, realmente,
Depende de suas tolas alegorias.

Encontro uma casa suspensa em uma árvore.
Já tarde, procuro me abrigar em seu interior.
A alcanço com louvor, mas minha perna arde.
Quem sabe, algum inseto me picou.

Adentro o recinto entre enormes galhos,
Um cenário de beleza sem igual,
Magistral em suas paredes, seu telhado
Animado, esqueci até meu mal.

Caminho a uma porta que há nos fundos
Pergunto em voz alta: - Há alguém aí?
Ao descobrir que havia muitos,
Em alguns segundos, viram-me ali.

Chamam-me para o meio das folhagens.
“Venha! A passagem é por aqui.”
Tentei subir como sobe um selvagem.
“Coragem! Que tu irás conseguir.”

Já sobre o enorme galho retorcido,
Sinto-me aflito por tamanha altura.
Não há desculpa, assim eu insisto;
Enfim, consigo superar a fundura.

Uma abertura no imponente caule,
Leva a um vale dentre as raízes.
Seres felizes e muito sagazes;
Porém, selvagens pelos seus deslizes.

Descemos por cipós o cavo da árvore
Por dentro do caule. Embaixo uma vila.
Depois da descida, um imenso vale.
Quem sabe, se sonho seria.

Havia um portal de madeira, em forma de arco.
Um charco teria que ser atravessado.
Do outro lado, um homem pintado,
Com um cajado, os pés descalços,

Mostrava passo a passo o caminho a seguir
E todos ali, o obedeciam sem medo,
Pisando no meio do brejo, a espargir
O limo que ali guardava segredo.

Também caminhei, os pés sob a argila.
Ao homem seguia; os locais indicados.
Com todo o cuidado cheguei a tal vila
Que vira do alto do retorcido galho.

Olhei para cima; o céu era chão e raízes.
Felizes, crianças brincavam no lodo.
No rosto, havia muitas cicatrizes
De dias infelizes de um homem morto.


Tomo IV

A teoria

Adentrei numa porta indicada.
Uma escada leva-me mais para o fundo.
Outro mundo, sob o solo que rachava
Numa vala onde tudo era imundo.

Eu me sentei junto a um velho cabisbaixo.
Falava baixo, compassado e docemente;
Entre os dentes, mal movia os próprios lábios,
Era um sábio com aspecto de demente.

“És uma mente aprisionada a este corpo
Que é pouco para o turbilhão fervente
De idéias que sente este teu ente composto;
Que sem rosto, não seria diferente.”

“Teorizo sobre nossa existência.
Nossa crença já não passa de modismo.
Entre o rito e o ceticismo da ciência
Há a essência da idéia como espírito.”

“Somos matéria que percebe as idéias
Que são eternas em sua realidade.
Nossa vontade é o que nos leva
Por essa terra, a todo realidade.”

“Se acreditas ser o filho de Deus,
no encéfalo teu, será realidade.
Se a comunidade for pelo juízo teu,
Serás filho de Deus de verdade.


- Eu sou um herege e vi Deus e o Diabo.
O que de fato achas que me aconteceu?
“Prevaleceu a tua idéia sobre o caso
E o resultado foi apenas conceito teu.”

“Tu não morreste ainda, eu te garanto.
No entanto estás preso deste lado.
Se o lado fosse o outro, parece estranho,
Não me acanho em dizer-te, serias finado.”

“Se tu fosses um ateu, o que verias?
Uma outra alegoria, uma visão inesperada
Acessada pela tua agnóstica teoria,
Por outra via, uma verdade adaptada.”

“Não existe o impossível para o pensamento;
Não há tempo, nem mistério, nem enigma,
Posto a vida ser apenas um momento
E o próprio pensamento, a verdade percebida.”

“Tudo que acreditamos se torna realidade.
Na verdade, depende do consciente.
São idéias existentes em outra realidade.
A realidade das idéias permanentes.”

“Tudo é real desde que acreditado.
Seja Deus ou o Diabo, seja apenas energia,
Seja essa a única vida, tenha também outro lado;
Resultado, realidade subjetiva coletiva.”

“Há enésimos pensamentos individuais,
Os quais são a realidade individual subjetiva.
Coletiva quando os indivíduos pensam iguais.
São reais, é a visão da maioria.”

“O mundo material que conheces
Está prestes, a poeira, se tornar.
Mas não precisará de preces;
As idéias não esquecem de o materializar.”

“A mente é a consciência do que havia.
Assim, eu diria que a idéia é eterna.
Da caverna que alguém falou um dia,
Seu interior seria a matéria.”

“Nós somos uma realidade abstrata
formada por nossa mãe e nosso pai
ou nada mais que uma ação praticada
levada pelo imprevisível, ou ainda mais,

Numa versão manipulada, concretizada,
Uma idéia transformada em gente
Que sente, que pensa, que fala.
Uma curta estada que virá novamente.”

“O amor é uma realidade para quem ama.
Não se engana, aquele que jamais amou.
Se nunca acreditou, não passou de chama
Que na sua cama acendeu e apagou.”

“Ilusão é apenas a realidade não acreditada,
Realizada pela vontade das idéias existentes.
Diferentes, racionais e encantadas
Podem ser concretizadas quando gente.”

“Tudo é concebível na realidade consciente.
Sendo gente, temos o conhecimento.
Contudo, nem sempre percebemos estar presente.
A idéia, quando gente, está sujeita ao sofrimento.”

Com o dedo indicador, o velho risca o chão molhado.
Faz um círculo cortado por uma linha.
Não diz nada ainda, mantém-se calado;
Ocupado em avivar aquela linha.

São duas luas crescentes a formarem um só círculo.
É preciso, quando escreve o nome idéias
Numa delas. Percepção na outra, é lido.
“É o lado dos sentidos e da matéria.”

“As idéias são o mundo imaginado.
Do outro lado, eis a vida da matéria.
Pois que ela se acaba com o fato
De estarmos sepultados sob a terra.”

“As idéias permanecem em essência
Na ausência do espectro cefálico
Que estático perdeu a consciência,
Sem ciência do que é real de fato.”


O espelho

Qual um coco por um facão, cortado.
Lado a lado vê-se a vida, vê-se a morte.
E no corte, cada lado é espelhado.
Um espelho emoldurado pela sorte.

“Não há morte” diz o velho carismático.
“Pois de fato és reflexo no espelho;
Que inteiro não se vê por ser de fato
Um vampiro alucinado, de joelhos,

A rezar pra ver de novo o próprio rosto,
Um desgosto que o torna assim humano.
Um engano crê na carne do seu corpo.
Não sou louco, estou apenas ensinando.”

- Quer dizer que estou fora do espelho?
“Sem receio quando dentro estiver.”
- O que é na verdade, o espelho?
“É um meio da razão não ver a fé.”

“Tudo o que existe está de um lado
Isolado em idéias e do outro em substâncias.
A distância é um portentoso resultado,
Confirmado pela enorme discrepância.”

“Imagine esse mundo só de idéias.
Entre elas não existe o impossível.
Lá não é inconcebível ser eterna
a matéria idealizada do espírito.”

“Teu espírito é apenas tua imagem refletida
No espelho entre a vida e a morte
E por sorte ao eterno passaria
Se tua fibra, te levasse até a morte.”

- Tu estás dizendo que o autocídio
Levaria meu espírito ao lado eterno.
Pro inferno, essa história sem sentido.
Eu prefiro assim ficar do lado externo.

“Filho, o mundo do espelho é fantástico;
Elástico pela forma do que pensas;
Extensas as vontades e o espaço
Moldado pela tua experiência.”

- Que queres tu que eu faça?
A pouco tu falavas que eu vivo.
O mundo dos espíritos não me basta.
Preciso dessa massa e dos sentidos.

O velho como um louco se levanta,
Aperta sua garganta com as mãos
E de repente, então, diz que me ama.
Enfim, me manda seguir o coração.

Nessa hora se cala, cofia sua barba
E alarga o peito e explora o pulmão.
A voz de um dragão e uma calda
Fazem eu perder a calma e a razão.



A revelação

Vejo a face em si disforme,
Alto e forte o corpo arde.
Se desdobra em detalhe o ser enorme.
“Tua sorte, só a mim cabe”.

Reconheço a figura tão bizarra.
Nas mãos, garras. O Diabo se afigura.
Eis que a torpe criatura me agarra
E amarra o seu rabo em minha cintura.

Não entendo o que se passa.
Todavia, o Diabo acha graça quando digo:
- Estou morto, ou estou vivo? Que desgraça!
“Estás vivo pela graça do inimigo.”

“Que procuras, Sólio, o verbo ou a carne?
Em ti arde, a dor dos que são teus.
Tendo Deus te ressuscitado em parte,
Cedo ou tarde tomará o que é seu.”

- Gostaria de saber o que acontece?
Ajoelho-me numa prece, comovido.
O Diabo dá ouvido e reconhece,
Todo condenado merece ser ouvido.

- Eras tu, o velho cabisbaixo que me falava,
Que estava a pouco te negando a existência?
“Paciência”. O Diabo me acalmava.
“O seu corpo eu usara como minha experiência.”

“Quando eu me retirar, provavelmente,
O demente não resistirá ao choque.
Não é mole resistir ao indecente.”
Felizmente, o velhinho era forte.

“Saíste a procura dos teus parentes.
Insolente, o que pensas encontrar?
Um novo lar, onde serão felizes para sempre.
Se oriente, não existe tal lugar.”

Consigo, enfim, do Diabo me desvencilhar.
Tento encontrar a saída desse submundo.
Vejo no fundo, a abertura e o sol a brilhar.
Ao alcançar, olho atrás a cara do imundo.

Saio em meio ao sol ardente,
Pés dormentes de tanto caminhar.
Mal posso olhar a minha frente;
O que me parece gente, tento divisar.

Peço água, mas ninguém parece escutar.
Estão a orar num fanatismo perigoso.
Como um louco, há alguém a gritar,
Sem parar, um aleluia estrondoso.

Eu encosto o meu corpo a uma parede.
Sacio minha sede numa torneira enferrujada.
Limitada, minha visão divisa aquele;
Sei que é ele, com a voz enfatizada.

“Meu irmão, escutai minha mensagem.
Vossa passagem teve minha permissão.
Diga então onde está sua coragem.
Minha imagem será tua salvação.”

E em meio à multidão
(Que ilusão, todos de olhos fechados)
Vejo o Diabo olhar em minha direção
E com a mão, abençoar os coitados.

Uma senhora que se encontra ao meu lado
E me vê admirado, grita: “Glória!”
Uma história que me deixa arrepiado;
Ver o Diabo, aclamado, fazer hora.

Saio sem fazer barulho, sorrateiro.
Ao passar por um mosteiro, adentro a porta.
Não importa se eu não era o primeiro;
Ainda sendo o derradeiro, escuto: “Olha!”

O Diabo com uma vestimenta preta,
Diz: “Prometa, porém ajoelhado.”
E calado cada um então aceita;
Não se deita só por falta de espaço.

Fico ali, outra vez, admirado.
Tão apático diante de tal sorte.
Como é forte esse desejo levado
Com cuidado até a sua morte.

De repente, todos juntos dizem amém.
Cada um é refém de sua fé,
Um escravo de Deus até o além,
Onde também nunca ficarão de pé.

Aproximo-me de uma porta lateral,
Um portal de enorme estrutura
Com uma pintura de um belo castiçal
Onde o mal alimenta uma criatura.

Saio à rua, sem saber aonde ir.
Tento seguir, mas me impede, a turba.
Numa curva, eu consigo então fugir.
“Entre aqui.” Diz uma estranha figura.

Já na sala, eu diviso uma enorme mesa
Rodeada de cadeiras. Homens sentados
E de olhos fechados. Velas acesas.
Alguém acena a cabeça ao convidado.

Outra vez, a voz do Diabo: “ Apareça.
Não se aborreça. Não fique desconfiado.”
E o morto invocado, em voz alheia,
Um tanto feia: “Tome cuidado.”

“Não hesite, meu amado”. Diz o Diabo
Que me vê, ali, calado, sem ação.
“Dê-me a mão.” Diz, irritado.
“Está convidado a participar de nossa reunião.”

A taverna

Ao pressentir a intenção do seu chamado,
Eu viro pro outro lado, corro em oposta direção.
“Corra não...”Ouço o grito ao meu lado.
Como um desesperado em meio à multidão.

Nessa minha louca pressa,
A multidão se dispersa, nem percebo.
No meu medo, corro à beça.
O que me resta é esconder-se em um beco.

Ouço uma música muito alta,
Um barulho de garrafa, e me aproximo.
Era um hino que louvava a cachaça.
Acho graça, escuto a voz do divino.

“Seja bem-vindo Sólio, sente-se à mesa,
Não há tristeza em uma taverna.
Aqui é eterna a brincadeira.
A lua clareia tal qual lanterna.”

Puxo uma cadeira e sento com cuidado
Entre um efeminado e uma cortesã.
“Aonde anda Satã?” Pergunta em tom baixo.
Eu olho desconfiado para o velho Xamã.

Deus estava em minha frente
Como gente disfarçado,
Num pesado e sujo ambiente.
Eu descrente, me senti envergonhado.



Peço licença a Deus para ir ao banheiro
“Vou primeiro”. Toma a frente, indignado.
Já de volta e sentado, eu me levanto ligeiro
E à porta do banheiro, corro então, desesperado.

Em um beco meio escuro,
Há um muro com um rosto desenhado.
Eu diviso alguém sentado com um tubo.
Absurdo, era Deus sendo drogado.

“Ta ligado, Sólio, vem pra perto”.
Era um beco tão deserto e tão calado
Que me senti desamparado ante o Esperto.”
- Está certo! E corri pro outro lado.

Finalmente eu consigo descansar
Num lugar que parece aconchegante.
Num instante, adormeço sem sonhar.
Ao acordar, vejo um prado verdejante.

Acreditando está no paraíso;
Indeciso, se sorria ou chorava.
Acalentava-me Deus por isso,
E com isso apenas me enganava.

O Diabo estava de tocaia.
Vaia ao me ver voltar.
Tento passar, tal potro na baia,
Na há quem saia do mesmo lugar.

Eu estava entre Deus e o Diabo,
Aprisionado, sem saber o que fazer.
Tento esquecer as ofensas do pecado.
Ao meu lado eu escuto Deus dizer:

“Sólio, osso duro de roer,
O que pensas tu fazer para escapar.
Deixa pra lá, vamos esquecer.
Eu, o Diabo e você, temos que conversar”.

“Temos um assunto pendente a resolver
O que foste tu fazer? Nos enganar?
O que há? Nós podemos entender.
Podes dizer onde às almas encontrar.”

Eu não tinha mais nem forças pra falar,
E rezar nessa hora não valia.
Eu teria que a eles enfrentar.
Então começo a falar o que sabia.

- Deus, sempre soube que me encontraria;
Que a hora da alegria vós iríeis acabar.
O que há? Sei mais do que eu devia.
Nessa minha travessia não vale a pena pensar.

- Ouvi a reunião que presidias Senhor.
Que o amor é um sentimento humano.
Que é insano teu sentido de valor,
Tirar e por num insidioso plano.

- Descobri tua sede de matar,
De controlar e condenar todas as almas,
Bater palmas ao ver o Diabo entrar
E espancar velhas de saias.

Descobri toda a farsa que é o céu;
Sei que o mundo é um réu sem absolvição;
Que ninguém tem razão é o mais cruel;
Que é fel, a suposta salvação.

Descobri que teu perdão
É ilusão para os arrependidos
Que iludidos, cegos em sua missão
Acreditam em vão, os pecados dirimidos.

Entre golpes e gemidos, estarão
No galpão do céu, como escravos,
Ou levados ao inferno da emoção
Em estranha devoção com o Diabo.

Eu não sei como é ter a alma perdida,
Que sem vida, não pertence a ninguém.
Sei, porém, como coisa decidida,
Que eu queria minha alma assim, também.

Desconheço o paradeiro de minha família;
Sei que em boa companhia ela está.
Se soubesse onde encontrar, eu não iria,
Pois seria uma forma de entregar.

Seja feita a vossa vontade,
Na verdade é a que prevalece.
Não há prece que a alma nos salve.
Tu bem sabes, nem aquela que te preze.

Deus me mostra um caminho florido
E diz: “ Filho, segue com teus pés.
Pergunta-me quem és e eu te digo.
És um ombro amigo capaz de atos cruéis.”

“Eu te fiz a minha imagem e semelhança.
És miséria e pujança, és o ódio e a dor;
Eis quem sou, pessimismo e esperança,
A mais falsa lembrança de amor.”

“Sou a saída para todo o desespero.
Imponho o medo àqueles que acreditam,
Não duvidam e me tem maior apego.
O que vejo são fanáticos que não hesitam”.

“Faço uso do Diabo e da condenação
Para ter em minhas mãos, todas as almas.
Tenho calma e através da devoção
Arranco cada coração com minhas garras”.

“Por ser Deus, o Senhor absoluto,
Eu não luto por nada nem ninguém.
Digo quem deve ou não ficar de luto.
Sou astuto e disfarço muito bem”.

“Eu criei o bem e o mal.
Sou o tal, ninguém pode me vencer.
O Diabo foi criado para ser meu serviçal,
Usa o mal para então me agradecer”.

“O mais ardoroso crente,
Inocente estará em minhas mãos
E se não, o Diabo ama gente
Calorosamente, não impõe limitação”.

“Chegou a hora da decisão final,
Bem e mal ou simplesmente a Terra.
Merda! Teu pecado original
Foi imoral, mas foi minha idéia”.

Entre Deus, a terra e o Diabo,
Claro que escolhi a terra.
Pois, só nela é que estaria salvo.
O pecado não passava de novela.

Deus sentencia numa voz estrondosa:
“Minha mão não piedosa te condena a uma vida eterna
Pela terra, não se importarás com a hora,
Na tua história, esquecerás o que era”.

“Mesmo que não reste vida, o planeta desolado,
Tu serás um solitário pelo mundo;
No recanto mais profundo e abandonado,
Não terás ninguém ao lado, só defuntos”.

“Nunca lembrarás das conversas que tivemos,
Nem ao menos uma única palavra.
Pela estrada, pode até ficar sabendo,
Talvez lendo, sem acreditar em nada”.

“Será como tu desejas, insolente,
Viverás eternamente sobre a terra;
Verás guerra e muito sangue quente;
Entre dentes, amaldiçoarás a terra”.

“Verás a vida dissipar-se a tua frente;
Gente doente, a chamar pelo meu nome.
E que tombe cada um. Indiferente
Será para este ente, vê-los morrer de fome.”

“Sentirás vontade de não existir,
De reduzir tua vida ao meu inferno
Que é eterno em meu céu. Ao abrir,
Vais ouvir que o Diabo está por perto.”

“Viverás em completo esquecimento.
Em nenhum momento lembrarás de tua morte.
Tua sorte será selada pelo tempo
Que o vento soprará de jeito forte”.

“Não haverá corte de navalha ou espada
Que desfaça tua carne, e talvez,
Tua altivez te traga mágoas,
Entre lágrimas perderás tua lucidez.”


O pedido

“Mesmo louco, acharei ainda pouco.
Porém outro, mais consciente de tudo.
Serás luto num silêncio harmonioso.
Horroroso teu olhar, quando no escuro”.

Interfere o Diabo e diz: “Senhor.
Por favor não imponha esse castigo.
Meu pedido é que ele sinta dor,
E na dor, lembre de tudo que eu digo.”

“Que se lembre de tudo que acontecer;
Que foi Deus que imputou-lhe tal tormento,
Que todo tempo foi ele que perdeu,
E que todo ódio seu é só lamento.”

“Que esse momento fique na cabeça
E que nunca ele esqueça do Diabo.
Ao seu lado peço que também padeça
E sofrendo apodreça, todo herege revoltado.”

“Que sua família, jamais reveja
E que nunca esqueça do pós-morte,
Onde sua sorte foi tristeza.
E tenha a certeza de que nunca morre”.

“Que tenha lembrança da felicidade;
Que sinta saudade do que foi um dia;
Que a alegria sentida de verdade
Seja só maldade e pura agonia”.

“Por estás sentado a minha direita
E ser bem estreita a nossa amizade;
Pois se na verdade, Diabo, tu desejas;
Assim seja feita a tua vontade”.

Deus estende a mão sobre a minha cabeça.
“Sólio, não esqueça que não há perdão.
Sendo bom ou não, podes ter certeza,
Serás uma presa em minha prisão.”

Uma intensa luz ofusca-me a visão.
Tento ver em vão, o que há a frente.
Entretanto, de repente, diviso um calçadão,
Onde, um cidadão passa indiferente.

Reconheço a cidadela onde nasci.
Quanto tempo! Vi minha casa velha.
Por saudade dela foi que enfim a vi,
Ante meu nariz, era mesmo ela.

Recordei o tempo que ainda criança
Tinha esperança de servir a Deus.
Eis que os sonhos meus, vindo à lembrança,
Minha mão alcança o que negou Deus.

Acreditava, como minha mãe, numa leitura sagrada.
Tão enganada com a religião.
Temia o Cão e a Deus adorava.
Nunca imaginara, o que ambos são.

Falava em Deus na lição de casa.
Se eu ia a praça, ouvia sermão.
O prelatício então nos encaminhava
Para a palavra da salvação.

Um dia, minha mãe segue o Híbrido,
Não sabe o risco de sua salvação
E seu coração fica endurecido,
E o seu sorriso perde-se em vão.

Dizia o pastor indignado com o Diabo:
“Com ele o fardo é bem maior.
Ele não tem dó do seu pecado,
Já o Deus amado é bem melhor.”

Eu pequenino ainda acreditava.
Cada palavra tinha algo a dizer.
Quando falava: “Você”. Então orava
E achava que nada iria acontecer.

A minha fé era maior que a razão.
A formação moldou minha personalidade.
Naquela idade, fantasia e ficção
Eram apenas a outra mão da realidade.

Papai-Noel para mim, uma divindade.
Ao saber da verdade, enlouqueci.
Reconheci que moldamos a realidade
Com uma única finalidade, ser feliz.

Eu era eterno num mundo volátil.
O corpo táctil nunca cederia.
A agonia me tornava fraco.
Pra desabafo, ninguém eu teria.

Durante o meu crescimento natural,
Busquei o bem, não o mal, através de religiões.
Resignava-me às condições de uma moral,
Sempre formal, sem ambições.

Eu procurava Deus por onde passava.
Não encontrava nada, somente eu.
Enfim descubro Deus e onde estava.
Se encontrava onde se escondeu.

Tornei-me um homem ateu.
Em Deus, já não acreditava.
O tempo então passava como eu.
No julgamento meu, ninguém pecava.

O desespero, um dia me traiu.
No mar bravio, a Deus peço uma graça.
Diante da desgraça, uma luz surgiu.
O meu amor sorriu, de volta em casa.

Esqueço a promessa e volto ao mar.
No mesmo lugar perco os meus.
Eu não perdôo Deus por não me levar;
Pois por errar, seria eu.

Eu me torno um herege revoltado
Com Deus, o Diabo e comigo mesmo.
De nada tenho medo e, acordado,
O meu pecado tem mais peso.

Um dia então me enforco.
Em foco vou ao céu e ao inferno.
Agora sou eterno e a terra retorno.
Porém não me conformo, não está certo.